32 – A Tenda de Suor

32 – A Tenda de Suor

 

 

A porta se fecha. Somos mais ou menos 25 pessoas dentro de uma tenda minúscula coberta com cobertores e plástico preto de forma que fique totalmente escura por dentro. Estamos sentados em dois círculos concêntricos, colados uns aos outros ao redor de um buraco que a mulher e xamã acabou de encher até o topo de pedras incandescentes tiradas da fogueira por seus companheiros de preparação de ritual e trazidas uma por uma para ela. Sem óculos nem lentes de contato, eu me sinto em um obscuro e nebuloso mundo, e não sei ainda se isto é um sonho ou um pesadelo. As pedras jogam um pouco de luz sobre os contornos do perfil de nossa guia e, mesmo sem vê-la direito, sinto sua beleza desconcertante e sua admirável força. Sua voz é límpida e profunda e creio que todos os marinheiros de primeira viagem aqui, como eu, se agarram à sólida suavidade dela como se ela fosse uma taboa flutuando inocente no meio de um oceano assassino. Ela alterna entre canções que remetem à terra e às florestas, aos rios e aos espíritos da natureza, e explicações sobre o ritual em si, uma prática purificadora muito antiga realizada em inúmeras tribos, que eu vou traduzindo para os alemães sentados ao meu lado enquanto sentimos um calor crescente. Por alguns segundos eu me pergunto como fui parar nesta situação, trabalhando como intérprete dentro de um recinto minúsculo prestes a se transformar em fornalha, e uma parte de mim ri de mim mesma, indagando se eu ainda não me acostumei à minha própria loucura. A resposta é não.

O xamã, sentado agora ao lado dela, toma a palavra e depois começa a cantar em línguas indígenas com uma voz gutural que pouco a pouco preenche todo o espaço, tal qual o vapor que vai subindo do buraco no qual a espécie de divindade está jogando água e ervas aromáticas cujas propriedades de cura e purificação eles invocam através da música e daquilo que parecem ser orações ancestrais. Estamos no útero da terra, dizem eles, estamos nos preparando para nascer e, por isso, precisamos morrer para o passado, purificar as mágoas, suar as emoções tóxicas. E o suor cai em bicas. O ar é maciço e fervilha nas narinas como lava vulcânica. Já não consigo mais traduzir nem respirar. Nem os xamãs falam. Alguns instantes de silêncio ardente me levam ao início, me lembram que eu quase morri aos dois meses de idade por dificuldades respiratórias. Um formigamento começa a subir pelas minhas mãos e braços. Estou morrendo queimada. Não há saída.

Mas, de repente, algo em mim reluta e meu corpo se debate. Quero me levantar. Quero viver! Eu grito e alguns jatos de água fria são jogados sobre meu rosto. Todos começam a gritar e gemer, jorros gelados atravessam o vapor mortífero e se abatem sobre as faces atormentados, é um crescendo de agonias moribundas que apenas cessa quando a porta é aberta. Os curandeiros nos relembram a importância de levarmos nossas cabeças ao solo quando o calor fica insuportável, pois a terra é fresca e ela nos acolhe.  Pois a terra é mãe. Eu havia me esquecido disso. Entretanto, sinto-me covarde por não resistir em silêncio, firme e inabalável como uma rocha, mas a deusa em mim me liberta de meu juiz interior ao sussurrar: “Por pior que seja a situação, sempre há um recurso.” Algo me diz que a verdadeira força é filha da doçura, que esta é a dádiva deste momento e que eu sempre levarei esta lição em meu coração. Logo, eu me abaixo com avidez, rasgo a folha de bananeira usada para revestir o chão, cheiro a grama, tomo a terra enlameada entre os dedos e lambuzo meu rosto, meus braços, meu ventre e minhas pernas com ela. Semi-refeita do choque, eu me lembro que estou trabalhando e recomeço a traduzir.

Depois da segunda rodada de calor efervescente, nós rastejamos para fora da tenda. Quando saímos, a xamã nos recebe com sorrisos e carinhos maternais, com água fresca e regeneradora sobre a fronte e o corpo, enquanto ela canta com sua voz de ninfa: “terra meu corpo, água meu sangue, ar minha mente, fogo meu espírito”. Leve e feliz, eu rolo lentamente na lama, o cheiro de vida me inebria, a luz do dia me abençoa, a fogueira crepita alegremente, a cachoeira retumbante me convida ao longe, e eu sinto gratidão pulsando em cada poro de meu ser. Estou mais viva que nunca. Viver não basta. É preciso viver de verdade.

 

                                          Antonella Sigaud

                                     www.antonellazara.com

                           http://antonellazara.wordpress.com/

 

31 – Somos Todos Estrangeiros

31 – Somos Todos Estrangeiros

 

 

 

As crônicas que tenho escrito ultimamente falam sobre minhas experiências durante um trabalho como intérprete em um congresso. Dediquei as mais recentes reflexões, publicadas em meu blog, a alguns dos diferentes temas que traduzi. Como foi um mês de trabalho muito intenso e interessante, obviamente não poderei relatar tudo aquilo que vivenciei. Mas tenho procurado escrever sobre os momentos ou ensinamentos que mais me marcaram neste período.

Durante a noite, participantes dos diferentes cursos ministrados no congresso, profissionais de diversas áreas, aproveitavam para apresentar seus trabalhos em palestras ou demonstrações para quem estivesse interessado. Eu mesma dei uma palestra sobre meus livros e minha experiência pessoal com meditação e também atendi a muita gente com meu trabalho com cartas de tarô. Como havia vários europeus, freqüentemente as pessoas também me pediam para fazer a tradução destas apresentações, geralmente do português para o alemão ou inglês ou vice-versa. Embora fosse muito cansativo continuar trabalhando após o expediente, os assuntos eram interessantes, e por isso sempre que eu me sentia bem disposta eu aceitava o desafio.

