O Caminho do Amor – Capítulo 9

Capítulo 9

Na famosa fonte de Irache, que oferece vinho de graça aos peregrinos, compartilhamos risos e histórias com outros peregrinos. Mais tarde, escutamos que muitos deles se perderam após passarem por esta fonte mágica.  Às vezes é ótimo perder-se um pouquinho, especialmente se o vinho é bom e a companhia deliciosa. Por outro lado, isso me lembra que é bem mais fácil ficar desnorteado na abundância do que na escassez. Por isso, resolvo anotar mentalmente: saúde, amor, sabedoria, e bom humor. São itens básicos e ferramentas imprescindíveis. No entanto, pensando bem, é preciso bem mais que isso. Adiciono à lista uma fé colossal, uma overdose de criatividade e uma loucura consciente.

No final do dia chegamos enfim a Villamayor de Monjardin, um pequeno vilarejo cujo primeiro albergue pertence à Igreja. Paramos para descansar. As duas jovens “hospitaleras” espanholas, uma loura e uma morena, são muito bacanas e nos oferecem água, biscoitos e mais vinho da fonte. Os “hospitaleros” geralmente são peregrinos que já completaram o Caminho pelo menos uma vez e depois decidem contribuir por duas semanas com o serviço voluntário de tomar conta de um albergue.  Florencio e eu gostamos da energia das moças e decidimos ficar. Enquanto ele toma banho, um papo animado começa entre mim e as duas.

_Deve ser difícil trabalhar de manhã até de noite atendendo a todos os tipos de peregrinos fedorentos… – comento, aproveitando para tirar os sapatos empoeirados, as meias nojentas, e esticar as pernas.

_Fácil não é, concorda a primeira. Todos os dias, nós acordamos às seis horas da manhã para preparar tudo e oferecer um café-da-manhã gratuito aos peregrinos. Além disso, há a limpeza e as compras a fazer. Não recebemos nenhum apoio financeiro da Igreja. Nada além das doações voluntárias. Mas, ao mesmo tempo, é um trabalho muito bonito. O Caminho fez tanto por mim que fico feliz em retribuir.

_Eu também. Além disso, completa a moreninha alegremente, somos solteiras. Por acaso ou por sorte, recebemos muito mais peregrinos homens do que mulheres. Em sua maioria, são desimpedidos, espiritualizados, e em busca de respostas para seus questionamentos existenciais. Passamos maravilhosas noites em claro, mergulhadas em instigantes discussões filosóficas ou divertidas celebrações regadas a vinho.

Nós três rimos como meninas enquanto elas me mostram as fotos delas com diversos rapazes e senhores atléticos. Um pouco mais tarde, após o banho, elas nos levam a uma barraca, montada no jardim por detrás da Igreja para os dias nos quais o refúgio está cheio. Há uma linda vista das montanhas neste lugar.

_A tenda dá para cinco pessoas, mas hoje não chegará mais ninguém. Vocês não querem dormir aqui? Afinal, para um casal é melhor um pouco de privacidade, não é verdade?

Surpresos e gratos, Florencio e eu aceitamos a oferta. De uma forma inesperada, o nosso desejo de achar um belo lugar para acampar acabou sendo realizado. Zoltan, um rapaz interessante da Transilvânia que encontramos em nossa parada na fonte de vinho, aparece e vem ter conosco com um sorriso nos lábios:

_Que bom reencontrá-los!

_Olá, Zoltan! Você vai dormir no refúgio? – Florencio pergunta, visivelmente contente de voltar a ver este personagem.

_Não, eu sempre durmo ao ar livre. Gosto de olhar as estrelas.

Há algo de selvagem e indomável neste rapaz. Uma revolta obscura no olhar, uma inquietação latente. Ao mesmo tempo, ele tem aquela estranha pureza das pessoas que não têm nada a perder. Fico curiosa:

_Onde você começou o Caminho?

_Vim de Paris e voltarei caminhando para lá. São 3400 quilômetros. Comecei minha peregrinação com minha namorada, mas ela teve que voltar para Paris… – Há uma tristeza óbvia na voz dele. Ele continua: – Tenho apenas duzentos euros no bolso. Mas carrego uma mochila que pesa 20 quilos, cheia de comidas não perecíveis e mantimentos. Na verdade, eu não tenho pressa alguma. Por isso, caminho devagar e faço várias pausas para descansar.

Não há dúvidas. Zoltan é uma pessoa incomum. Um verdadeiro buscador, daqueles que apostam tudo em sua busca. Confirmando os meus pensamentos, ele conclui:

_Quero realmente saber o que fazer com minha vida. Quando penso na vida de Jesus, por exemplo, na maneira como ele escolheu o amor em meio aos sofrimentos, eu me sinto inspirado a continuar caminhando.

O fim da tarde traz uma brisa gelada e colore as montanhas de tons de rosa e azul. Nós três olhamos a imensidão. Quanto mais o peregrino caminha, mais perguntas e menos respostas ele tem. Mas, de alguma misteriosa maneira, a multiplicação constante das perguntas não deixa de ser uma resposta muito profunda. É como se, pouco a pouco, algo se abrisse por dentro e a vastidão do universo coubesse no coração.

Florencio e Zoltan decidem fazer uma fogueira e conversar mais. Eu entro na barraca para me proteger do intenso frio que começa a me incomodar. Abrigo-me sob o saco de dormir e me dedico às minhas anotações à luz de uma lanterninha de bolso. Penso na coragem deste e de outros peregrinos. Penso nos altos e baixos do Caminho. Nos altos e baixos de minha trajetória como ser humano e como escritora. Nas dificuldades e nas belezas de meu amor com Florencio. Em uma vida plena e em um grande amor cabe tudo. A dor e o prazer. Os medos e a esperança. O desespero e o êxtase.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 8

Capítulo 8

 

Estamos atravessando uma região de vinhedos. Além do café com leite e dos gostosos croissants comprados em bares, os cachos de uvas roubados aqui e ali têm sido o nosso delicioso café-da-manhã de todos os dias. No entanto, apesar da doçura das uvas, hoje novamente não conseguimos evitar o bate-boca. Eu retomo o assunto da véspera:

_Ontem, quando estávamos jantando com aquele grupo de peregrinos, você disse que iria pagar a conta e esperaria por mim do lado de fora. Ao sair do restaurante, você não estava mais lá. Estava no albergue fumando um cigarro com aquelas peregrinas bonitinhas!

Sei que o que eu acabei de dizer é ridículo, mas não me importa. Para variar, Florencio logo se empertiga como um galo de briga e começa a falar mais alto, sacudindo o dedo na minha cara:

_Você é injusta e ciumenta! Eu disse a você que precisava de ar fresco! Aí simplesmente pensei que, se não me encontrasse ali, iria até o albergue me encontrar! Qual o problema?

_Pode ser que seja ciumenta, mas surda não sou! Ouvi muito bem que você disse que me esperaria na frente da porta! Só que não esperou. Saiu correndo para fumar com elas, não é verdade?

