O Caminho do Amor – Capítulo 49

Capítulo 49

 

            A pequena caminhada de dois quilômetros que leva à caverna me deixa tensa. À medida que nos aproximamos, a trilha vai ficando mais íngreme. Qualquer criança consegue andar por aqui, mas mesmo assim minha ridícula vertigem começa a embrulhar meu estômago. Quando finalmente chegamos, sou invadida por uma emoção avassaladora. Caio em prantos e de joelhos diante do altar de San Genadio. Fico soluçando aos brados, um choro profundamente sincero e intenso, uma vastidão absurda transbordando do coração. Como em um filme acelerado, vejo o fim de minha primeira peregrinação, minha cegueira provocada pela úlcera na córnea, minha experiência mística, minhas visões e as vozes em minha cabeça,  minha separação após dez anos de relacionamento, minhas paixões, minha vida boêmia em Paris, meu encontro com o amor, minhas viagens lançando meus livros, meu casamento com Florencio, meus aprendizados com diferentes mestres, e o caminho que me trouxe atravessando desertos, vales e montanhas até chegar aqui. É como se subitamente sentisse os dez anos que passaram e me trouxeram de volta para cá, ao lugar onde confrontei meus maiores medos e encontrei pela primeira vez a vivacidade do silêncio que cura tudo.

            No entanto, o amor cumpre a sua função e não permite que a coisa vire um dramalhão mexicano. Alheio a minhas tempestades internas, Florencio está em êxtase com a beleza do lugar. Soltando gritos de euforia, ele se apodera de uma estola que parece uma pele de um jaguar, pousada sobre a pedra diante do altar, provavelmente uma oferenda para o santo. Após elevá-la teatralmente aos ares, rugindo como um bicho, ele a coloca em volta dos ombros, sentindo-se o próprio homem das cavernas. Logo, ele decide desafiar a sua vertigem, mais amena que a minha, e arrisca escalar até a outra caverna da qual Tomás nos falou, que fica mais acima e supostamente é um lugar perfeito para se conectar com a Mãe Terra e a energia feminina. Quando ele desaparece, eu apenas escuto os seus berros efusivos e suas gargalhadas nervosas:

            _Antonella, não sei se este é o caminho, estou com medo! Estou fazendo xixi no abismo! Iuhuuuu!!!!

            Respiro fundo. Não há dúvidas de que Florencio e eu somos mais do que bipolares, somos “multipolares”. Eu alterno entre uma tristeza suicida, que é uma espécie de raiva ao avesso, e uma euforia histérica e ele entre uma fúria assassina e um entusiasmo epileptiforme. É claro que não ficamos só nisso. Há inúmeros matizes emocionais entre esses extremos. No entanto, compreendo perfeitamente por que algumas pessoas acabam considerando-se doentes, drogando-se ou medicando-se ao perceberem que têm tais aberrantes flutuações emocionais. Se nós dois não tivéssemos um forte caminho espiritual, se não trabalhássemos com arte e literatura e não usássemos as emoções como alimento da nossa criatividade, talvez não suportássemos o tranco. Florencio volta sorrindo de orelha a orelha:

            _Nossa! A caverna é demais! Parece mesmo um útero!

            Ele me oferece ajuda para ir até lá, mas eu ainda não sinto que é o momento. Da primeira vez não tive coragem, talvez dessa vez eu consiga. Durante a tarde meditamos, rezamos juntos diante do altar e decidimos fazer um jejum. Armamos a barraca na frente da caverna. Uma simpática espanhola aparece, senta-se conosco, fala de suas viagens e seu caminho espiritual e depois vai embora, deixando uma sensação bonita. Logo, a noite cai com um negrume completo envolvendo a tudo. Fazemos uma pequena fogueira. Não tarda para que escutemos muitos passos aproximando-se da caverna. De repente, chegam quatro peregrinos: Alfonso, um espanhol, Ana Isabel, uma alemã espanhola, Arnaud, um belga, e Caroline, uma suíça alemã. Não estávamos esperando por companhia, mas de repente nós dois nos tornamos algo assim como “hospitaleros” do lugar. Damos as boas-vindas aos peregrinos, sugerimos que acomodem seus pertences dentro da caverna, já que não têm barraca. Sentamos com eles em círculo, nos apresentamos mutuamente, e conversamos sobre meditação e espiritualidade. Acabo lendo uma “Carta do Destino” para cada um deles. Novamente, as palavras fluem, independentes de mim, com suavidade e força. Todos sentimos e respeitamos a magia grandiosa do lugar onde estamos. As montanhas olham para nós, silenciosas e onipresentes na escuridão. Somos um círculo de peregrinos com almas de aventureiros e corações de crianças, em um lugar mágico e fora do tempo, em busca de nós mesmos, dispostos a realizar nossos sonhos e ir além daquilo que conhecemos.  

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 48

 

Capítulo 48

Encantados pela magia do lugar, resolvemos apenas ir às cavernas a partir de amanhã. Após uma tarde de ioga e meditação, à noite comemos no tal bar que mais parece uma taberna bem antiga. Os donos e os habitantes do vilarejo em geral parecem sisudos e não são de muita conversa. Tudo aqui é silêncio. No entanto, ainda que bem cara, a comida regional que nos é servida é muito saborosa. Voltamos satisfeitos para a barraca e logo caímos em um sono profundo.