Um momento muito bonito aconteceu durante uma demonstração de terapia através da dança. Lá estava eu, aos pulos e rebolados, traduzindo para uma dançarina e terapeuta corporal. Eu não era obrigada a acompanhar os movimentos daqueles para quem eu traduzia, mas a experiência no trabalho de intérprete me demonstrou que “interpretar” é muito mais vasto que apenas traduzir palavras. Trata-se de tentar transmitir também a “energia” daquilo que está sendo ensinado. Por isso, naquela noite, pela primeira vez, eu traduzi dançando. Foi uma experiência interessante. A apresentação visava mostrar ao grupo de pessoas ali reunido como é possível achar equilíbrio mental através do corpo e dos movimentos. A dança como terapia desperta o cliente para o próprio corpo, o ajuda a entrar em contato com a sua força vital, muitas vezes debilitada por causa do estresse, de traumas ou até mesmo de padrões emocionais como vergonha ou orgulho.

Estávamos no final da demonstração. A apresentadora havia feito um trabalho fantástico guiando o grupo de forma que as pessoas se soltassem gradativamente. Com a sensibilidade de toda verdadeira terapeuta, ela conseguiu fazer com que todos sentissem a música e experimentassem a dança como meio de reverter o cansaço após um longo dia de trabalho e estudo, de se conectar com o corpo, confraternizar com as outras pessoas, celebrar a natureza, revitalizar a si mesmo, e por fim melhorar o humor e a saúde. 

Foi então que ela pediu para que dois círculos se formassem, de forma que um ficasse dentro do outro. O de dentro seria formado pelos estrangeiros e o de fora pelos brasileiros, mais numerosos ali. Assim, dançando, ela sugeriu que os estrangeiros virassem para fora, para ficar de frente para os brasileiros, e que ambos os círculos rodassem em sentido contrário um do outro. Embalados pela ciranda, à medida que giravam todos também se olhavam. Um grupo descobria o outro, dançava e sorria para o outro. Pouco depois ela pediu que o círculo de fora abraçasse o de dentro como sinal de hospitalidade, de acolhimento e boas-vindas aos estrangeiros. Um imenso e caloroso abraço em grupo despertou risadas e alegria até mesmo nos mais tímidos. Depois disso, todos continuaram a dançar juntos.

Naquele momento, tive que me lembrar de minhas inúmeras experiências como estrangeira. Não somente em outros países, mas também cada uma das muitas vezes que me mudei em minha vida, e tive que viver em outras cidades ou em novos bairros, estudar em novas escolas ou trabalhar em locais desconhecidos. Em alguns segundos revivi a imensa insegurança e o fortíssimo medo que senti a cada uma dessas vezes, a sensação de vazio e solidão mesclada ao sabor de aventura e desafio. E pensei que realmente deveríamos abrir mais nossos braços e nossas casas, dançar mais com desconhecidos, praticar a hospitalidade como filosofia de vida, acolher e ajudar sempre que possível. Afinal, dependendo do lugar e da situação, somos todos estrangeiros em algum momento de nossas vidas.

 

 

                                                   Antonella Sigaud

                                                 www.antonellazara.com

                                     http://antonellazara.wordpress.com/

 

30 – A Metáfora como Caminho

30 – A Metáfora como Caminho

 

 

O xamã olhou pausada e severamente para cada uma das pessoas sentadas no círculo. Não era possível distinguir nem mais um único ruído no grupo que, minutos antes, mal conseguia se conter de animação e despejava cascatas de perguntas sobre o curandeiro. Mas aquele homem, antes tão rudimentar, quase indefeso, de repente estava transfigurado e parecia irreal naquela luz incerta que separa o dia da noite. Fixando todos de maneira estranha, com um graveto atravessado na boca, o corpo totalmente alerta, como se a ponto de saltar sobre eles, ele se assemelhava a um animal que eles ainda não saberiam definir. Aquilo finalmente fez com que seus alunos mergulhassem em um silêncio apreensivo.

Eram os anos 70 nos Estados Unidos. Naquele grupo estavam, entre outros, Richard Bandler, estudante de matemática e psicologia, e o Dr. John Grinder, professor adjunto de lingüística, também profundamente interessado em psicologia. Juntos os dois intelectuais haviam começado a desenvolver um método chamado de “Modelagem da Excelência Humana” que mais tarde faria parte de um conjunto de técnicas e formas de linguagem desenvolvidas para gerar mudanças, também chamado de Programação Neurolingüística. Neste método específico os jovens pesquisadores “modelavam” ou tentavam decifrar padrões de comportamento de certos terapeutas para depois repeti-los em sessões terapêuticas, alcançando muitas vezes resultados semelhantes aos obtidos por seus “modelos”.

Entusiasmado com os resultados adquiridos, um grupo seleto de buscadores resolveu então trazer um xamã do Peru para tentar aplicar o método a ele. Pagaram a passagem ao curandeiro, organizaram um acampamento, trouxeram mantimentos suficientes e tomaram todas as providências para permanecer ali com ele por duas semanas sem terem que sair nenhuma única vez. Naquela tarde haviam acendido cuidadosamente a fogueira e sentiram-se importantes ao sentar ao redor dela formando um círculo de aprendizado, apenas rodeados pela floresta, pelas montanhas e por um dos maiores lagos do país. Mas a tarefa resultou bem mais difícil do que pensavam, pois o xamã era diferente de qualquer pessoa que haviam estudado antes. Ele parecia estar além dos padrões de comportamento.

No início da conversa, todos começaram já a ficar intrigados quando o homem, sem nenhuma razão aparente, balançou a mão ao lado do próprio rosto, perguntando se o grupo estava sentindo o vento. Como não ventava, estranharam o fato que uma brisa sutil tornou-se de repente mais e mais forte, aparentemente acompanhando o peculiar movimento da mão do xamã. Quando esta parou de se mexer, em desfecho rápido, digno de um mestre de orquestra, a misteriosa corrente de ar cessou com ela.

Algum tempo depois, recobrados da surpresa e já envolvidos em mais uma série de infindas perguntas, o homem apontou com o dedo indicador em direção ao alto. Perdendo o fio da meada, todos os olhos acompanharam o gesto para ver que, junto com o dedo, que ele agora rodava no ar, no céu acima deles rodopiava também um falcão. Quando o xamã apontou então para uma árvore, a ave imediatamente lançou-se em um vôo certeiro e pousou num dos galhos desta. Um silêncio boquiaberto e um pouco desconcertado prevaleceu por alguns segundos até que uma tosse forçada de um dos estudantes fez com que todos respirassem aliviados, constatando que a normalidade, tal qual eles a conheciam, não tinha cessado de todo.