Florencio olha para o lado, arranca um cacho de uvas do pé e joga na minha cara. Ainda bem que consigo esquivar antes de ficar com o rosto empapado de suco. Puta da vida, eu viro as costas, e saio caminhando na frente com passos largos e enfezados. Algum tempo mais tarde, quando eu enfim me sento para descansar, ele me alcança e senta comigo como se nada fosse. Sem muita ênfase, eu reclamo:

_Estou realmente de saco cheio de seus ataques.

_Desculpe. Eu não devia ter jogado as uvas. Vou tentar também não dizer mais uma coisa e fazer outra, está bem?

Pelo visto, não há raiva que resista a quilômetros de caminhada.  Na verdade, estou cansada demais até para brigar. Eu aceito as desculpas, levanto e continuamos a caminhar.  De repente, no meio do transe da caminhada, Florencio joga os braços para cima e grita no meio do nada:

_Quero ser rico! Quero montanhas de ouro!

_Amém! Aleluia!  – grito eu. Pelo menos, desta vez ele não me assustou com uma de suas súbitas cantorias. Geralmente, quando ele começa a cantar de repente como um completo desvairado, ele quase me mata de susto. Realmente, não há melhor desafio para a prática da meditação do que um marido. Quando me recupero do susto, ou saio correndo na frente ou fico para trás, deixando alguns bons metros de distância entre nós.  Entretanto, às vezes, quando estou de muito bom humor, até que o incentivo a cantar mais.

Continuamos caminhando. Fico atenta ao meu mantra e às incontáveis pedrinhas que fazem uma espécie de reflexologia natural nos pés dos peregrinos. Depois de pisar em milhares de pedras que, por sua vez, foram pisadas por incontáveis peregrinos em centenas de anos, é impossível que algo não mude por dentro. A peregrinação é uma reprogramação subatômica. Pelo menos, é nisso que penso enquanto eu me equilibro entre uma pedra e outra. Depois de mais um tempo, subimos por uma trilha e, ao descer, avistamos infindas montanhas de capim dourado brilhando ao sol da tarde. O caminho atravessa a paisagem em curvas sinuosas e se perde no horizonte. É lindo de morrer. Movida pela euforia do cansaço, viro para Florencio às gargalhadas:

_Cuidado com aquilo que você deseja. Os seus desejos foram realizados! Eis aqui as suas montanhas de ouro! Hahahaha!!!

_Malditas metáforas! – ele xinga e agita os punhos contra os céus.

_É. Acho melhor formular seus sonhos com outras palavras.

Florencio coça a cabeça e então recomeça:

_Quero vários porta-malas e porta-luvas abarrotados de notas de euros! Quero helicópteros tão cheios de barras de ouro que tenham dificuldade em levantar vôo!  Quero que minha arte enlouqueça as pessoas e abra portais dimensionais. Que a minha casa seja um castelo, cheia de instalações surrealistas e todos os tipos de obra de arte, delirante como uma viagem de ácido, estonteante como a casa do Salvador Dali, em Figueras. Quero um escorrega que saia direto da janela do meu quarto e desemboque em uma piscina rodeada de esculturas. Que o meu túmulo seja um mausoléu, ou uma pirâmide, cheio de preciosidades, digno de um faraó.

Resolvo entrar na brincadeira:

_Pois eu quero que os meus livros sejam best-sellers publicados em todos os idiomas. Quero viajar com eles. Que arrebentem as crenças ultrapassadas e façam crescer flores nos corações das pessoas. Quero um refúgio na floresta, em um terreno atravessado por um rio. Quero uma casa de banhos, massagens e meditação, e um ofurô, para tomar banho em leite quente e pétalas de rosas. E um templo com estátuas de deusas do mundo inteiro. Vou fazer a minha próxima peregrinação sem mochila, apenas com um vestido preto da Armani, que vou trocar por outros nas paradas. Quero ser enterrada pelada na terra da Bahia, envolvida em um pano de seda vermelha coberto com poemas de amor, ao som de uma harpa tocada por uma deslumbrante diva de longos cabelos balançando ao vento, com uma árvore de flores vermelhas plantada em meu umbigo.

Nós dois caímos na risada. Os passos passam ligeiros, ajudados por nossos agradáveis planos para o futuro. De fato, na peregrinação é possível perceber como as palavras, as ações e os pensamentos são intimamente conectados com os acontecimentos. Uma das grandes questões da busca espiritual é como participar conscientemente neste processo criativo. Obviamente, isso vai muito além e é bem mais profundo do que fantasias materiais, mas um pouco de senso de humor, sonhos mirabolantes e saudáveis delírios de grandeza não fazem mal a ninguém.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 7

Capítulo 7

 

    Durante o dia faz imenso calor. Caminhamos sob um sol tórrido e inóspito. Fazemos algumas paradas para descansar. Estamos atravessando um lindo vilarejo medieval quando um senhor camponês nos pára e pergunta em um espanhol desdentado:

    _Vocês são peregrinos? Vão para Santiago de Compostela?

    _Sim, senhor. Ainda falta muito, mas vamos para lá.

    _Então tomem esta cerveja. Ela lhes dará força!

     Ele nos entrega duas latinhas de cerveja super gelada, sorri e vai embora. Todo peregrino sabe do imenso valor dos pequenos presentes do Caminho. Agradecidos, nós nos sentamos em um banco diante da Igreja, brindamos e desfrutamos a bebida. A água das fontes do Caminho é uma verdadeira dádiva. Mas esta cervejinha agora é um milagre.  Ela desliza macia nas nossas bocas ressecadas. Os ombros estão vermelhos do Sol e do peso das mochilas. Os rostos estão sujos e brilhantes, cobertos de suor empoeirado. O cansaço nos envolve em um silêncio maciço. O calor abraça a pele, ofusca a vista, arde sobre o solo árido e pedregoso. É uma canícula que embaça a visão e os sentidos. Depois de um tempo recuperando as forças, Florencio me pergunta:

     _Quer escutar uma história?

      _Claro. Você sabe que adoro histórias.

       _Pois bem. Trata-se da história de uma mulher que sempre foi perseguida por um demônio. A única forma de escapar era estar sempre em movimento, motivo pelo qual ela vivia caminhando. Por isso, ela acabou se tornando uma peregrina e chegando ao Caminho de Santiago. No entanto, certa noite, em um refúgio, o demônio conseguiu achá-la. Porém, ao invés de atacá-la imediatamente, sentiu-se atraído por um casal que ali dormia. O amor dos dois era tão forte que tinha sobre o demônio o mesmo efeito que a luz tem sobre as mariposas. Ele se sentia curioso, excitado e invejoso. Sua boca salivava com desejos de destruição. Começou a aproximar-se da mulher de cabelos vermelhos que dormia docilmente em uma das camas, logo acima do marido, também mergulhado em um sono profundo. No entanto, naquele momento a outra peregrina despertou. Logo, ela reconheceu o demônio e começou a gritar histericamente: “Aqui não! Aqui não!” Seus gritos medonhos acordaram a todos. Na manhã seguinte, o marido da ruiva, sem saber do perigo do qual foram salvos, reclamou que uma mulher lhe havia roubado o sono com seus gritos.