No meio da noite, acordo ao som de grandes cães uivando e latindo. A barraca é tão fina que é possível senti-los correndo e arfando pesadamente ao nosso redor. De repente, escuto Florencio soltando gritos abafados e chorando, mas percebo que ainda está dormindo. Uma onda de arrepios percorre a minha pele, os pêlos se eriçam nas minhas costas, como um gato quando sente algo nefasto. Agarro Florêncio e começo a sacudi-lo suavemente até que ele acorde.

_Você está bem? O que está acontecendo?

Coberto de suor, os olhos vermelhos de choro abrindo-se lentamente, ele geme:

 _Eu acho que eu tive um encontro com o diabo…

Quase sem fôlego e visivelmente assustado, ele começa a me contar em detalhes minuciosos o seu encontro com a escuridão enquanto os uivos dos cães ainda perfuram a noite:

_Eu acordei em uma espécie de vazio que cheirava a decadência. O odor nauseante e doce de carne podre… Um menino saiu da escuridão. Eu o reconheci. Éramos amigos na escola, mas às vezes nós não éramos amigos, sabe? Todos nós temos pessoas assim em nossas vidas. Às vezes nos dávamos bem, outras vezes éramos inimigos. Mesmo assim, quando seus olhos azuis mergulharam nos meus, senti as mesmas dores ulcerosas na barriga que eu tinha quando eu era criança. Um tipo de dor pungente, como uma apendicite comendo as entranhas… Meu Deus, a dor era terrível e eu comecei a chorar por causa das sensações dilacerantes. O que aconteceu em seguida foi tão horrível que eu não quero nem mesmo dizer… Eu comecei a sentir minúsculas garras me rasgando por dentro. Então, fui dominado por uma enorme onda de dor que tomou conta de todas as minhas veias. Comecei a excretar, a literalmente dar a luz pelo ânus, em lenta agonia, a diversas coisas mortas. Centenas, milhares delas. Tirei de mim inteiros ratos mortos, as suas garras desvastando as minhas cavidades internas, tirei aves mortas e outros cadáveres que nasciam da minha barriga inchada. À medida que eles saíam, eu vomitava sangue negro e bílis, uma gosma bem esverdeada, eu me engasgava e chorava de dor. A sensação afiada e cortante era absurdamente dolorosa, era um parto homorrágico, e de repente contorciam-se à minha volta inúmeros cadáveres de pequenos animais e pássaros. Quando olhei novamente para os olhos do menino, em meio às  lágrimas, ele sorriu gentilmente, e disse: “Você está vendo? Isto é o que eu posso fazer com a alma de um homem. Você não sabia? Eu fui feito para derrubar anjos.” Neste momento, eu engasguei com o sabor de ferro do sangue sobre meus lábios e acordei dentro do sonho. Subitamente, tudo se tornou lúcido, como se eu percebesse que estava dormindo. Eu olhei nos olhos da criança, agarrei uma grande espada que estava ao meu lado, e perguntei: “Espere aí, quem é você?” Rindo, ele começou a desaparecer na escuridão enquanto dizia:  “Ah, meu pobre e obscuro Serafim, você sabe muito bem quem eu sou.” E o eco começou a desaparecer. Acordei com você me sacudindo. Meu Deus, era tão vívido! Tão real! Meu Deus! Ele me disse que ele foi feito para derrubar anjos! Ele realmente me disse que ele foi freito para derrubar anjos!

Florêncio está delirante. Com os dedos, eu o impeço gentilmente de repetir a frase mais uma vez. Os latidos páram. Florêncio senta, sai da barraca e vomita. Depois disso, ele se deita novamente ao meu lado. Eu o abraço, coloco a mão sobre seu peito até que sua respiração se acalme. Pouco depois, voltamos a adormecer. Quando abrimos a barraca, de manhã, um imenso cão está deitado a poucos metros, olhando em nossa direção, como se estivesse tomando conta de nós. No momento em que saímos, ele levanta e vai embora. Mais tarde, no bar, apenas escutamos em silêncio enquanto dois aldeões falam entre si:

_Você escutou os cachorros ontem à noite? Eles estavam enlouquecidos! Nunca vi nada igual!

_É verdade! Eles não paravam de latir e correr por todas as partes. Quase não consegui dormir.

Intrigados, Florencio e eu nos olhamos. Acho que finalmente estamos preparados para ir para a caverna.  

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 47

Capítulo 47

Como previsto, o mau humor, as dores e as dificuldades de Florencio crescem vertiginosamente ao longo do caminho. O transe intenso da caminhada hoje é doloroso e profundo para nós dois. No entanto, as cadeias de montanhas à nossa volta são de uma beleza estonteante. A noite começa a cair e faz surgir um vento desconfortável. Os ventos e as alturas sempre me deixam inquieta. Começo a me sentir massacrada pela magnitude da natureza, pelas queixas de meu marido, por minha apreensão em voltar a este lugar depois de tanto tempo e também por minha vertigem. Estou caminhando mais à frente de Florencio. De repente, após algumas reclamações, trocamos gritos e desaforos à distância. Exausta, desabo no chão e tenho uma furiosa crise de choro. Está anoitecendo e ainda não chegamos nem mesmo a Peñalba de Santiago, o lindo vilarejo medieval que fica a dois quilômetros da caverna onde queremos dormir. Florencio se aproxima e eu aviso:

_Olha, eu achei que estava compartilhando um lugar especial com você. Não tenho culpa que você está sofrendo. Também não está sendo fácil para mim. Se você não cooperar, não vou mais a lugar nenhum!