 As interrupções gestuais, simbólicas, e aparentemente despropositadas, que o xamã sabiamente “inseria” na conversação, acabaram por desarmar os jovens intelectuais, até então apenas interessados em suas próprias teorias e seus jogos mentais. Mas foi a partir da terceira e última esquisitice que o homem fez, imitando um bicho durante o crepúsculo, que iniciaram de fato as duas semanas de intenso aprendizado com o estranho e fascinante mestre vindo das montanhas andinas. Somente desta forma, conectando-se pouco a pouco aos seus ouvintes em um espaço além das palavras, ele conseguiu ensinar-lhes sobre um universo que eles desconheciam, mas ao qual aspiravam profundamente. Um universo no qual criar metáforas com palavras ou mímica e contar histórias tem um propósito mágico de cura e de transmissão de conhecimentos. Um mundo no qual é possível aprender não somente de seres humanos, mas também de acontecimentos e sinais, de plantas e pedras, de bichos e elementos naturais. Um mundo onde um pequeno sapo consegue se defender de seu maior inimigo, uma imensa serpente, e até mesmo fazê-la recuar apenas colocando um simples graveto na boca e tornando-se, assim, deliciosamente ameaçador.

29 – A Expansão da Consciência

29 – A Expansão da Consciência

 

_Imagine que está se banhando em um belíssimo lago em um dia de verão. Você enxerga as montanhas à sua volta, a floresta exuberante refletida na água. Imagine a sensação da água sobre a pele. A frescura cristalina, a gentileza dos movimentos ondulantes, a textura sedosa do universo líquido à sua volta.

Um silêncio se fez enquanto a paciente, cujos olhos estavam fechados desde o início da sessão, mergulhava ainda mais profundamente no transe hipnótico. Pela expressão de seu rosto, o hipnotizador sabia que ela estava ali onde tinha que estar, em um espaço mental seguro e relaxado, uma sensação de beleza que ela trazia de longe, da infância talvez, mas que a idade adulta e suas preocupações haviam afastado dela nos últimos anos. A voz dele se tornou mais grave e ele aproveitou para enfatizar bem as últimas palavras de cada frase, as sugestões ficando ainda mais vagas, dando à mente dela a oportunidade de conduzi-la à própria cura.

_Você está sentindo liberdade… A liberdade da água que flui além dos obstáculos… Você sente saciedade… Dentro de você está tudo de que precisa para ser feliz… Agora… Você saboreia cada momento

Pouco a pouco, um sorriso formou-se nos lábios dela e o tremor dos lábios foi o prenúncio das lágrimas que saltaram dos olhos cerrados, primeiro lentamente, logo em cascata livre. O terapeuta respirou fundo. A sua experiência lhe dizia que, como desde o início da terapia ela já começara a espontaneamente mudar os hábitos, depois de oito sessões ela estava finalmente curada de sua compulsão por comida.

Dois meses atrás ela viera procurá-lo e pedira ajuda. O clínico geral lhe dissera que ela estava muito acima do peso, que sua saúde estava em perigo, e receitara uma dieta e alguns remédios inibidores de apetite. Mas ao invés de melhorar, desde então ela piorara. Sua fome era um enorme bicho salivando e rugindo constantemente em seu ventre. Ela tinha que ter algo na boca a tempo integral, senão ela se sentia desnorteada. Ela viera vê-lo porque amigas suas haviam tido bons resultados com o tratamento de hipnose. Ela não fazia a mínima idéia do que se tratava, mas apenas queria sair deste ciclo infernal no qual entrara sem perceber.

Lentamente então ele começou a explicar o que era hipnoterapia, que durante a sessão o paciente fica em estado alterado de consciência, uma espécie de relaxamento, mais aberto às sugestões do terapeuta. No entanto, ao contrário do que diz a lenda, o paciente jamais perde a consciência durante a hipnose. Pouco a pouco, com muita conversa, ele consolidou a base de confiança entre eles. Depois, ele começou a falar com a mulher sobre seu problema, colocando as perguntas de forma a descortinar uma nova perspectiva da situação. Perguntou a ela, por exemplo, quais eram os benefícios de sua compulsão. Inicialmente a pergunta a surpreendeu, mas ela acabou confessando que um dia fora uma mulher extremamente atraente e popular junto ao sexo oposto, que sempre gostara muito de sexo. Quando conheceu seu atual marido, no entanto, se apaixonou de tal forma que não hesitou em aceitar a proposta de casamento. Somente depois de um tempo ela notou que o amor romântico não era necessariamente um antídoto contra seu voraz e poligâmico apetite sexual. Sem saber como manter-se fiel, resolveu entregar-se à gula. O aumento contínuo do peso, mensurável na balança no final de cada semana, logo repeliu os predadores do outro sexo. Em pouco tempo ninguém mais olhava para ela, nem mesmo seu marido, nem ela própria. Quanto mais o seu corpo pesava, mais triste ela se sentia. Mas pelo menos ela estava segura, protegida de si mesma. 

Os sintomas eram clássicos: a insatisfação, o medo, o vazio, a incapacidade de adequação, a fome mental que leva ao desequilíbrio físico, à compulsão e ao desespero. Ao término da sessão, depois que a paciente foi embora, mais leve por dentro e por fora, o hipnotizador olhou para o relógio e descobriu que tinha um tempo livre antes de continuar a trabalhar. Serviu-se então de um chá, que sempre mantinha aquecido na garrafa térmica, e sentou-se diante da grande janela de seu confortável consultório. Lembrou-se de sua própria trajetória, de como entrou em contato com a hipnose quando ainda era um jovem e entusiasmado estudante e se descobriu totalmente fascinado pela trajetória de Milton Erickson, um famoso psicólogo e hipnotizador. Um grande mestre. Um homem que achou um caminho criativo para lidar com suas próprias terríveis dores físicas, decorrentes de uma poliomelite contraída aos 17 anos. Certa vez o terapeuta lera que Erickson referia-se à doença e à dor como seus melhores professores. Aquilo o marcara para sempre.