         Novamente nós ficamos em silêncio. De fato, na noite anterior estávamos em um refúgio lotado de peregrinos e os terríveis gritos de uma mulher nos despertaram. Sem nada dizer, sorrimos um para o outro, levantamos e continuamos a caminhar. A historinha de Florencio e o ritmo monótono dos passos me fazem pensar nas metáforas associadas à busca espiritual. O “demônio” da história, por exemplo, é um símbolo muito usado por várias tradições para descrever os elementos internos e externos que dificultam nossa evolução e nossas relações, mas quando devidamente reconhecidos e superados, nos ajudam a evoluir.

         Isto me lembra as inúmeras questões em mim. Como agir e me relacionar da melhor maneira? O que é certo ou errado? O que é mais útil em determinadas situações, não somente para mim, mas para o todo do qual faço parte? Não há respostas absolutas para essas questões. Não existem manuais de instrução que respondam a todas elas. Para obter as melhores respostas, as mais sintonizadas com a verdade profunda de cada momento, é preciso um trabalho constante em si mesmo. Caminhar agora neste caminho milenar percorrido por incontáveis peregrinos, fazer isso recitando um mantra milenar que contem a força da prática de inumeráveis buscadores, seres humanos como eu, unir a minha busca à busca do homem ao meu lado através da força incomensurável do amor, tudo isso me toca. De certa maneira, é como se cada passo me conectasse ainda mais a esta busca ancestral de conhecimento.

         À noite, armamos a nossa barraca em um Camping. Fora outro casal de ciclistas, somos os únicos peregrinos aqui. Por isso, podemos deixar a barraca aberta, sem ter que lidar com olhares indiscretos. Depois de um bom banho e um jantar, deitamos sem roupas sobre os sacos de dormir. A noite está fresca e agradável. Um magnífico por do sol encerra o dia e um céu absurdamente estrelado se abre diante de nós. Na fronteira do dia com a noite, nossas mãos deslizam distraidamente pelas peles até chegar às fronteiras do desejo. Nossos corpos exauridos se redescobrem ao toque. Em cada curva há uma montanha e um vale a descobrir. Como no Caminho, no amor também as sensações e as emoções mudam o tempo inteiro. O sexo nos leva a lugares inesperados. A peregrinação continua por dentro, mesmo quando não estamos caminhando.

Depois do amor, terminamos o dia com a imperdível massagem dos pés, hábito que adotamos logo nos primeiros dias. A cabeça dele para um lado, a minha para o outro, usamos um creme mentolado que alivia imediatamente as dores da extenuante caminhada. A dança do toque dos dedos e as estrelas despontando no céu têm um efeito inebriante. Logo sonho e realidade se misturam. Quando as mãos param de massagear, um sabe que o outro adormeceu. Os pés se agitam, pedindo por atenção. E assim continuamos, entre devaneios e massagens. Entretanto, como todas as noites, o sono vai ficando cada vez mais forte e acaba por nos vencer. Os músculos relaxam, o corpo abandona todos os esforços e o barco dos sonhos levanta a âncora. Viajar é mais do que apenas sair de casa. Viajar é materializar sonhos, é um ato de coragem e de entrega. É abrir-se ao desconhecido e aceitar que nunca mais seremos os mesmos.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 6

Capítulo 6

No quarto dia de caminhada, os nossos corpos estão muito doloridos e as bolhas de Florencio estão em carne viva. Às vezes ele caminha com uma expressão suada e delirante de quem não sabe mais onde está nem o que está fazendo. Quando lhe pergunto se está sofrendo, ele dá uns pulinhos esquisitos e responde:

            _ Por acaso você já viu um cavaleiro templário chorar por causa de bolhas nos pés?

            _Não, realmente, eu nunca vi.

            Sorrio então para ele, orgulhosa de meu cavaleiro. A dor é um intenso desafio. Gosto de seu bom humor ao lidar com ela. Ao chegarmos a Pamplona, a primeira grande cidade do Caminho, cuja parte antiga é belíssima, vamos primeiro à Igreja e depois nos dirigimos direto ao albergue de peregrinos. Trata-se de uma imensa construção hiper moderna e limpa que tem capacidade de abrigar centenas de peregrinos. Depois do banho, vamos passear. Florencio tem uma idéia:

_ Vamos fazer de acordo com a tradição espanhola e ir de bar em bar experimentando tapas?

_Eu já fiz isso. Mas a tradição não é assim. A tradição é ir de bar em bar bebendo vinho e acompanhar cada taça de um petisco, isto é, uma tapa, para não ficar bêbado. – eu respondo.

_Tudo bem, mas eu não quero beber. Só quero comer.

Eu penso um pouco e logo revido:

_Pois eu só vou fazer isso se nós dois ficarmos bêbados juntos.

_Que absurdo! Você sabe que tenho alergia a álcool! Quando bebo não paro de me coçar, minha pele começa a ferver, além de eu ficar vermelho feito um dragão chinês e me embebedar super rápido!

_Eu sei. Mas se é para comer até se empanturrar, então também podemos beber até nos embriagar.

Resolvo teimar. Sei que Florencio tem fases nas quais tende a comer demais, e sempre sofre com as conseqüências disso. E eu odeio me empanturrar. Por outro lado, de vez em quando eu tendo a beber alguns copinhos a mais e ele não é nada chegado ao abuso de álcool, a não ser que esteja festejando com um bando de homens barulhentos. Alguma coisa me diz que esta é uma boa oportunidade para enfrentarmos os nossos vícios. Afinal, na vida é preciso ser criativo. Quiçá meter o pé na jaca hoje possa ser um método mais eficaz para lidar com nossos maus hábitos do que evitá-los o tempo todo.

_Você está sendo ilógica! Isso é uma loucura!

_Eu sou mulher. Não preciso ser lógica. Se você quiser comer até explodir, e quiser minha companhia em seu ataque de gula, vai ter que ser do meu jeito. Você não se embebeda com seus amigos às vezes? Pois é, hoje quero que tome porre um comigo.

Dito e feito. Começamos às cinco da tarde, vamos de bar em bar degustando agradáveis vinhos tintos e tapas deliciosas. Cada tapa é uma pequena obra de arte culinária. São deleites para o olhar e para o estômago. Às oito horas já gastamos mais dinheiro do que seria aconselhável e estamos os dois cambaleando ao sair do oitavo bar. Florencio reclama em um inglês enrolado:

_Não agüento mais beber… Mas vou continuar comendo!

_Ou você bebe comigo ou eu vou embora da cidade! – eu exagero, respondendo em um inglês ainda menos compreensível.

