Capítulo 9
Na famosa fonte de Irache, que oferece vinho de graça aos peregrinos, compartilhamos risos e histórias com outros peregrinos. Mais tarde, escutamos que muitos deles se perderam após passarem por esta fonte mágica. Às vezes é ótimo perder-se um pouquinho, especialmente se o vinho é bom e a companhia deliciosa. Por outro lado, isso me lembra que é bem mais fácil ficar desnorteado na abundância do que na escassez. Por isso, resolvo anotar mentalmente: saúde, amor, sabedoria, e bom humor. São itens básicos e ferramentas imprescindíveis. No entanto, pensando bem, é preciso bem mais que isso. Adiciono à lista uma fé colossal, uma overdose de criatividade e uma loucura consciente.
No final do dia chegamos enfim a Villamayor de Monjardin, um pequeno vilarejo cujo primeiro albergue pertence à Igreja. Paramos para descansar. As duas jovens “hospitaleras” espanholas, uma loura e uma morena, são muito bacanas e nos oferecem água, biscoitos e mais vinho da fonte. Os “hospitaleros” geralmente são peregrinos que já completaram o Caminho pelo menos uma vez e depois decidem contribuir por duas semanas com o serviço voluntário de tomar conta de um albergue. Florencio e eu gostamos da energia das moças e decidimos ficar. Enquanto ele toma banho, um papo animado começa entre mim e as duas.
_Deve ser difícil trabalhar de manhã até de noite atendendo a todos os tipos de peregrinos fedorentos… – comento, aproveitando para tirar os sapatos empoeirados, as meias nojentas, e esticar as pernas.
_Fácil não é, concorda a primeira. Todos os dias, nós acordamos às seis horas da manhã para preparar tudo e oferecer um café-da-manhã gratuito aos peregrinos. Além disso, há a limpeza e as compras a fazer. Não recebemos nenhum apoio financeiro da Igreja. Nada além das doações voluntárias. Mas, ao mesmo tempo, é um trabalho muito bonito. O Caminho fez tanto por mim que fico feliz em retribuir.
_Eu também. Além disso, completa a moreninha alegremente, somos solteiras. Por acaso ou por sorte, recebemos muito mais peregrinos homens do que mulheres. Em sua maioria, são desimpedidos, espiritualizados, e em busca de respostas para seus questionamentos existenciais. Passamos maravilhosas noites em claro, mergulhadas em instigantes discussões filosóficas ou divertidas celebrações regadas a vinho.
Nós três rimos como meninas enquanto elas me mostram as fotos delas com diversos rapazes e senhores atléticos. Um pouco mais tarde, após o banho, elas nos levam a uma barraca, montada no jardim por detrás da Igreja para os dias nos quais o refúgio está cheio. Há uma linda vista das montanhas neste lugar.
_A tenda dá para cinco pessoas, mas hoje não chegará mais ninguém. Vocês não querem dormir aqui? Afinal, para um casal é melhor um pouco de privacidade, não é verdade?
Surpresos e gratos, Florencio e eu aceitamos a oferta. De uma forma inesperada, o nosso desejo de achar um belo lugar para acampar acabou sendo realizado. Zoltan, um rapaz interessante da Transilvânia que encontramos em nossa parada na fonte de vinho, aparece e vem ter conosco com um sorriso nos lábios:
_Que bom reencontrá-los!
_Olá, Zoltan! Você vai dormir no refúgio? – Florencio pergunta, visivelmente contente de voltar a ver este personagem.
_Não, eu sempre durmo ao ar livre. Gosto de olhar as estrelas.
Há algo de selvagem e indomável neste rapaz. Uma revolta obscura no olhar, uma inquietação latente. Ao mesmo tempo, ele tem aquela estranha pureza das pessoas que não têm nada a perder. Fico curiosa:
_Onde você começou o Caminho?
_Vim de Paris e voltarei caminhando para lá. São 3400 quilômetros. Comecei minha peregrinação com minha namorada, mas ela teve que voltar para Paris… – Há uma tristeza óbvia na voz dele. Ele continua: – Tenho apenas duzentos euros no bolso. Mas carrego uma mochila que pesa 20 quilos, cheia de comidas não perecíveis e mantimentos. Na verdade, eu não tenho pressa alguma. Por isso, caminho devagar e faço várias pausas para descansar.
Não há dúvidas. Zoltan é uma pessoa incomum. Um verdadeiro buscador, daqueles que apostam tudo em sua busca. Confirmando os meus pensamentos, ele conclui:
_Quero realmente saber o que fazer com minha vida. Quando penso na vida de Jesus, por exemplo, na maneira como ele escolheu o amor em meio aos sofrimentos, eu me sinto inspirado a continuar caminhando.
O fim da tarde traz uma brisa gelada e colore as montanhas de tons de rosa e azul. Nós três olhamos a imensidão. Quanto mais o peregrino caminha, mais perguntas e menos respostas ele tem. Mas, de alguma misteriosa maneira, a multiplicação constante das perguntas não deixa de ser uma resposta muito profunda. É como se, pouco a pouco, algo se abrisse por dentro e a vastidão do universo coubesse no coração.
Florencio e Zoltan decidem fazer uma fogueira e conversar mais. Eu entro na barraca para me proteger do intenso frio que começa a me incomodar. Abrigo-me sob o saco de dormir e me dedico às minhas anotações à luz de uma lanterninha de bolso. Penso na coragem deste e de outros peregrinos. Penso nos altos e baixos do Caminho. Nos altos e baixos de minha trajetória como ser humano e como escritora. Nas dificuldades e nas belezas de meu amor com Florencio. Em uma vida plena e em um grande amor cabe tudo. A dor e o prazer. Os medos e a esperança. O desespero e o êxtase.
Próximo capítulo na quarta-feira que vem.
Antonella Zara
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