Mas o terapeuta envelhecera. Já não tinha as ilusões da juventude. Sabia que a raça humana estava doente, corroída pela dor e pelo medo, e que pouco havia a fazer em relação a isso. Entretanto, ainda que não pudesse mudar o mundo, evitar as guerras nem as tragédias, pelo menos as pessoas saíam da sua terapia pensando grande, enxergando a vida com outros olhos, mais despertos para a beleza. Uma beleza sutil, permeada de doçura, de uma inteligência vivaz, uma consciência onisciente, perceptível dentro e fora de nós. Algo que o ser humano insiste em querer aniquilar, mas que sempre existiu e sempre existirá. Uma luz real e uma cura possível, acessível por pontes para o inconsciente. E essas pontes têm vários diferentes nomes: espiritualidade, yoga, meditação, terapia, hipnose… Mas todas almejam a mesma coisa: a expansão da consciência. O vento balançou gentilmente as folhas da árvore à frente da janela enquanto o último gole do chá e as batidas na porta anunciaram o próximo paciente.

 

                                          Antonella Sigaud

                                    www.antonellazara.com

 

28 – O Ser Sistêmico

28 – O Ser Sistêmico

 

Separada há alguns anos, ela nunca solucionara o seu problema com o ex-marido. A separação fora dolorosa. Às vezes a dor ressurgia de forma fortuita, a perseguia e angustiava como uma assombração. Depois de várias terapias e buscas, ela decidiu participar daquele curso. Naquela tarde ela seria a cliente. A terapeuta pediu que ela escolhesse alguém do grupo para representar o ex-marido. Relutante, ela escolheu um rapaz que ela considerava simpático. Devidamente orientada, ela o guiou intuitivamente pelos ombros até que ele se posicionasse em um ponto específico da sala, parando ela mesma não muito longe nem muito perto dele.

A habilidosa terapeuta alemã, também chamada “consteladora” neste tipo de terapia, começou então a perguntar como o suposto marido se sentia, quais as sensações físicas que ele percebia ao estar naquela situação. Para a surpresa da cliente, ele começou a descrever estados sensoriais e emocionais semelhantes aos de seu ex-marido. Até a postura física adotada parecia com a dele. Depois disso, a terapeuta pediu que ela escolhesse duas pessoas para representar os pais dele e duas para representar os próprios pais. Feito isso, o “pai” do ex-cônjuge encaminhou-se então para perto do filho, e logo era possível ver uma expressão de sofrimento em seu rosto. Pouco depois o pai começou a chorar baixinho. A “mãe” ficou mais afastada, sem conseguir se aproximar. Os “pais” da cliente posicionaram-se então por detrás da filha, de forma protetora, tocando levemente os seus ombros. Quando questionados sobre o que sentiam naquele momento, todos os participantes da “constelação” falaram de sentimentos que se encaixavam perfeitamente naquilo que a cliente sabia sobre o histórico familiar de seu ex-marido e também sobre sua própria vida. No entanto, ao ver a situação daquela forma, ao presenciar o ex-casal inserido nos sistemas familiares dos quais ele provinha, também ela começou a chorar, compreendendo finalmente que as dificuldades de sua relação tinham raízes emocionais muito mais complexas, vinham de um contexto bem mais amplo que a relação homem-mulher, e podiam realmente ser vistas de outros ângulos. Depois da sessão, ela disse que se sentiu libertada de um peso que vinha carregando há muitos anos.

No congresso no qual trabalhei, fui intérprete, entre outros, deste curioso curso chamado de “Constelações Sistêmicas”. Trata-se de um trabalho filosófico e terapêutico que foi desenvolvido pelo pedagogo, psicoterapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger. A noção sistêmica parte do princípio que todos os membros de uma família têm uma conexão inquebrantável, independente de separações físicas, como se eles fizessem parte de um mesmo “corpo” familiar. Como com o corpo, que se sente doente mesmo se apenas um de seus órgãos não estiver saudável, o mesmo acontece no organismo familiar, que “sente” e reflete os erros e acertos, os prazeres e dores de todos os seus membros. Não se sabe ainda a explicação para esta espécie de fenômenos que ocorrem invariavelmente nessas sessões de terapia, mas existem hipóteses. Um biólogo chamado Ruppert Sheldrake, por exemplo, elaborou a teoria dos Campos Morfogenéticos, que aborda a possibilidade da existência de um inconsciente coletivo. Isso poderia eventualmente explicar a situação descrita acima, o fato dos participantes da sessão sentirem e manifestarem, sem nenhum conhecimento prévio da situação, a informação emocional armazenada no inconsciente da cliente em tratamento.

Para mim, independente da explicação, aquilo apenas confirmou a conexão que existe entre os seres humanos, sendo que os familiares, ou “ancestrais”, são indissolúveis de nós, simplesmente pelo fato de serem geradores tanto de nossas informações genéticas quanto dos primeiros impulsos emocionais e mentais de nossa existência humana. Na era da Internet, estar “conectado” passou a ser um lugar-comum, mas na verdade trata-se de um conhecimento antigo, esquecido pela sociedade moderna, que está ressurgindo, mas ainda não foi totalmente compreendido nem absorvido na prática. Este esquecimento custou caro e ainda não é certo se conseguiremos pagar a conta ambiental de todos os danos que ele provocou e ainda provoca. Fato é que não somos apenas indivíduos, como o individualismo capitalista insiste em pregar, somos muito mais do que isso. Somos seres inseridos em um vasto sistema que repercute em nós tanto quanto nós repercutimos nele. Abrir-se a essa visão “sistêmica” é entender que somos únicos e extraordinários e, ao mesmo tempo, pequenos e insignificantes. Somos partes de um todo, constantemente sujeitos à ação de forças maiores e, concomitantemente, temos co-responsabilidade em relação ao que acontece conosco e com o todo do qual fazemos parte.

Perceber que vivemos em um organismo vibrante, que ele opera dentro e fora de nós, nos abre à necessidade constante de atenção, flexibilidade e mudança, aspectos indispensáveis à experiência humana. Mudar nos dá acesso ao inusitado ao qual, consciente ou inconscientemente, tanto aspiramos. O passo para o desconhecido cria a existência do desconhecido dentro e em volta de nós. E assim o nosso mundo vai se tornando mais amplo e, com certeza, bem mais interessante.