_Pois então vá! – ele grita enquanto se coça como um macaco, com a cara cor de pimentão e o bafo soltando labaredas. Pisco algumas vezes, tentando focar a imagem à minha frente. Realmente, o meu marido está parecendo um dragão, desses bonitinhos e meio assustadores que a gente vê na publicidade dos restaurantes chineses. Fico com pena, mas dou de ombros, viro as costas e saio andando super tonta. O próximo grito dele bate como uma língua de fogo nas minhas costas:

_Se você tentar ir embora da cidade, eu vou fazer um escândalo terrível no albergue!

Ele sabe que detesto gritarias, mas viro para ele e grito de volta:

_Pois saiba que não estou nem aí!!!

Continuo caminhando sozinha e revoltada pelas ruelas até chegar à praça principal, onde sento em um banco. Sinto-me um pouco triste. Não sei se é pelo porre homérico ou pela briga ridícula. Como não consigo pensar direito, levanto de novo e saio em busca do albergue. Nem me lembro como, mas de alguma maneira consigo chegar até lá, escovar os dentes, vestir o pijama e deitar na cama superior do beliche. Esqueço até da minha ameaça de partir da cidade e começo a cochilar um sono meio torto. Florencio chega pouco depois e vem até a minha cama me cutucar:

_A nona tapa foi a melhor de todas. Você perdeu um prazer inesquecível. Um manjar dos deuses!

O arsenal de palavras cabeludas de Florencio sempre foi bem maior que o meu. Na verdade, eu nem sei direito falar palavrões. Quando tento, às vezes perco o rebolado no meio da frase e a minha raiva brocha. Entretanto, por diversão ou irritação, de vez em quando arrisco xingar um pouquinho. Geralmente, quando faço isso, Florencio começa a rir da minha cara. Como desta vez. De olhos fechados, respondo:

_Você é um sacana. Que tal ir se foder?

Digo isso e abro um olho para ver o efeito da minha resposta. Logo, dou de cara com um sorriso bêbado brincando nos lábios e nos olhos avermelhados do meu dragão. Florencio sabe que o meu xingamento é sinal de que não estou mais tão chateada. Ele se aproxima, acaricia meus cabelos e sussurra em meu ouvido:

_Acho que não vou conseguir comer tanto por bastante tempo…

_Acho que não vou beber tanto assim pelo resto da viagem… – respondo, fechando os olhos de novo e caindo em um sono pesado.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 5

Capítulo 5

 

                     O Caminho de Santiago tornou-se um negócio e hoje há centenas de peregrinos fazendo esta viagem. Os albergues, as pensões e os hotéis estão super lotados. Nos vilarejos, o comércio procura chamar a atenção dos peregrinos e vender a todo custo. Ainda assim, a caminhada em si continua a ser o que sempre foi: um passo depois do outro e a constante busca por auto-superação. Por mais que hoje em dia ofereçam um leque de amenidades compráveis aos peregrinos, caminhar 800 ou mais quilômetros nesta rota milenar nunca deixará de ser um desafio espiritual, mental e físico.

                    Na peregrinação, o misticismo é uma experiência quase inevitável. Ele se manifesta através de desagradáveis, estranhos ou interessantes encontros com os outros, ou através do simples caminhar, que é sempre solitário. Ele penetra pelos pés em carne viva, pelo ritmo monótono dos passos sonhadores, pelo cansaço empoeirado, pela pele castigada, nos dias de Sol inclemente ou de chuva torrencial, pelos questionamentos das noites insones, quando o olhar se perde na imensidão estrelada. De repente, o peregrino se descobre, como milhares de outros buscadores antes e depois dele, sentindo-se parte de algo muito maior que o entendimento.

                        Estamos no terceiro dia de caminhada. Passamos por densas florestas e também por algumas perigosas auto-estradas cheias de carros velozes e monstruosos caminhões. Eles passavam por nós com fúria, eram vorazes dragões, loucos para nos engolir. Eu respirava fundo e recitava o mantra. Tentei não sucumbir ao pânico, me concentrar em cada passo e seguir em frente. Por enquanto, o método funcionou. Florencio, por sua vez, tem os pés cada vez mais machucados por causa dos sapatos recém estreados. As bolhas sanguinolentas se multiplicam e, segundo ele, doem demais. Dizem que caminhar assim é como pisar em cacos de vidros. Por isso, avançamos muito devagar e paramos a cada duas horas para descansar, tirar os sapatos e cuidar dos pés.

                        Agora estamos sentados na beira de um rio. Eu falo a ele sobre alguns pensamentos que tive durante o dia e ele me corta sem nem mesmo perceber. Sei que ele está tendo dificuldades e sofrendo a dor dos pés, mas mesmo assim não consigo evitar. Sinto-me magoada. Trocamos algumas palavras duras e um silêncio difícil se instala entre nós. Nós nos encontramos há nove dias em Paris, mas às vezes ainda é como se houvesse uma intransponível barreira entre nós.

                     Fico observando a correnteza do rio. As águas brilham com ferocidade sob o sol da tarde. Em silêncio, Florencio começa então a queimar sálvia. Depois, ele vem até mim e me entrega o maço de folhas fumegantes. Sem querer, eu olho então para as nossas enormes mochilas. No início da primeira peregrinação, a minha mochila também estava pesada demais e decidi abandonar várias coisas no meio do caminho. Aquilo foi para mim um grande exercício de desapego. No entanto, desta vez, Florencio e eu conversamos e chegamos à conclusão que queremos arcar com este peso. Ao refletir sobre isso, pensei que nesta viagem a mochila talvez represente o peso daquelas responsabilidades que tornam a vida mais interessante: as relações humanas e o trabalho enquanto missão espiritual. Aquele tipo de trabalho que, por mais difícil que seja, nos engrandece e nos ajuda a servir a humanidade. De súbito, eu levanto e começo a saltitar em volta das duas mochilas, usando o incenso como varinha de condão, jogando fumaça sobre elas e dizendo:

                        _Queridas mochilas, a partir de agora vocês não vão pesar demais. Pelo contrário, o seu peso nos tornará mais fortes e nos ajudará a terminar a viagem. Vocês serão o símbolo de nosso trabalho, nosso lar, nossa família espiritual e proteção. O seu peso nos elevará e, por fim, nos dará asas. Amém.

                  Termino de falar e parece que as mochilas se transformaram. Elas me fazem pensar em dois lindos ETs verdinhos. Só falta saírem andando com o dedinho vermelho apontando para o céu. Florencio e eu nos olhamos através da fumaça e sorrimos. Por um instante, nós nos reconhecemos, daquele jeito que apenas um homem e uma mulher apaixonados conseguem se reconhecer. Somos dois xamãs em uma aventura espiritual e há um sentido profundo para estarmos aqui. É como se este momento tivesse sido combinado antes desta vida. Deixo as folhas de sálvia de lado e, de repente, nós nos agarramos ali mesmo, na beira do rio, fazendo um amor rápido, bruto e selvagem. Um amor peregrino. Ao terminar, estamos simplesmente felizes. E as mochilas também. Acabamos o dia de caminhada sem sentir peso algum.

  Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 4

Capítulo 4

 

Atordoada, eu sento no chão e aviso:

            _Daqui não saio!

            Florencio olha para mim sem entender:

            _Como assim?

            _Isso que você ouviu! Você sabe muito bem que tenho vertigem! Estamos perdidos no meio da montanha, está anoitecendo e não estou enxergando um palmo à minha frente. Ou você acha o Caminho ou então eu passarei a noite aqui mesmo!

            _Você está louca? Não vê que aqui está cheio de merda de ovelha?

          _Não me importa. Se quiser, continue sozinho. Daqui não saio! – repito, obstinada.

          Florencio sai fungando e reclamando em voz alta. Será que ele foi mesmo embora? Daqui a pouco ouço a voz dele me chamando lá de dentro da névoa. Não entendo o que ele diz. Com cuidado, arrisco alguns passos na direção da voz.

         _Achei um lugar para acampar! – ele grita.

         Um passo depois do outro, vou avançando até chegar a um espaço mais elevado, coberto por grama e protegido por uma parede de pedras. Não dá para ver o que há do outro lado. Florencio se empolga:

         _É perfeito para acampar! Pelo menos não tem merda de ovelha.

        Não sei qual é o problema dele com merda de ovelha, mas concordo que o lugar é bom. Ele continua:

         _É só ter cuidado e não tentar fazer xixi daquele lado. Parece que é um abismo.

         Eu dou um risinho nervoso. Morrer fazendo xixi no início da viagem seria o fim da picada. O barulho dos sinos das ovelhas continua ecoando ao longe. Começamos a montar a barraca em silêncio e, de repente, a cerração se abre e se fecha novamente, fazendo com que vislumbremos algumas cruzes mais abaixo.

           _O que é aquilo? – pergunta ele. Desde o começo, ele me faz perguntas que eu não sei responder. Eu já fiz esta peregrinação, mas sinto como se tudo fosse novo para mim. Eu dou de ombros. Não sei se é por vingança por causa do comentário sobre o abismo, mas respondo:

           _É para lembrar as pessoas que morreram aqui.

           Ele me olha assustado, mas engole em seco e não diz mais nada. De fato, tudo é um pouco sinistro. Pouco antes de nos perdermos, passamos por uma imensa carcaça de cavalo com um ururbu morto ao lado. E agora, esta névoa espessa nos rodeando, a noite caindo e trazendo um frio intenso.  Estou tremendo. Florencio começa a defumar o local com sálvia, uma erva de purificação que ele trouxe dos EUA. Juntos ou sozinhos, em casa ou viajando, sempre gostamos de fazer isso com incensos diversos.  O cheiro cria imediatamente uma sensação de conforto e proteção. Finalmente entramos na barraca. Vestimos todas as roupas que temos, comemos uma barra de proteínas e bebemos um gole de whisky de um cantil. Abrimos os sacos de dormir, deitamos encima de um deles e usamos o segundo como cobertor. Por fim, nós nos abraçamos. Parece que estamos sozinhos no mundo. A incerteza nos lembra a proximidade da morte. Ao mesmo tempo, ela nos faz sentir mais vivos que nunca.

        _Obrigada por fazer esta viagem comigo. – digo com sinceridade.

        _Obrigado por tudo. – ele sorri. Nós rezamos e mergulhamos rapidamente em um sono protegido e profundo.

       De manhã, acordamos a tempo de ver o véu de neblina caindo e oferecendo uma visão espetacular das montanhas à nossa volta. Logo também vislumbramos o Caminho, um pouco camuflado pela grama, exatamente ali onde eu me sentei na noite anterior. Estávamos tão preocupados por estar perdidos que nenhum dos dois percebeu que, na verdade, estávamos no Caminho! Olhamos um para o outro e damos uma gargalhada. Estar aqui é uma dádiva. De repente, lembro-me que na minha primeira peregrinação cheguei a Santiago à noite, em meio a uma densa névoa. Duas semanas depois, tive uma úlcera na córnea. Era como se a névoa de Santiago tivesse caído sobre a visão de meu olho esquerdo. Superar aquela súbita cegueira foi um árduo e belo desafio, uma oportunidade de colocar em prática o que eu havia aprendido e de conhecer a força que eu desenvolvi durante a minha caminhada. Desta vez, a névoa veio ao nosso encontro na primeira noite e se dissipou na primeira manhã, abrindo nossa visão para uma magnífica imensidão. Como se o mundo inteiro estivesse se abrindo para o nosso amor. Juntos, dobramos as coisas, arrumamos as mochilas e continuamos a caminhar. 

  Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Desejo a todos um Feliz Ano Novo!

Antonella Zara

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O Caminho do Amor – Capítulo 3

O Caminho do Amor – Capítulo 3

                     Após trocar cinco vezes de trem, chegamos enfim a St.Jean Pied-de-Port, um belo vilarejo situado nos Pirineus franceses. Armamos nossa barraca em um Camping. Sinto imensa emoção ao carimbar nossas credenciais em um posto de atendimento aos peregrinos. O Caminho começa oficialmente aqui. À noite, no acampamento, descubro que a barraca que Florencio trouxe não é à prova d’água:

                  _Como assim? Não é à prova d’água?!

                 _Realmente, eu me esqueci deste detalhe.

                  Ele levanta os ombros. Não consigo acreditar no que estou ouvindo, por isso pergunto de novo:

                 _Esqueceu? Vamos caminhar 800 quilômetros e você se esqueceu que pode chover?

                   A maioria das pessoas não sabe lidar muito bem com crítica. Ele começa a ficar agressivo e levantar a voz:

               _Olha, eu tinha milhões de coisas nas quais pensar e, além de tudo, comprei todo o nosso material para a viagem. De fato, eu me esqueci deste detalhe, mas você vai ter que engolir isso!

                 Olho para o céu completamente nublado. Lembro-me das chuvas do Caminho e até de algumas fortes tempestades de dez anos atrás. Não é brincadeira. Respiro fundo. Realmente, não dá para reclamar, pois ele comprou as mochilas, as lanternas, os sacos de dormir, e até mesmo as roupas de trekking. E sempre há a opção dos albergues de peregrinos, caso esteja chovendo. Um pouco mais tarde, Florencio se acalma e vem negociar uma trégua:

                   _Desculpas. Mas vai dar tudo certo, está bem? O que acha de colocarmos a rede por cima da barraca?

                   Eu sorrio. Ele trouxe uma rede e agora quer usá-la como guarda-chuva. Tudo bem. É a nossa primeira noite e, é claro, logo começa a chover. Não só a rede fica encharcada como também a barraca molha por dentro. Felizmente, a chuva não é muito forte e nós não ficamos ensopados. De manhã cedo, familiarizando-nos com o ritual de secar a barraca e guardar tudo nas mochilas, fico apenas observando a minha tendência de me irritar e perceber o que não está certo ao invés de me alegrar com aquilo que está legal. Sinto o meu pensamento querendo se perder nostalgicamente no passado, quando fiz esta viagem sozinha. Estar a sós é necessário às vezes, mas é também uma tentativa de solução de conflitos para a qual sempre gostei de fugir em minha vida. No entanto, agora estou acompanhada, não adianta ficar pensando nisso.