Subitamente calmo, Florencio resolve:

_Tudo bem, não vou dizer mais nada.

Respiro fundo, levanto e sigo caminhando. A noite cai. Chegamos à Peñalba na escuridão. O vilarejo é belíssimo, iluminado por postes que emitem uma luz amarelada. Estamos em algum lugar do passado. Alguns espíritos certamente ainda andam pelas ruas de pedra achando que não morreram, pois muito pouco deve ter mudado desde a Idade Média. Perambulamos pelas ruelas desertas até encontrarmos uma pensão. Pilar, a dona, nos recebe na porta e explica:

_ Desculpem, mas a pensão está lotada e não há outra aberta por aqui nesta época do ano. Porém, se quiserem, podem acampar em meu terreno, logo na entrada do vilarejo.

Aceitamos de bom grado. Após fazer umas compras no único bar, armamos a barraca no escuro, no terreno oferecido por Pilar. Bebemos uma garrafa de vinho oferecida por Darvi, comemos sanduíche de jamón curado e chocolate de sobremesa. Caímos em um sono pesado e sem sonhos. Ao acordarmos e abrirmos a barraca, as montanhas à nossa frente são inacreditáveis. A paisagem é épica e vasta. Mais abaixo, além do charmoso vilarejo, é possível ver o Vale do Silêncio, coberto misteriosamente pelo bosque espesso e cheio de vida, como a vulva de uma deusa. Estamos pasmos por tamanha magnificência. O coração se dilata. A magia transpira da paisagem. Sem dúvidas, este é um dos lugares mais bonitos do mundo.

De repente, estremeço de susto, pois uma música alta quebra violentamente o encanto silencioso da paisagem. Olho para o lado e vejo que Florencio ligou o som portátil na altura máxima. Ele sai da barraca feliz da vida. Uma irritação poderosa toma novamente conta de mim.

_Dá para desligar a música? – eu grito.

_O que?

A música está tão alta que ele não me escuta!

_Dá para desligar esta merda?

_Não acredito que você está me pedindo isso agora! Este lugar é maravilhoso e fica perfeito com esta trilha sonora! Você é uma pesada! É uma bruxa controladora!

_E você é um folgado que não pensa nos outros!

As sombras. Ele começa a gritar. Por um rápido momento, vejo meu padrasto na minha frente, quando ele perdia o controle, berrava e xingava incontrolavelmente. Um arrepio de aversão percorre todo o meu corpo. Logo, penso que durante as brigas Florencio provavelmente também  enxerga experiências dolorosas do seu passado em mim. Afinal, não é por acaso que as pessoas se apaixonam…

O amor é a dança da luz com sombras. Mais além, o amor é a música que faz a dança acontecer. Quando nos abrimos a esta música, a luz dos dançarinos se funde, as sombras se dissolvem, e o milagre acontece. No momento que isso ocorre, a força da vida nos invade e nos transforma. Um relacionamento torna-se espiritual quando os parceiros entendem que têm que trabalhar em si mesmos e com o outro para conquistar estes momentos sagrados.

Mas às vezes nos esquecemos disso. Como agora. Sinto-me exausta. Assim não vou agüentar mais muito tempo. Estou prestes a ir embora de vez. Não sei se vamos conseguir curar essas feridas. Resolvo rezar em voz alta.

_ Deus, por favor, me ajude a dizer as coisas que me atrapalham para este homem de uma forma que ele compreenda que não o estou ofendendo.  Ajude-o a aprender a se comunicar comigo de outra forma, mais gentil, a me dizer o que pensa e explicar aquilo que acha errado sem ter que gritar nem ofender. Amém.

Florencio apaga a música. Ficamos em silêncio. Estamos no Vale do Silêncio. O encontro com os demônios já começou.

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O caminho do Amor – Capítulo 46

Em um dos minúsculos vilarejos medievais que permeiam o belíssimo caminho nas montanhas, paramos em uma fonte para mergulhar os pés na água fria e encher as garrafas. Estou sentada um pouco mais à frente que Florencio. Um rapaz se aproxima com um cigarro na mão e começa a puxar papo:

_Você tem fogo?

Viro-me para Florencio, pego o isqueiro dele e entrego ao espanhol. Ele acende o cigarro e fica me observando com interesse:

_De onde você é?

_Sou brasileira.

_Mas fala muito bem espanhol.

_Obrigada.

Ele continua olhando fixo para mim. A situação é um pouco estranha. Ele pergunta:

_Brasileira, hem? Você parece européia. Pode tirar os seus óculos escuros para eu ver os seus olhos?