 

 

      Antonella Zara

www.antonellazara.com

 

Tarô

Tarô,

“O Espelho da Alma”

 

Existem várias diferentes abordagens no trabalho com cartas de tarô. Embora as origens do mesmo ainda sejam envoltas em mistério, as formas de jogar são tão variadas quanto são diferentes os intérpretes. Recebi meu primeiro baralho de tarô há mais de quinze anos atrás e nos anos seguintes outros baralhos me foram presenteados por pessoas especiais em minha vida. Desde então comecei a viajar neste fascinante universo. Inicialmente a simbologia parecia-me hermética e indecifrável. Embora eu estudasse livros que explicavam o significado de cada carta, ainda assim a relação delas com a vida real permanecia um enigma para mim. Durante minhas inúmeras viagens, houve épocas que o meu primeiro baralho ficava apenas encostado na parede dos quartos de hotéis ou pensões, olhando para mim. Ainda assim, eu sempre o levava comigo. De vez em quando então eu arriscava um jogo, com um misto de curiosidade, apreensão e frustração, pois muitas vezes após jogar eu observava que estava ainda mais confusa do que antes. Com o tempo percebi finalmente como e porque a relação com as cartas ultrapassa a compreensão racional. Hoje penso que se trata acima de tudo de um contato orgânico, uma dança dinâmica, na qual as cartas são acordes de música buscando comunicar-se conosco a um nível muito sutil, apenas totalmente perceptível para dançarinos de longa data. O tarô é de fato uma arte fascinante na qual há sempre muito mais a aprender. Meu conselho para os iniciantes é cultivar, para além do entusiasmo inicial, a paciência e a perseverança necessárias para empreender esta belíssima aventura de autoconhecimento.

 

O Espelho da Alma

 

O meu trabalho com as cartas chama-se “O Espelho da Alma”, nome inspirado nas primeiras cartas com as quais joguei e ainda jogo, que indica também minha linha de interpretação, especialmente voltada para as emoções. Baseando-me na teoria de C.J.Jung, na qual sincronicidade seria “a coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente que ocorre fora do campo de percepção do observador”, incorro em uma espécie de brainstorm (pessoal ou virtual), muitas vezes guiada por meus clientes, relacionando a simbologia das cartas, as idéias espontâneas referentes às mesmas, com as específicas áreas correspondentes (como por ex.: consciente, inconsciente, passado, futuro, identidade, etc.). Parto da premissa, inerente ao budismo e outras filosofias orientais e ocidentais, que enfatiza o foco no momento presente. Neste está contido o passado como “semente” energética, podendo ser reconhecido no “florescimento” ou desenrolar dos acontecimentos, e o futuro, que pode ser igualmente “lido” como potencial de energia a ser ou não alimentado, dependendo da escolha da pessoa. As cartas servem então como um espelho das emoções, um mapa emocional, no qual a pessoa se descobre trilhando uma viagem de autoconhecimento e aprendendo, no curso da mesma, a fazer futuras escolhas cada vez mais conscientes e responsáveis. Como em qualquer trabalho sério que envolve o despertar da consciência, também aqui o objetivo é o pleno desabrochar do próprio potencial, condição prévia indispensável para aqueles que desejam melhor servir a humanidade e o planeta vivendo uma vida mais harmoniosa e feliz.

 

         *Para sessões via e-mail ou tele-conferência, ou palestras e workshops com atendimento em sua cidade, por favor, envie uma solicitação para um dos seguintes e-mails: contato@antonellazara.com, antonella_zara@yahoo.com.br

 

 

 

 

27 – A Tradução de Si Mesmo

27 – A Tradução de Si Mesmo

 

 

Nos meses de janeiro e fevereiro deste ano trabalhei como intérprete em um Congresso Internacional de Programação Neurolingüística (PNL). Ao contrário do que acontece com intérpretes especializados em certas áreas, que conhecem profundamente os temas que traduzirão ou interpretarão, ao ser contratada eu não fazia a mínima idéia do que me esperava.  Mas foi um mês surpreendente. No congresso havia grandes mestres que usavam a PNL como ferramenta em suas diversas áreas de trabalho, que iam de marketing a diferentes tipos de terapia. Entre eles estavam médicos, neurocientistas, homeopatas, engenheiros, publicitários, psicólogos, hipnotizadores, artistas, xamãs e terapeutas.

         Em minha opinião, a flexibilidade mental, a capacidade de abrir-se, aprender, adaptar o desconhecido a nós e adaptar-nos a ele, este potencial de mudar é a maior qualidade dos verdadeiros cientistas, dos grandes homens e mulheres de nossa história. E é exatamente com isto que a PNL trabalha. Com a faculdade de mudar do ser humano a partir do autoconhecimento e da transformação da própria percepção da realidade. A intenção é que o seu potencial seja plenamente aproveitado e redirecionado ao serviço de seu entorno, independente de seu background ou da situação na qual ele se encontra.

Fritjof Capra, um escritor austríaco, doutor em física, escreveu em um de seus livros chamado “O Tao da Física” uma frase que me intrigou e tem me acompanhado durante anos: “O mapa não é o território”. Para mim isto significa que, embora os mapas, ou as definições da realidade, que nos são ensinadas por família e cultura, nos sirvam como referência em várias ocasiões, eles não constituem valores absolutos. Pelo contrário, eles podem e devem ser revistos e até mesmo recriados periodicamente, dependendo da situação e do momento pelo qual passamos.

Em minhas diversas experiências como intérprete, seja com lamas budistas ou neste trabalho no congresso, tive a oportunidade de fazer a plena experiência desta necessidade de ir além daquilo que é dito. Um crítico francês do século VXVII escreveu que, na tradução, fidelidade e transparência são duas qualidades belas e infiéis, como as mulheres que, segundo ele, são ou fiéis ou bonitas, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Não penso necessariamente como ele no que diz respeito às mulheres, mas em relação à tradução tenho que concordar plenamente.

No âmbito da tradução fidelidade significa traduzir de forma acurada e literal, sem nada modificar em relação ao texto original ou àquilo que foi dito. A transparência significa reproduzir o sentido de forma que o conteúdo se torne compreensível, o que vai geralmente além da linguagem e envolve aspectos emocionais e culturais de quem está recebendo a transmissão. A tradução feita de acordo com o primeiro critério chama-se “fiel”, aquela feita com o segundo chama-se “idiomática”. Apesar do que dizia o francês, ambos os critérios podem ser respeitados simultaneamente, mas isto realmente é raro.