                  Tomamos café-da-manhã em um bar. Entramos na primeira Igreja de nossa peregrinação. Fazemos um ao outro o sinal da cruz sobre a fronte com água benta, sentamos e rezamos de mãos dadas, para que esta viagem nos ajude a manifestar o que há de sagrado em nós e nosso amor e, com isso, beneficiar o mundo de alguma forma. Somos ambos budistas católicos, se é que algo assim é possível, mas para nós parece natural. Como gostamos de símbolos e rituais, consideramos a Virgem, Jesus Cristo e os Buddhas como sendo símbolos do amor e da compaixão que todos podem despertar em si. Ainda que para muitos sejam mais importantes as convicções religiosas e as lutas de poder, para nós as Igrejas e os mosteiros são simplesmente símbolos do espaço sagrado que há dentro de nós, um lugar onde sempre podemos nos refugiar e recarregar energias. Levantamos e começamos a caminhar os primeiros dos 800 quilômetros por vir. São horas de uma subida muito dura que nos transporta por belíssimas paisagens. Sei que é uma das etapas mais difíceis de toda a caminhada. Florencio vai mais devagar que eu por causa da falta de treino, do joelho recém operado e da mochila pesada. Eu me adianto e, de vez em quando, paro e olho para trás para ver se ele está bem. Sinto-me tocada ao vê-lo lá longe, pequenininho na vastidão montanhosa, com sua imensa mochila, suando em bicas, se esforçando para sorrir e se empolgar sobre a beleza do espaço à nossa volta. Volta e meia paro um pouco e espero que ele me alcance. Arfante, ele anuncia:

                 _ Isso é demais! Isso é absolutamente divino!

                 O entusiasmo, a alegria, a simplicidade, a fé absurda no amor e na vida que fez com que ele muitas vezes cruzasse oceanos por mim, algumas delas sem nenhum tostão no bolso, que faz com que ele agora queira me acompanhar nesta viagem, e que se supere constantemente, tudo isto me cativa neste homem. Que ser humano incrível!

                  Eu volto a caminhar seguindo meu ritmo, hoje mais rápido que o dele. Mas sei que isso não significa nada. O Caminho é longo e ainda pode acontecer muita coisa. Naturalmente, eu sigo o conselho de meu professor e começo a recitar o mantra budista que me ajudou bastante nas provações dos últimos meses. Observo como ele traz uma cadência aos meus passos e pensamentos e me ajuda a voltar mais rapidamente ao foco quando começo a me perder em devaneios obscuros. De repente, Florencio começa a agitar os braços lá atrás. Lá vem novidade. Aliás, os acontecimentos sempre desafiam a prática espiritual. Meditação sem aplicação na realidade é totalmente inútil. Vou até Florencio, e ele diz:

                   _Eu perdi os meus óculos! Estavam pendurados na minha camiseta. Eu estava escutando música no walkman para me distrair um pouco das dores, e aí não escutei quando caíram.

                 Ele está indócil. Sei que escutar música não ajuda a ter atenção, mas resolvo não falar disso agora. Caminhar em meditação é o meu caminho, talvez não seja o dele. Não adianta criticar. Afinal, ele tem que fazer o que sente. O único problema é quando eu sofro com as conseqüências das ações dele. Enfim, resolvo pensar rápido. É óbvio que ser míope e perder os óculos no primeiro dia de caminhada não tem graça. Ainda que ele tenha lentes de contato, os óculos são importantes para descansar a vista. Eu sou muito míope e sei bem disso. Largo a minha mochila no chão:

                     _Fica aí, descansa um pouco. Eu vou voltar atrás e ver se consigo achá-los.

                        Vou caminhando para trás, olhando para o chão, perguntando aos peregrinos que passam se viram alguma coisa. Nem sinal dos óculos. Volto então e sugiro que ele faça o mesmo e vá procurá-los. Ele vai e me deixa aqui esperando por ele. Resolvo me sentar à beira do Caminho.

                         Desde que cheguei à Europa não consigo deixar de pensar naquela frase de um slogan de papel higiênico que vi em painéis espalhados pelas ruas na Alemanha: “A doçura nunca foi tão potente”.  Agora, em pleno Caminho de Santiago, percebo que a doçura é o florescimento.  É se abrir, fluir mais e melhor, especialmente em situações difíceis. A tendência de meu corpo de armazenar tensões, que este ano foi traduzida por dores e enrijecimento, fala dessa necessidade de uma doçura superior, aquele tipo de sabedoria inquestionável e orgânica.

                       Penso também nos três dias passados na Auvérnia. Eles foram realmente uma bênção. Os rituais budistas foram extremamente intensos. As conversas com Bénédicte, nossa anfitriã, muito profundas. Como leio cartas de tarô há mais de quinze anos, resolvi trazê-las comigo nesta viagem e, na última noite, ofereci uma leitura para Bénédicte que durou mais que duas horas. Foi tão forte que ela não permitiu que pagássemos pela comida que consumimos nos três dias de hospedagem. Sinto que as cartas serão úteis nessa viagem.

                   Florencio volta e balança a cabeça tristemente:

                  _Nada. Perdi mesmo. Acho que entendi o recado. Esta viagem vai mudar a minha visão do mundo. Nunca mais vou caminhar para trás. Vamos embora.

                Eu amo esse cara. Adoro quando alguém me surpreende. Geralmente é raro que isso aconteça. Mas ele consegue fazer isso muitas vezes. Continuamos a caminhar.

                Chegamos à primeira parada e comemos os famosos bocadillos de jamón serrano, sanduíches de presunto cru. Uma maravilha. Embora esteja cansado, meu marido insiste em não ficar no albergue e continuar caminhando. Eu fico um pouco apreensiva, pois sei que ele está exagerando para o primeiro dia. Além disso, nosso ritmo é muito lento. Não tenho certeza de que conseguiremos chegar à próxima parada antes do anoitecer. Sinto-me um pouco responsável por ele, como se de certa maneira eu tivesse o papel de guia por já ter feito o Caminho uma vez. Mas como eu estou bem, decido respeitar a escolha dele. Acho que ele tem que descobrir seus próprios limites.

              Começo a compreender vagamente o que me trouxe a esta viagem. A coisa é mais profunda e vasta do que eu ousava admitir a mim mesma. As questões se multiplicam com os passos. Estou realmente em uma encruzilhada de minha vida. Tenho alguns livros publicados, mas ainda não consegui realizar meu sonho de viver da escrita a tempo integral. As dificuldades deste caminho às vezes são muito dolorosas. Amo escrever, mas será que vale a pena continuar escrevendo?  Será que é por aí mesmo? Talvez eu devesse parar de vez e mudar de rumo. Quanto a Florencio, este ano completamos sete anos de relação. Ele tem falado em filhos. E agora? Somos realmente aquilo que há de melhor um para o outro? Será que temos estrutura para ter filhos? E o que será que nós queremos realmente?