Afinal, o que este cara está querendo? Não pode ser o que eu estou pensando. Estou suada, fedorenta e acompanhada. Percebo Florencio ficando tenso atrás de mim. Eu tiro os óculos escuros e olho para o homem com ares de mulher séria. Ele comenta:

_Você é bem bonita…

Só faltava essa. Florencio se mexe, inquieto. Sinto o meu marido começando a borbulhar. A coisa está ficando surreal. Logo, Florencio pergunta com uma voz profunda de tenor de ópera:

_Ei, cara, você fala inglês?

_A little bit. – o nosso interlocutor responde com um forte sotaque, como se surpreso pela presença de outro homem. Para quebrar o clima, eu resolvo fazer graça e repetir o que ele disse, meio que imitando seu tom de voz e sua pronúncia:

_A little bit…

Florencio e eu caímos em uma gargalhada maliciosa. O rapaz olha de mim para Florencio e dele para mim, ambos vestidos de preto, usando o mesmo tipo de roupas e as mesmas mochilas, e parece que pela primeira vez percebe que não estou sozinha. Ele tosse um pouquinho e balbucia:

_Obrigado pelo fogo. Adiós.

Logo, vira as costas e vai embora. Florencio se levanta.

_Que petulância! Aquele cara estava dando encima de você na minha frente! Como se eu não existisse!

Eu me faço de desentendida:

_Será?

_Ora, Antonella, você percebeu muito bem. Vamos caminhar!

Irritado, ele sai apertando o passo. Eu suspiro. Antes disso acontecer, Florencio já estava começando a perder o entusiasmo inicial e sentindo fortes dores nos pés. Agora, ainda nos resta um longo caminho mal-humorado pela frente.

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 45

Capítulo 45

Dez anos atrás eu dormi sozinha na caverna de San Genadio, um escritor e asceta que viveu ali no século IX. Nela enfrentei meus piores demônios. Meus medos, minhas tristezas, minha falta de fé. Ali começou um profundo processo de cura em minha vida. Por isso resolvi voltar a este lugar com Florencio.

No caminho vemos novamente uma linda planta que parece com asas de anjo. Com ela, enfeitamos nossas mochilas. Estamos caminhando nas montanhas há muitas horas. Não temos certeza se estamos na trilha certa. Temos apenas o mapa desenhado a mão por Tomás. À nossa esquerda algumas ovelhas pastam docilmente entre as árvores. A luz do entardecer penetra por entre as folhagens e dá a tudo um aspecto de sonho. Tomás disse que há apenas um trecho no qual é perigoso se perder. Talvez seja este. Decidimos tentar passar para o outro lado da clareira que está à nossa direita e seguir por outra trilha. Quando começamos a atravessá-la, três imensos cachorros que deviam estar cuidando das ovelhas, começam a latir freneticamente e correr em nossa direção. Parecem três monstros pré-históricos voando com as garras arreganhadas, dispostos a nos engolir a qualquer custo. Florencio e eu nos olhamos preocupados:

_Ops… E agora? – pergunto eu.

Sem saber a resposta, decidimos apertar um pouco o passo. Talvez isso seja um sinal de que devemos ir mesmo nesta direção. Seria bom fazermos isso o mais rápido possível. No entanto, ao chegar à outra trilha, vemos que ela está bloqueada por árvores caídas e uma cerca elétrica.

_Por aqui não dá. _Florencio conclui.

 Novamente nossos olhares se encontram. Sem nada falar, entendemos o que tem que ser feito. Viramos para os nosso algozes e começamos lentamente a voltar para trás. Agora os cachorros já estão muito perto. São realmente enormes e seus latidos babados parecem rugidos de leões famintos. Caminhamos passo a passo na direção deles. Não há mais nada a fazer, o negócio é enfrentar o medo. Estamos em um transe silencioso, Florencio e eu. Os passos são firmes, entregues ao momento presente. Andamos com calma e sem olhar diretamente para os cães. Começamos a chamar baixinho, fazendo sons amigáveis:

_E aí, cachorrinhos?

_Olá, amigos…

Curiosamente, assim que começamos a nos dirigir para o local de onde saímos, os bichos páram de latir e começam a nos acompanhar abanando o rabo. Quando finalmente chegamos à trilha, eles nos deixam e voltam para as ovelhas. Nós dois percebemos imediatamente o que acaba de acontecer. Os cachorros nos ajudaram a não nos perder e, além disso, nos guiaram para o caminho certo. Emocionada, penso imediatamente na passagem bíblica que diz: “O senhor é meu Pastor e nada me faltará”. Antes de recomeçar a caminhar, olhamos para trás com espanto e reverência e gritamos:

_Muito obrigado!

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 44

Capítulo 44

Hoje caminhamos apenas quatro quilômetros, preparando-nos para os quarenta por vir, que nos levarão ao Vale do Silêncio. Chegar ao refúgio de Manjarin é uma boa surpresa. Dez anos depois, reencontro Tomás, o hospitalero mais emblemático e o último templário do Caminho, como ele gosta de se denominar. Ele diz que me reconhece, mas duvido um pouco. Logo, eu o parabenizo pela construção de um banheiro seco do qual a pessoa tem toda a vista das montanhas e das ruínas medievais ao fazer as necessidades. Ele sorri, orgulhoso de sua obra, após anos defecando no mato.