Dito de forma mais simples, tanto na vida quanto na tradução, muitas vezes temos que “reformular” aquilo que nos foi dito e ensinado para que a essência do ensinamento não fique aprisionada em uma inútil postura de rigidez. É preciso reinventar a vida e os conceitos a cada instante para estar à altura desta magnífica e avassaladora experiência que é estar vivo.

O poema “Perdido na Tradução”, escrito pelo poeta James Merril, fala da fabulosa imaginação transformadora do ser humano, que consegue sempre descobrir um significado em tudo aquilo que vê no universo ao seu redor. Quando eu era pequena, eu sonhava em ser escritora e, como muitas crianças, em mudar o mundo. Ao crescer, muitos adultos tentaram me convencer que era impossível fazer isso, que eu tinha que aceitar o mundo como ele é. Inicialmente, como a maioria dos adolescentes, eu me senti castrada por essa visão e me rebelei contra ela. Depois, eu me senti impotente e deprimida.

Com o tempo, no entanto, descobri que aceitar o mundo como ele é não exclui a possibilidade de mudá-lo. Aliás, entendi que apenas aceitando e reconhecendo o estado atual das coisas é que podemos, de fato, mudar o mundo. Percebi que o mais importante é que esta mudança comece por nós mesmos. Ela inicia quando nos abrimos e mudamos (ou expandimos) a cada novo dia a nossa própria visão do mundo.  Ao compreender isso, eu fiz uma nova “tradução” do conhecimento dos mentores da minha infância de forma que este não limitasse, mas multiplicasse as possibilidades de eu realizar meus sonhos.

Ao trabalhar como intérprete e começar a aprender PNL, tive a oportunidade de conhecer várias pessoas talentosas que acreditam que é possível mudar o mundo. Pessoas que trabalham para isso e até desenvolveram metodologias com este intento. Isto foi profundamente satisfatório para mim. E também me mostrou que a vida realmente depende da forma como decidimos “interpretá-la”. Esta decisão definirá se ficaremos perdidos ou não ao “traduzir” para o cotidiano, em pensamentos e ações, o significado e o sentido de nossas existências, isto é, aquilo que realmente importa para nós como seres humanos em nossa breve e surpreendente passagem por este planeta.

 

 

      Antonella Zara

www.antonellazara.com

 

 

26- O Alimento da Alma

26 – O Alimento da Alma

 

No final de janeiro fiz pela segunda vez um retiro de meditação Vipassana. A primeira vez foi em 2004, na Califórnia, experiência que já descrevi em crônica anterior. Durantes dez dias é pedido a todos os participantes deste retiro seguir certas regras básicas e manter o voto de total silêncio, ou seja, abdicar de todo tipo de comunicação verbal ou não-verbal. Segundo os facilitadores, esta disciplina monástica favorece a compreensão e aplicação desta específica técnica de meditação que ensina ao meditador gradualmente dirigir o foco total de sua atenção para as próprias sensações físicas. O objetivo primário da técnica é conhecer a si mesmo e mudar padrões de comportamento, não reagindo mais de forma inconsciente, isto é, com aversão em relação às sensações percebidas como negativas ou com apego em relação às positivas. O objetivo último é o estado búdico, sendo que Buddha em sânscrito significa “despertar”, abrir-se para a felicidade inerente à essência do ser e libertar-se do sofrimento e das causas do mesmo.

Desta vez meu retiro foi em Miguel Pereira , no Estado do Rio de Janeiro, uma bela região montanhosa. Novamente meditei todos os dias por dez horas diárias, com pausas apenas para comer e descansar brevemente entre as sessões.  Na primeira experiência, muito dura e ao mesmo tempo bastante positiva para mim, entrei em contato com dores que trazia comigo desde a infância. O segundo e mais recente retiro também foi dificílimo para mim, talvez até mais que o primeiro, sendo a única vantagem em relação ao outro o fato que eu já sabia da possível dificuldade que me esperava. As fortíssimas dores físicas que experimentei resultaram no aspecto mais árduo. Em caso de problemas físicos é possível sentar-se em uma cadeira ou apoiado contra uma parede. Em meu caso específico, talvez agravado por algumas lesões esportivas, das quais eu antes não tinha plena consciência, nenhuma postura ajudava a minimizar as dores, quando mantida em total imobilidade por uma hora. Acabei optando então por uma aproximação da postura clássica de meditação, com as pernas cruzadas em semi-lótus e a coluna ereta. E resolvi observar as dores, às vezes contundentes e beirando o insuportável. Tentei fazê-lo sem reagir a elas nem externa nem internamente.  

Não reagir externamente foi um pouco mais fácil para mim devido a treinamentos anteriores de meditação. Mas as reações internas ainda aconteciam e eram numerosas. Portanto, esta foi uma viagem de autoconhecimento rumo ao inferno dentro de mim. Conheci como a dor dói em meu corpo e em minha mente, como uma parte de mim reage com aversão imediata a estados dolorosos, como ela tenta sempre escapar a qualquer custo, como fica com tremenda raiva quando não consegue fugir, e como por detrás de tudo isso há um imenso medo da dor. E o medo, um medo profundo e muito antigo, gera uma tensão absurda que cria muitas dores sobressalentes, mentais e físicas, aumentando assim incrivelmente o estado doloroso, tornando-o muito pior do que ele talvez seja sem todas essas emoções negativas.

Quando saí do retiro parecia que estava voltando da guerra. Sentia-me muito fraca e vazia. Sabia que precisava de tempo para entender ou absorver o que tinha acontecido comigo. Descansei por poucos dias e tive que imediatamente partir para um trabalho interessantíssimo e extremamente intenso de intérprete em um congresso internacional de Programação Neurolingüística. Depois de uma vivência de silêncio profundo, tive que falar sem parar durante um mês inteiro. Na semana que vem, contarei mais sobre esta magnífica experiência.