                   Não dá outra. A caminhada está cada vez mais difícil e nós cada vez mais lentos. A noite começa a cair e, com ela, uma névoa intensa vai fechando gradativamente o campo de visão à nossa volta. O caminho abandona a trilha e as setas apontam para uma senda que atravessa a montanha escarpada. De repente tudo fica branco. Não dá para ver mais nada, nem mesmo o caminho à nossa frente. Aparentemente ele está coberto pela vegetação. Apenas escutamos as ovelhas pastando ao longe e seus sininhos ecoando na imensidão. Estamos perdidos.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Desejo a todos um Feliz Natal!

Antonella Sigaud

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O Caminho do Amor – Capítulo 2

O Caminho do Amor

Capítulo 2

                        Chegamos à Auvérnia. Trata-se de uma região essencialmente montanhosa. Viemos para cá, pois o Karmapa, o mais alto representante da escola Kagyü de budismo na qual nós dois estudamos, por acaso chegou ontem à França. Coincidiu com a data que escolhemos pata começar nossa peregrinação. É uma coincidência bem-vinda. Por isso, ficamos apenas uma noite em Paris.

                  Maria Alice e Hannes, dois outros alunos da mesma escola, vêm nos buscar na estação de trens. Por mais ou menos uma hora atravessamos uma paisagem verde e bucólica que nos leva à casa de Bénedicte, uma simpática francesinha, onde alugamos um quarto por três dias. É uma linda casa de campo. Somos muito bem recebidos. À noite Bénédicte nos oferece um delicioso jantar francês, com quiche, salada, queijos e frutas. Lhündrup, o monge responsável por todos aqueles que fazem retiros no monastério, e também nosso professor, vem jantar conosco. A comida é servida no jardim à luz de velas. Lhündrup olha para nós com um sorriso nos olhos:

                        _800 quilômetros, hem? Que maravilha! Recentemente eu fiz uma viagem com outro monge e foi uma experiência fantástica. Tudo fluía. Em nenhum momento desejamos estar um viajando sem o outro. Aliás, caminhar recitando o Mantra* é muito bom…

                        E muda de assunto. Conversamos sobre alguns temas sérios, mas logo Lhündrup desconversa novamente, como se de seriedade bastasse aquela do cotidiano. A partir daí, apenas contamos piadas e nos esbaldamos de rir pelo resto da noite. Nosso professor alterna entre velho sábio e menino travesso. Uma sabedoria alegre transborda de seu ser e contagia a todos.

                  Mais ou menos às 23 horas, vamos de carro para o mosteiro para aguardar a chegada do Karmapa. No pequeno lugarejo há pouca iluminação à noite. Assim esperamos todos perto do templo, do lado de fora, monges e leigos sussurrando entre si, segurando velas e incensos. O ar está fresco e há uma atmosfera de leveza e profunda reverência à nossa volta. Finalmente, o carro com o Karmapa passa por nós. Ele é jovem, tem um olhar sereno, acena e sorri para todos. Alguém aciona modestos fogos de artifício. Tudo é muito simples e bonito.

                    Este é apenas o primeiro de outros rituais por vir. Muitas são as sutilezas que abriga esta tradição milenar. A maioria delas ainda permanece um mistério para mim. Pessoalmente, eu vejo o budismo tibetano como uma bela manifestação da eterna busca do ser humano por transcendência. Eu não penso que seja melhor ou pior que as outras, mas é um caminho profundo para quem ousa empreendê-lo. Perto de todos esses monges e de pessoas como Alice e Bénédicte, que se afastaram da relação com o sexo oposto por um tempo e já fizeram longos retiros, eu sou apenas diletante. Entretanto, comecei a estudar o budismo por destino e por curiosidade. Hoje estou aqui por amor.

                      Agora Florencio e eu estamos no pequeno quarto revestido de madeira. Durante o dia já deu para sentir que nossos ritmos estão totalmente diferentes. Sempre é assim quando nos reencontramos. Sozinha, eu tendo a ficar mais lenta, a meditar e contemplar mais, a ler e escrever muito e ter vários momentos solitários. Em cinco meses, apenas o mês de trabalho na Itália foi de intenso e diário contato com outras pessoas. Florencio, por sua vez, entra em combustão quando está só, e leva a vida de artista por excelência. Viaja, vai a inúmeras festas, pinta quadros, dança, canta e recita poemas para Deus e o mundo. Quando nos encontramos é como se a suavidade e a euforia quisessem dançar. Leva um tempo para conseguir fazer isso sem um pisar nos pés do outro. É profundamente chato. Ao mesmo tempo, é como dois bichos que rosnam quando se vêem, mas na verdade querem se agarrar.

                    Nossas peles se enroscam. O sexo vem como forma de expressar tudo aquilo que está escrito em nós, cinco meses de impressões e sensações, de coisas ditas e não ditas, e uma vida inteira cheia de sonhos que desemboca aqui, neste momento. É muita informação. A gente se concentra na música e deixa que os corpos pouco a pouco resolvam o resto. Depois ficamos enlaçados, saciados, bobos, olhando um para o outro. Enquanto eu estudo a textura de sua pele sob meus dedos, Florencio me aperta em seus braços e diz:

                    _Nossa, você sentiu a energia daquele lugar? Isso tudo é muito forte. Nem acredito que estamos prestes a viver esta aventura juntos e que recebemos esta inacreditável bênção antes de começar.

                        Eu sorrio. Pensei nisto agora mesmo. É uma sensação louca estar aqui e saber que estou voltando ao Caminho de Santiago. No coração a certeza de que uma viagem muito importante começa agora. Há dez anos eu fiz a peregrinação para descobrir o que eu tinha que fazer com a minha vida, qual era o meu sonho. Eu queria entrar em contato com a minha intuição, com a face oculta e sagrada da existência. Aquela viagem mudou minha vida. Depois dela eu quase fiquei cega, tive uma experiência mística, me separei de uma relação de dez anos e decidi de uma vez por todas que seria escritora. Desta vez, a minha maior questão é como manifestar plenamente o potencial divino, a “luz”, inerente a todos, em tudo aquilo que faço e sou, e como compartilhá-la com os outros.

                         Por um instante, me ocorre que o homem ao meu lado é o mais próximo representante dos “outros” nesta viagem. No budismo fala-se do casamento não como uma instituição eterna e indissolúvel, mas como uma relação profunda na qual ambos se ajudam a progredir no caminho para a iluminação. Ou seja, conseguir compartilhar algo de verdadeiramente sagrado com Florencio será um começo simbólico e prático do aprendizado de servir ao mundo. Que louco! Isso quer dizer que hoje o meu marido representa a humanidade inteira! Isso não torna a coisa mais fácil. Pelo contrário, fico com náusea só de imaginar os desafios que me esperam nesta viagem. Afinal, servir a humanidade é barra pesada. Servir o marido ainda mais. Mas, com certeza, pensar assim faz tudo ficar bem mais interessante.