Começamos a conversar sobre o momento que a humanidade está atravessando. Como antigamente, Tomás é bem pessimista e compartilha a opinião de muita gente, que os próximos anos trarão catástrofes a calamidades ainda mais graves do que as que já estão ocorrendo. Ele fala das profecias apocalípticas relacionadas a 2012 e de portais dimensionais abrindo-se em diferentes lugares do planeta. De repente, um enxame de peregrinos franceses e idosos chega, com mochilinhas minúsculas, tirando uma batelada de fotos e querendo comprar suvenires. Tomás ri da minha expressão de espanto:

_Não dá para acreditar, não é? O Caminho mudou muito. Hoje em dia quase não há mais verdadeiros peregrinos. É tudo comércio.

_O que é isso, Tomás?

_Você ainda não viu? São os “turigrinos”. Turistas peregrinos. Eles compram pacotes completos nas agências de viagens, viajam em grupo e de ônibus. Todos os dias, andam alguns metros, tiram fotos, e voltam a pegar o ônibus mais à frente. Depois dizem que fizeram uma peregrinação. Bem, pelo menos eles compram lembranças do Caminho, o que nos ajuda a manter o refúgio.

Percebo um pouco de amargura na voz de Tomás. Olho para os turigrinos. Realmente, este tipo de mentalidade é um fenômeno da modernidade. O turista viaja com um grupo de pessoas conhecidas, paga para que tudo esteja organizado e assegurado, as passagens, a hospedagem, a alimentação, o seguro de saúde, as datas e os horários de chegada e partida dos lugares. A idéia é não deixar nenhum espaço para perigos nem para o inusitado. As férias são uma continuação do cotidiano no qual a maior preocupação dessas pessoas é a segurança. O medo do desconhecido e da morte é uma assombração constante. Toda a vida delas é uma construção para não entrar em contato com este medo ancestral. Sei que isto entristece Tomás, pois sem se abrir ao desconhecido é muito difícil despertar aquela espiritualidade mais profunda, a sensação de estar conectado com algo maior. Para quem já vivenciou este tipo de conexão, é muito claro que os maiores problemas de nosso mundo derivam da falta deste tipo de consciência mais vasta. 

Por outro lado, sei que esta gente nunca faria o Caminho se não fosse dessa maneira. Sinto que a energia do Caminho é tão forte e antiga, que talvez seja capaz de tocar qualquer um que passar por aqui. Quem sabe? Talvez uma simples imagem ou situação vivenciada aqui possa mudar a maneira de pensar ou sentir de algumas dessas pessoas. No final das contas, somos todos peregrinos no caminho da vida.

Às seis horas da tarde, Tomás faz a oração templária, um engraçado e comovente ritual no qual ele se veste como um cavaleiro da Ordem, segura uma espada, invoca anjos aos gritos e se curva diante da Virgem Maria. Sinto-me emocionada ao participar novamente da oração após tantos anos. Logo depois, o jantar é servido, uma generosa e simples refeição oferecida pelo refúgio. Florencio não consegue se conter e fica de olho nos diferentes presuntos crus e chorizos pendurados no teto. A criança interior de meu marido reaparece:

_Eu quero presunto! Eu quero chorizo!

Tomás sorri gentilmente:

_Sinto muito, mas eles são a nossa reserva para o rigoroso inverno, quando não ganhamos muitas doações.

_Ora, todo mundo sabe que o presunto vale ouro! Os templários não gostam de dividir as suas riquezas! – frustrado em seu desejo, Florencio brinca e todos dão risada. Por minha vez, sinto-me grata pela refeição e feliz por estar em uma daquelas situações típicas do Caminho, na qual estou comendo bem e trocando idéias com italianos, alemães, franceses, espanhóis e até mesmo uma japonesa.

Ao fim do jantar, Tomás desenha um mapa do caminho que nos levará ao Vale do Silêncio no dia seguinte. É um monte de rabiscos super confusos, que supostamente nos guiarão nas florestas e montanhas não sinalizadas. Igualzinho ao mapa que ele desenhou para mim dez anos atrás. Até as suas palavras são as mesmas do passado, quando ele chama a nossa atenção para uma espécie de clareira que haverá no caminho:

_Cuidado para não se perderem aqui!

Antes de nos retirarmos para nossa barraca, armada atrás do refúgio, acompanhamos um ajudante de Tomás até uma pedra. Ele sugere que nos deitemos ali para apreciar o céu noturno. Logo, ele conta como foi curado por um câncer graças à ajuda de Tomás, depois que todos os médicos lhe negaram a possibilidade de cura. Depois disso, veio viver aqui. Ele inspira profundamente:

_Aproveitem. Este lugar tem uma energia muito especial.

Começamos então, espontaneamente, a uivar para a imensidão estrelada. Florencio e ele até competem para ver quem consegue uivar mais alto. O resto do mundo já não existe. As estrelas respondem. As feras estão soltas. Os corações alados. Sinto um friozinho na barriga. Sei que a maior aventura do Caminho começa amanhã.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 43

Capítulo 43

 

            Foi difícil deixar Darvi. No entanto, o genuíno amor peregrino com o qual ele nos recebeu nos acompanhará por muito tempo. Assim é o Caminho, sempre deixando algum lugar, alguma situação ou alguém para trás. Sempre aberto ao que há de novo. A Cruz de Ferro, um monumento fixado sobre inúmeras pedras, onde paramos um pouco depois, fala exatamente disso.  Como muitos outros peregrinos, também Florencio e eu trouxemos duas pedrinhas cada um, uma como símbolo do peso que não queremos mais carregar, outra representando os sonhos que queremos alcançar.