No entanto, apenas agora, tendo retornado a casa, escrevendo para amigos e repousando junto à família, consegui sentir-me capaz de escrever uma crônica sobre aquilo que vivenciei no retiro. Sei que a idéia de incorrer em dor por escolha própria pode parecer grotesca e até masoquista. Para mim foi uma oportunidade única de conhecer ainda mais a mim mesma. Eu não sabia antes o que me esperava, mas logo compreendi que desta vez eu estava sendo convidada a estudar de novo e mais profundamente a reverberação de estados dolorosos em mim, sendo que estes fazem parte da vida e sempre voltam a se manifestar, quer queiramos ou não. Ao mesmo tempo em que a experiência da dor e do medo em mim me “derrubou”, despindo-me de quaisquer pretensões que eu talvez ainda tivesse, ela me presenteou com uma nova dimensão de doçura e humildade, uma espécie de compaixão empírica que apenas foi possível quando expandi a minha visão da humanidade, fazendo a experiência da total fragilidade inerente à condição humana dentro de mim.

E ainda que tenha sido uma verdadeira batalha, hoje posso confirmar que esta luta certamente me fez mais forte. Por pior que seja a situação, por maior que seja a turbulência e a dor, agora sei realmente que em mim há algo, ainda que eu não o veja sempre, uma “chave” que pode abrir muitas portas. E este fato foi confirmado em outras provações, que seguiram pouco tempo depois. Trata-se de um conhecimento muito simples, acessível a todos, mas que tem que ser vivenciado para tornar-se uma certeza: é sempre possível achar um recurso dentro de nós. Ainda que se trate de um problema aparentemente insolúvel, mesmo que seja uma tragédia irreparável, existe sempre a possibilidade muito delicada, o mecanismo profundamente sutil de poder ver as coisas de outra maneira. Ao mudar o foco e, assim, reinventar completamente a qualidade nutricional daquilo que vivenciamos, tornamo-nos capazes de transformar o pior dos acontecimentos, o mais temível dos venenos, em alimento vitalício para a alma.

 

                                          Antonella Zara

                                     www.antonellazara.com

A Coragem de Mudar

25 – A Coragem de Mudar

 

 

Um belo dia, mais por diversão do que por crença, ele atendeu aos pedidos insistentes de uma amiga, que jurava pela competência de uma cartomante, e deixou que esta lesse as cartas para ele. Depois de espantar os espíritos maléficos e falar com os anjos, a mulher de olhar de raposa abriu o baralho solenemente. Logo, uma sobrancelha da bruxa ergueu-se e uma pontinha de lábio repuxou-se em um meio sorriso. Além das implícitas visões de riqueza e felicidade, com as quais ela sabiamente reconfortava seus clientes, ela previu:

_Você encontrará uma pessoa de cabelos escuros como o céu sem lua e de olhos abissais, nos quais você perderá tudo. Até a si mesmo. Mas curiosamente, você gostará de se perder, pois somente assim poderá se conhecer de outra forma.

Ele sorriu, condescendente, e saiu dali com a sensação de ter dado dinheiro para uma vigarista. O seu futuro sucesso era óbvio, pelo simples fato de já ser bem-sucedido. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento humano poderia deduzir aquilo pela observação das suas roupas e maneiras. Quanto ao misterioso encontro previsto por ela, aquilo caberia em qualquer novela, mas não na vida dele, que além de viver um casamento feliz há quinze anos, tinha duas filhas maravilhosas.

Qual não foi sua surpresa quando, meses depois, durante uma sessão de cinema, à qual ele foi com a esposa, ao sair da sala para ir ao banheiro, notou que fora seguido por um homem. Imediatamente ele soube que era ela. Uma pessoa de cabelos escuros como o céu sem lua e de olhos abissais. E embora nunca tivesse tido uma experiência homossexual nem desejado tê-la, quando o rapaz avançou em sua direção, o prensou contra a parede e enfiou a língua ardente em sua boca, ele sentiu um prazer indescritível e jamais imaginado. E então, assim como a gente sabe que tem fome, ele simplesmente soube que não poderia voltar a ser o mesmo. De fato, algum tempo após a avalanche inicial, ele era outro homem. Ou melhor, ele era um homem divorciado e um gay recém-casado.

A historinha acima é baseada em um relato verídico contado por um amigo meu durante uma agradável conversa em uma tarde ensolarada passada na beira da praia. A pessoa em questão era um grande amigo dele – ou seja, trata-se de uma fonte confiável. O que significa que, ainda que um pouco floreada por mim (perdoem as manias de escritora) esta história realmente aconteceu! Juntos, meu interlocutor e eu rimos bastante. Ele, porque nunca se recuperou totalmente do sobressalto, mas mesmo assim deu força ao amigo e desejou sinceramente que este fosse feliz, independentemente de sua escolha sexual. Eu, porque até mesmo em uma lânguida tarde de verão no sul da Bahia, na frente de uma inebriante maré baixa, de um mar morno e sedutor, que mais parecia uma imensa piscina natural, banhando-me em um lascivo momento de placidez e alegria de minha própria existência, a vida e o amor nunca deixam de me lembrar que viver é extremamente perigoso e absolutamente surpreendente. Pois, graças às implacáveis leis da natureza, tudo está sempre mudando e pode mudar ainda mais de um momento ao outro. Até nós mesmos. Confesso que depois disso curti ainda mais a suculenta transa crepuscular com o meu querido e saboroso marido. Afinal, nunca se sabe do dia de amanhã.

A todos nós desejo um feliz Ano Realmente Novo. Isto é, sem medo de mudar quando for necessário ou inevitável. E se houver medo, que este não nos paralise. Pelo contrário, que ele seja o grande desafio e nos sirva de tempero.