*O Mantra a qual se refere o professor é OMMANIPEMEHUNG. Inteiros livros foram escritos sobre o poder de cura e transformação relacionado à entoação deste mantra de seis sílabas.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Sigaud

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O Caminho do Amor – Capítulo 1

Capítulo 1

Paris, 15 de agosto de 2009

 

                        As rodas do avião tocam em solo parisiense. O fato de que não gosto especialmente de voar mesclado à emoção do reencontro faz brotar lágrimas em meus olhos.  Elas descem suavemente pelo meu rosto. Hoje é o dia 15 de agosto, dia de Nossa Senhora D’Ajuda. Ela me ajudou a chegar aqui. Hoje começa minha segunda peregrinação a Santiago de Compostela. A primeira foi sozinha, há dez anos atrás. Foi quando descobri que podia falar com a Deusa e Ela respondia. Desta vez será o Caminho do Amor.

                    Depois de cinco meses estou na mesma cidade de meu marido.  Mal posso acreditar que sobrevivemos todas as turbulências e vamos conseguir nos abraçar novamente. Foi tanta coisa, uma avalanche de coisas. Nem sei exatamente onde nem quando começou esta onda. Sei apenas que ela se precipitou sobre mim e eu decidi acompanhá-la. Primeiro as fortes dores na coluna durante meses. Fui ao médico, fizeram uma radiografia, não acharam nada. Aí falaram em ressonância magnética. E no meu coração de repente eu soube: eu estou morrendo. Eu preciso viajar. Eu preciso fazer o Caminho de Santiago de novo. Vai saber por quê. É a vida. Sempre nos matando para nos fazer renascer mais fortes.

                      E falando em morte, aí veio uma depois da outra. Meu pai teve um ataque cardíaco e um infarto durante uma filmagem na Jordânia. Foi transferido para um hospital  alemão onde estava lutando para sobreviver. Minha tia morreu de câncer um dia após eu visitá-la no hospital do Rio de Janeiro. Meu padrasto que me criou desde os sete anos de idade morreu de um derrame. Eu já estava na Alemanha. Tinha resolvido passar um tempo ao lado de meu pai, com quem nunca tive grande contato. Passei dois meses indo diariamente à Clínica de Reabilitação, presenciando um dos momentos mais difíceis da vida daquele homem. Fazendo o que eu podia para aliviar as dores da alma. As outras estavam fora de meu alcance.

                        Saio do avião, recolho a bagagem da esteira, pego o trem e o metrô que me levará a Saint-Germain-des-Près e à Ponte das Artes, onde há sete anos eu conheci o meu grande amor. O homem que, depois de muita luta interna de minha parte, depois de uma admirável e incansável luta por parte dele para me conquistar, escolhi para ser meu marido. Vou me aproximando do ponto de encontro. Os meus passos são falhos. Sinto os cheiros de Paris, revejo a rua onde vivi. As recordações passam em filme. Os momentos mais loucos e boêmios de minha vida. Chego à ponte. Caminho até chegar ao meio. A linda vista do rio Seine me perturba. Como se o tempo fosse feito de misteriosas caixinhas que se abrem e se fecham quando querem. E de repente eu o vejo. Ele está sentado. O cabelo selvagem como sempre, o olhar indomável. Eu me aproximo e ele não tira a câmera da mão nem por um segundo. É irritante, mas tudo bem. Não demoro muito para compreender que um amor como esse tem que ser registrado e bradado aos ventos. E não importa se é para sempre, o que importa é que existiu. É um clic para cada passo, até quando os nossos lábios se unem no beijo. Sem língua. Apenas um reconhecimento de cheiros. Eu sei. Vai demorar um pouco até o amor deixar de ser um sonho abstrato e nos incorporar novamente.

                        Eu olho para ele e nós nos sentamos ali mesmo, no chão, um na frente do outro. Não há muito para dizer. É um pouco patético ser romântico. É quando olhar para o outro assusta. E talvez justamente por isso seja lindo. Eu pergunto então:

                        _Está preparado?

                        É claro que me refiro aos 800 quilômetros de caminhada casada que esperam por nós após cinco meses de um casamento solteiro. Ele sorri como se fosse a coisa mais normal do mundo, como se eu não soubesse que fez uma operação no joelho há poucos meses e nunca fez nenhuma longa caminhada em toda sua vida. Ainda assim, sem hesitar, ele me responde:

                        _Por você eu iria até o fim do mundo.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

Antonella Sigaud

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O Caminho do Amor – Introdução

Nos próximos meses publicarei semanalmente em meu blog o relato de minha segunda peregrinação a Santiago de Compostela.

Trem Paris – Riom Chatel Guyon, 16 de agosto de 2009.

                         Após cinco meses sem nos vermos, ontem Florencio e eu nos reencontramos em Paris, na Pont des Arts, a ponte onde nos conhecemos há exatamente sete anos atrás. Trabalhamos duro, atravessamos mares desconhecidos e tempestades para chegar exatamente neste momento. E este é apenas o primeiro de uma grande saga por vir.

                        É sempre estranho reencontrar o homem amado depois de tanto tempo. Nossa relação foi assim desde o começo. Sabemos que precisamos nos separar às vezes para conseguir realizar certos sonhos importantes para nosso crescimento individual e conjunto. Também temos consciência que este é um grande exercício de desapego. É aprender a amar em liberdade, sem controlar, mas também sem ser indiferente nem irresponsável em relação ao outro. Assim, nesses cinco meses, quase nunca falamos por telefone. Decidimos apenas nos escrever por e-mail. Somente cartas e poemas de amor. Não sabemos de detalhes daquilo que acontece com o outro. O que importa é aquilo que queremos, para onde estamos indo, qual é o nosso sonho. O que conta é o grau de paixão que investimos em tudo aquilo que fazemos juntos ou separados.

                          No meio tempo, há no coração a certeza do amor, pois este nunca acaba. Mas o amor se transforma, nós nos transformamos, e é bom ter em mente esta realidade. Por isso, ontem foi apenas um início de reencontro. Nossos corpos se buscaram com avidez, mas todo encontro mais profundo e verdadeiro requer tempo e abertura. Mesmo assim, dormir nos braços dele em Paris foi dormir em casa. Estar juntos é sempre uma conquista. Pessoas próximas morreram, outras padeceram por motivos diversos, viagens aconteceram, emoções turbulentas nos sacudiram. No meio de tudo isso, achamos a força para criar os meios de realizar este sonho. Sabemos que estamos no lugar certo na hora certa. Vamos fazer o Caminho de Santiago juntos.

                                                                       Antonella Sigaud

                                                           www.antonellazara.com

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