            Parece simples, mas não é isso o movimento mais difícil da vida? Entender que nada nos pertence de fato, ter consciência constante que apenas estamos de passagem por aqui? Estar preparados e pouco a pouco abrir mão, soltar, libertar-nos de objetos, idéias, pessoas, lugares, tudo aquilo que já não podemos levar conosco em nossa trajetória? Até mesmo nos relacionamentos é essencial praticar isso. Para amar, é necessário abdicar de opiniões e conceitos, perdoar erros e falhas, aprender com eles, ultrapassar obstáculos, nos desapegar de dores e prazeres passados, nos abrir ao desconhecido em nós mesmos e no outro, fazer o melhor possível no momento presente. Caso contrário, a convivência é impossível. O relacionamento de amor é como a própria vida. Ele segue um constante ciclo de nascimento, amadurecimento, morte e renascimento. É como um jardim no qual as plantas precisam de diferentes cuidados de acordo com as estações do ano. Às vezes é preciso prestar muita atenção e cuidar com esmero. Outras vezes é necessário confiar na natureza da planta, deixá-la se desenvolver sozinha. Trata-se de uma dança entre cuidado e confiança, responsabilidade e liberdade. O amor nos ensina a ser plenos. De um lado, plenamente centrados e responsáveis por nós mesmos, de outro lado conectados e co-responsáveis pelas pessoas e pelo mundo à nossa volta.

Fazemos uma oração e jogamos as nossas pedras, unindo-as à montanha de sonhos de todos aqueles que passaram antes de nós. O sol da tarde brilha violentamente, desnudando as montanhas, os picos e vales que ainda esperam por nós. A magnitude do amor se reflete em cada pedra, em cada passo, em cada instante.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 42

Capítulo 42

Chegam três hippies alemães em dois trailers, a caminho do festival Rainbow, o maior festival hippie do mundo. Eles estão viajando por Portugal e Espanha com seus três cachorros há mais de dois anos. Sentamos todos para conversar e acabo espontaneamente oferecendo a eles a leitura da Carta do Destino. Um deles recusa imediatamente. Talvez por medo ou não gostar deste tipo de coisa. Os outros dois, uma moça e um rapaz, aceitam.

Uma brisa anuncia o final da tarde. Minha voz parece vir das montanhas, não de mim mesma. Geralmente não me lembro das cartas ou daquilo que digo durante uma sessão de tarô. Como na música e na arte, os símbolos contidos nas cartas tocam a alma ali onde a razão não alcança, abrindo a mente para suas infinitas possibilidades. Termino de falar e todos estão escutando em silêncio. Os alemães agradecem e vão embora. A noite cai, menos fria do que ontem. Logo, Florencio sugere que eu faça uma leitura completa de tarô para Darvi, em troca de sua hospitalidade e de seus generosos presentes. Darvi diz que gostaria muito desta oferenda. Pelo visto, hoje é um dia de trabalho.

Darvi e eu nos recolhemos no quarto dele. A leitura dura aproximadamente duas horas. Ao final, passamos alguns minutos conversando.  Pergunto para ele:

_Você sempre teve e continua tendo uma prática intensa de meditação. Você saberia explicar qual o seu objetivo ao fazer isso?

Darvi pensa um pouco e responde:

_ No início eu falava que queria alcançar “atonement”, uma espécie de reconciliação com Deus, um tipo de espanto, ao invés daquilo que costumam chamar de iluminação. Isto me parecia mais compreensível. Mais ao meu alcance. Depois de muito tempo meditando, uma mulher me disse certa vez que eu me surpreendia com tudo, como uma criança. Cheguei à conclusão que eu havia alcançado meu objetivo. Mesmo assim, continuei meditando. Hoje penso em alcançar aquele espaço mais além das nuvens. Eu o chamaria de clareza.

Fico um momento em silêncio. Sei que Darvi está bem mais avançado no caminho da meditação que eu, mas sinto-me impelida a dizer algo a ele:

_Permita que eu lhe dê uma sugestão?

_Claro.

_Tente meditar no amor. Enquanto você almeja um espaço além das nuvens, ainda existe a separação entre o espaço e as nuvens, a clareza e a escuridão. No entanto, o amor abraça tudo, o espaço e as nuvens, a luz e a escuridão.

Novamente, essas palavras não parecem vir de mim. Elas não me pertencem. Nós nos olhamos e é como se algo tivesse se transformado. Entramos em um momento sagrado, uma dimenção de enlevo. Alguns o chamam da consciência crística. É quando escutamos a música que move o universo. Quando percebemos uma harmonia subjacente, uma perfeição inconcebível. Os olhos de Darvi se enchem de lágrimas e elas rolam livremente por seu rosto. Eu me sinto emocionada.