 

 

                                          Antonella Sigaud

                               

24 – A Era da Ansiedade

24 –A Era da Ansiedade

 

 

Está na hora de levantar. Puxa, com o que é que eu estava sonhando mesmo? Ah! Era isso. Meu marido estava tendo um caso. Melhor começar logo o dia e não pensar nisso. Tenho que escovar os dentes, tomar banho rápido. Senão não vou ter tempo de fazer tudo o que eu tenho para fazer… E o que é que eu queria fazer mesmo? Tenho que acordar e vestir as crianças, dar comida para os animais, levar os filhos para a casa do amiguinho, acabar de preparar a ceia de Natal, comprar os últimos presentes, terminar aquele trabalho no computador. Eu sei, eu sei, estou de férias, mas a gente só vai passar alguns dias na praia na semana que vem, e o dinheiro não está sobrando. Arrrrrrrgghhhh! Minha cara no espelho! Quando é que fiquei velha? Não, na verdade, não estou velha ainda, tecnicamente falando até sou jovem, mas estou muito mais velha do que eu me lembrava. Eu não tinha essas rugas, esses cabelos brancos. É. Pode ser que ele esteja me traindo. É claro que está. Olha só para a cidade lá fora, olha a quantidade de bundas e peitos jovens e durinhos transitando livremente pelas ruas! Será que está na hora de fazer plástica? Putz, e essa dor no peito… Será que estou doente? Gente, estou atrasada. Nem sei como já fiz tanta coisa e já estou no supermercado. Quase me esquecia do champanhe. E dos cigarros! Nossa, mas esses preços estão impossíveis. Onde vamos parar? O dinheiro não dá para mais nada. Assim vou ter que esperar mais um ano para mudar de emprego e fazer aquilo que realmente quero. E aquela viagem que eu queria tanto fazer sozinha?  Deixa pra lá. Melhor não pensar nisso. Puxa vida, estou arrasada. O Zé está com câncer. Que loucura. Ele é tão jovem. Ele tem a minha idade! De repente, quando a gente menos espera, a vida acaba. Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Não importa que todo mundo morra. Eu não, eu não quero. Tenho que parar de pensar nisso. Mas estou pensando! E a Sílvia, hem, ela foi assaltada! Não agüento mais esta cidade. Que horas são? Meu Deus, eu me esqueci das crianças! Puxa, o trânsito está um inferno. Estou morta de cansaço. Ainda bem que o Natal já passou. E agora estamos na cama. Meu marido e eu. Será que ele está vendo as minhas rugas? Eu tenho quase certeza que ele está tendo um caso. Quando é que ele ficou chato? Ou sou eu que fiquei? Estou tão cansada… O tempo está voando mesmo. Acho melhor dormir. Amanhã tenho muita coisa para fazer.

A fulaninha acima se chama “Ansiedade”. E ela tem muitos primos e primas. Entre eles: síndrome do pânico, estresse pós-traumático, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada. “No Brasil, estima-se que 23% da população tenha algum tipo de distúrbio ansioso” Nos EUA são 28 %. Lá eles até instituíram o Dia do Pânico. Isso mesmo: O DIA DO PÂNICO! Bem-vindos à era da ansiedade. Mas a ansiedade já era. Os ansiosos, aqueles que têm a sorte de perceber que estão doentes, correm para as terapias, se entopem de remédios, colapsam nas ruas e nos hospitais. Os outros, ou seja, a grande maioria de nós, meros mortais, afoga diariamente um pouco mais na areia movediça de suas neuras. E geralmente os amigos ou parentes apenas percebem isso quando vêem as últimas pequenas bolhas criadas pelos silenciosos e angustiados pedidos de socorro. Quando a pessoa já está totalmente enterrada na lama e é praticamente impossível sair. A lama da aflição. A lama da falta de tesão de estar vivo. A lama profunda de precisar sempre mais, de correr sempre mais contra as horas e os anos, e não acreditar em nada. A lama fétida de uma vida vivida no piloto automático. A grande merda humana da perda do tempo.

Por isso, neste Natal, desejo a todos nós mais tempo. Não depois, mas agora. Tempo de parar. Tempo de silêncio. Tempo de qualidade. Tempo de mandar se foder tudo aquilo que não importa de verdade, tudo que não é essencial. Porque se nós não pararmos o tempo, ele com certeza nos parará. E muitas vezes ele o faz com a elegância de um brutamontes. Ele nos joga ao chão. Ele nos pisa. Pode parecer rude, é verdade, mas é que ele nunca perde a esperança. De sermos mais interessantes. De percebermos que estamos vivos. De darmos valor ao tempo, porque não há tempo a perder. E com certeza não é correndo atrás dele que conseguiremos agarrá-lo. Nem é fugindo dele que conseguiremos nos salvar.

Parar. Sentar. Olhar o pôr-do-sol. Pegar na mão de um amigo. Fazer cafuné em outro. Desligar o celular. Não responder aos e-mails. Ou responder direito. Com ousadia. Com inspiração. Uma carta apimentada, uma confissão delirante, uma declaração de amor. Olhar dentro, lá no fundo dos olhos do amado, ou, se nem ele nem outro não quiser, olhar os próprios olhos no espelho, pelo menos meia hora por dia. Almoçar com nossos pais. Fazer as pazes com nossos irmãos. Dar longos abraços em nossos inimigos. Jogar conversa fora. Exercer a liberdade de mudar tudo de vez em quando. Sorrir bastante. Sorrir com os outros, sorrir sozinhos. Ficar roxo de raiva. Gritar. Berrar bem alto. E depois rir. Rir para as próprias rugas. Acariciar as celulites. Isso mesmo. Dizer a alguém interessante “lamba a minha celulite” e se ele não fizer, e não souber que é um privilégio, ele não vale a pena. Passar cremes na pele. Depilar o nariz. Fazer as unhas. Fazer as necessidades com gosto. Lentamente. Curtindo as coceguinhas e o cheirinho daquilo que está saindo de nós. Daquilo que não faz mais parte de nós. O cheiro do passado. Puxar a descarga com mais gosto ainda. Fazer o que ninguém faz. Strip-tease. Sexo tântrico. Amor. Mais amor. Eu já falei amor? Dançar de cuecas e meias. Se for mulher, com o fiozinho do OB pendurado e balançando. Ou deixar o sangue correr solto. Tomar banho dançando com a água. Dando graças à água. Graças ao chão que estamos pisando. Graças ao ar que estamos respirando. Graças ao tempo que ainda temos. Bebendo o tempo. Devagar. Como um vinho. Devagarinho. Até sermos vinho. Até nos sentirmos tão grandes, mas tão grandes, o mundo cabendo no coração. Até ficarmos imensos, muito maiores do que nós. Até entendermos que somos infinitos. Como o tempo. E o silêncio. Feliz Natal.

                                         

                                             Antonella Sigaud

                                      www.antonellazara.com

 

 

 

« Previous entries Next Page » Next Page »