_Obrigado.

_Obrigada a você.

Levanto, faço uma reverência ao sábio homem diante de mim, saio do quarto, atravesso a noite e chego ao romântico quartinho onde o meu amor já me espera deitado na cama. O cheiro da madeira das finas paredes, as cobertas de lã, as sombras dançantes projetadas pela vela acesa, o corpo ardente de Florencio, o mergulho em seu infinito abraço, as montanhas submersas no negrume, o céu e seus incontáveis olhos estrelados, piscando e olhando para nós através do vidro das enormes janelas, as lágrimas de Darvi, tudo vem da mesma fonte, tudo fala a mesma linguagem.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 41

Capítulo 41

 

O dia amanhece esplendoroso. Depois do desjejum, Darvi nos mostra um encantador e rústico quartinho rodeado de janelas imensas que dão para o vale e nos convida para passarmos mais uma noite aqui. Além disso, ele nos dá de presente bandeiras de orações e duas écharpes de seda tibetanas chamadas Kathags (pronuncia-se Kátas). Tradicionalmente, quando um lama do budismo tibetano visitava outro lama, ele levava Kathags para expressar a alegria pela dádiva daquele encontro. Florencio escolhe uma Kathag de cor branca, que purifica a emoção do orgulho e simboliza o elemento éter. Eu escolho uma vermelha, que purifica o desejo e simboliza o elemento fogo. A generosidade de Darvi é tocante. É impossível recusar sua oferta.

Deixamos nossas coisas no quarto e voltamos para a frente do albergue, onde os peregrinos se reunem ao redor de mesas de mandeira. De repente, eu noto um asiático sentado mais ao longe. Comento com Florencio:

_Olha aquele cara! Interessante, não?

_Nossa, ele parece um ninja!

_Vai lá falar com ele.

_Eu não! Não tenho coragem.

Ele brinca e eu sorrio. Às vezes Florencio é um menino. Outras vezes sou eu a menininha.

_Então eu vou.

Vou até o fulano e pergunto em inglês:

_Olá, tudo bem? Quem é você? De onde é?

_Sou do Japão. Sou fotógrafo e estou caminhando com meu amigo. Estamos fazendo um livro sobre o Caminho. Ele escreverá os textos e eu farei as fotos.

_Nossa, que legal!

Resolvo chamar Florencio e apresentá-los. De repente, o tipo olha intensamente para nós dois e sugere em um inglês com sabor de yakisoba:

_Vocês têm ótima aparência. Posso tirar umas fotos de vocês?

_Claro! – Nós dois concordamos, divertidos.

_Então, por favor, escolham um corno cada um.

Qual não é a nossa surpresa quando ele começa a tirar vários cornos de cores e tamanhos diferentes da mochila! _Ele são para as fotos. Vocês vão colocar um desses cornos na testa, como um unicórnio. – ele explica.

_Eu quero esses cornos para mim! – Florencio exclama, animadíssimo, salivando pelos novos brinquedinhos.

_Infelizmente não posso oferecê-los a vocês, pois apenas tenho estes. Mas depois prometo que mandarei o livro por correio. – O japonês está seríssimo. Logo, ele levanta e nos pede para nos posicionarmos com os cornos colados à testa. Outros peregrinos passam e olham curiosos enquanto o fotógrafo grita as ordens:

_Vira a cabeça mais para a esquerda. Um pouquinho mais para baixo. Que tal olhar para cima? Isso mesmo. Não se mexa! Agora a luz está perfeita!

Depois de nos proporcionar uma hilária sessão de fotos, o peregrino fotógrafo segue caminho. Florencio, Darvi e eu nos acabamos de tanto rir. Ao mesmo tempo, em meio à diversão, lembro-me que em várias culturas o unicórnio simboliza o poder e a pureza da alma, a cura e a alegria, a abundância e a fertilidade. Na alquimia, ele tem a ver com o casamento alquímico, ou seja, a união interna e externa do feminino com o masculino e a revelação divina que advém disso. De uma maneira engraçada, além de todas as bênçãos, hoje o Caminho nos presenteou com esta bela mensagem. Nunca pensei que pudéssemos ficar tão alegres com um colossal corno plantado no meio da testa. Nada como as boas surpresas do caminho espiritual.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

O Caminho do Amor – Capítulo 40

Capítulo 40

Depois de montar a barraca diante de uma vista privilegiada, de tomar um banho quente e compartilhar um agradável jantar com outros peregrinos, aqui estamos, rodeados de cabras e galos, gatos e cachorros, sentados ao redor de uma fogueira com um americano que trabalha no albergue, um ex-peregrino chamado Darvi. A noite cai trazendo um frio penetrante. O céu é uma manta de veludo negro bordada de incontáveis estrelas. Nosso interlocutor é extremamente gentil, nos oferece bebidas, chocolate e diversos cobertores de lã. O frio e o fogo aumentam e a conversa vai ficando cada vez mais intensa.

Descobrimos que, como nós, Darvi também pratica meditações do budismo tibetano, que viajou muito pela Índia e pelo Tibete, que é instrutor de Yoga e trabalha com massagens terapêuticas. Na Bahia, onde moramos, Florencio também compartilha e ensina alguns movimentos de Yoga para um grupo de pessoas do qual faço parte.  O hábito da prática de Yoga na frente do mar tem sido uma grande ajuda e um privilégio em nossas vidas. O fogo crepita, o cheiro é de madeira queimada e vastidão. O meu corpo está cansado e treme de frio, mas a mente está desperta e atenta. Florencio e Darvi parecem ter muitos pontos em comum.

A conversa continua, solta e profunda, vai de espiritualidade à música e poesia. Florencio conta como faz parte do movimento de poesia cantada chamada slam poetry, nos EUA, e canta um de seus longos e belíssimos poemas. Cada um deles é uma viagem e uma oração. Em nosso primeiro encontro, em Paris, quando escutei um poema dele pela primeira vez, caí no chão de admiração, as pernas para o ar. Florencio costuma dizer que naquele exato momento começou a ficar intrigado em relação a mim, pois ninguém nunca reagira assim antes. Bem, é verdade que eu tinha bebido bastante vinho naquela noite, mas ainda assim estava sinceramente encantada, como estou agora. Nunca me canso de ouvi-lo. Darvi também escuta emocionado.

Logo, Darvi se abre mais e conta que já trabalhou com jovens delinquentes e drogadictos nos EUA, que os levava para viajar na natureza, onde estes aprendiam a sobreviver em condições precárias. Florencio também cresceu neste universo. Um mundo feito de dor e violência, da fuga através das drogas, muito comuns na vida de vários jovens norte-americanos. Uma luta constante contra uma força destrutiva, externa e interna, um potente vírus criado por uma sociedade profundamente hostil e consumista, capaz de isolar e matar os seres mais sensíveis, mas também de levar ao questionamento, ao autoconhecimento e à busca espiritual, como aconteceu com eles. Os olhos de Darvi se perdem tristemente no fogo por alguns momentos:

_Eu tinha um amigo. Certa vez viajamos juntos. Ele me disse que já que não podia usar heroína, ele preferia morrer. Nunca pensei que fosse capaz de… Enfim, um dia, procurei por ele. Chamei várias vezes e ele não respondeu. Quando cheguei até ele já era tarde demais. Ele tinha se enforcado em uma árvore. Nunca vou esquecer daquela imagem e da dor indescritível que ela provocou em mim.

_Eu também tive um grande amigo que se matou de overdose. Eu o encontrei com a agulha enfiada no braço. Foi terrível.

Florencio comenta, a dor cortando as palavras, a dor do mundo, ardendo nos olhares, a madeira estalando no fogo. De repente, um vento estranho e gélido levanta, uivando ao nosso redor.

_Acho que os mortos sentiram que falamos deles.

Eu sugiro, colocando mais um cobertor em volta dos ombros, e Darvi sorri:

_Puxa, me lembrei agora do que me aconteceu certa vez quando estava acampando no sudeste dos EUA. Eu estava sentado na frente de uma fogueira, quando um vento súbito começou a soprar, como agora. Senti uma coisa atrás de mim, uma presença, sabe? Mas não era algo agradável. Comecei a ficar louco de medo, mas não me mexia. O negócio rugia, ou sussurrava, palavras ininteligíveis ao meu ouvido, me empurrava pelas costas. Quando eu olhava para trás não havia nada. Aquilo durou horas. Foi uma loucura. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida.

Florencio arregala os olhos:

_Uau, que incrível! Você encontrou o Wendigo!

_Quem é Wendigo?

_É um espírito muito conhecido pelos índios norte-americanos. De acordo com a mitologia, o Wendigo foi uma pessoa comum, que passou muita fome durante um inverno rigoroso. Para se alimentar, acabou comendo seus próprios companheiros. Assim tornou-se um monstro poderoso e inteligente, capaz de imitar a voz humana, subir em árvores, carregar muito peso, fazer de tudo para caçar e conseguir se alimentar. Quando tem fome, ataca e carrega as suas vítimas em uma velocidade alucinante e as estoca em cavernas onde as devora lentamente.

_Nossa, eu sobrevivi a isso? _Darvi começa a rir nervosamente.

_Pois é, o cara deve ter gostado de você.

Agora estamos todos rindo. Há uma alegria sublime neste momento, uma sensação de família, uma magia peregrina que mais cedo ou mais tarde se manifesta para todos aqueles que já foram tocados pelo Caminho de Santiago. Diante de tanta sincronicidade, eu pergunto:

_Qual é o seu signo, Darvi?

_Sou taurino.

Florencio brinca:

_Agora só falta você dizer que faz aniversário no mesmo dia que eu, no dia 28 de abril!

Darvi olha para ele, atônito, e responde seriamente:

_Eu faço.

_É claro que faz! O Caminho falou novamente!!!

Florencio celebra, gritando e jogando os braços para o alto, tipo o homem das cavernas. As gargalhadas, as nossas e as das estrelas, ecoam na escuridão. Esta é a noite mais fria até agora, mas estamos felizes e bêbados de espanto. Mais uma vez, o Caminho nos transporta com seus mistérios e belezas insondáveis.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

http://www.facebook.com/#/antonellazara?ref=profile

http://antonellazara.wordpress.com/

www.antonellazara.com

« Older entries

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.