Capítulo 49
A pequena caminhada de dois quilômetros que leva à caverna me deixa tensa. À medida que nos aproximamos, a trilha vai ficando mais íngreme. Qualquer criança consegue andar por aqui, mas mesmo assim minha ridícula vertigem começa a embrulhar meu estômago. Quando finalmente chegamos, sou invadida por uma emoção avassaladora. Caio em prantos e de joelhos diante do altar de San Genadio. Fico soluçando aos brados, um choro profundamente sincero e intenso, uma vastidão absurda transbordando do coração. Como em um filme acelerado, vejo o fim de minha primeira peregrinação, minha cegueira provocada pela úlcera na córnea, minha experiência mística, minhas visões e as vozes em minha cabeça, minha separação após dez anos de relacionamento, minhas paixões, minha vida boêmia em Paris, meu encontro com o amor, minhas viagens lançando meus livros, meu casamento com Florencio, meus aprendizados com diferentes mestres, e o caminho que me trouxe atravessando desertos, vales e montanhas até chegar aqui. É como se subitamente sentisse os dez anos que passaram e me trouxeram de volta para cá, ao lugar onde confrontei meus maiores medos e encontrei pela primeira vez a vivacidade do silêncio que cura tudo.
No entanto, o amor cumpre a sua função e não permite que a coisa vire um dramalhão mexicano. Alheio a minhas tempestades internas, Florencio está em êxtase com a beleza do lugar. Soltando gritos de euforia, ele se apodera de uma estola que parece uma pele de um jaguar, pousada sobre a pedra diante do altar, provavelmente uma oferenda para o santo. Após elevá-la teatralmente aos ares, rugindo como um bicho, ele a coloca em volta dos ombros, sentindo-se o próprio homem das cavernas. Logo, ele decide desafiar a sua vertigem, mais amena que a minha, e arrisca escalar até a outra caverna da qual Tomás nos falou, que fica mais acima e supostamente é um lugar perfeito para se conectar com a Mãe Terra e a energia feminina. Quando ele desaparece, eu apenas escuto os seus berros efusivos e suas gargalhadas nervosas:
_Antonella, não sei se este é o caminho, estou com medo! Estou fazendo xixi no abismo! Iuhuuuu!!!!
Respiro fundo. Não há dúvidas de que Florencio e eu somos mais do que bipolares, somos “multipolares”. Eu alterno entre uma tristeza suicida, que é uma espécie de raiva ao avesso, e uma euforia histérica e ele entre uma fúria assassina e um entusiasmo epileptiforme. É claro que não ficamos só nisso. Há inúmeros matizes emocionais entre esses extremos. No entanto, compreendo perfeitamente por que algumas pessoas acabam considerando-se doentes, drogando-se ou medicando-se ao perceberem que têm tais aberrantes flutuações emocionais. Se nós dois não tivéssemos um forte caminho espiritual, se não trabalhássemos com arte e literatura e não usássemos as emoções como alimento da nossa criatividade, talvez não suportássemos o tranco. Florencio volta sorrindo de orelha a orelha:
_Nossa! A caverna é demais! Parece mesmo um útero!
Ele me oferece ajuda para ir até lá, mas eu ainda não sinto que é o momento. Da primeira vez não tive coragem, talvez dessa vez eu consiga. Durante a tarde meditamos, rezamos juntos diante do altar e decidimos fazer um jejum. Armamos a barraca na frente da caverna. Uma simpática espanhola aparece, senta-se conosco, fala de suas viagens e seu caminho espiritual e depois vai embora, deixando uma sensação bonita. Logo, a noite cai com um negrume completo envolvendo a tudo. Fazemos uma pequena fogueira. Não tarda para que escutemos muitos passos aproximando-se da caverna. De repente, chegam quatro peregrinos: Alfonso, um espanhol, Ana Isabel, uma alemã espanhola, Arnaud, um belga, e Caroline, uma suíça alemã. Não estávamos esperando por companhia, mas de repente nós dois nos tornamos algo assim como “hospitaleros” do lugar. Damos as boas-vindas aos peregrinos, sugerimos que acomodem seus pertences dentro da caverna, já que não têm barraca. Sentamos com eles em círculo, nos apresentamos mutuamente, e conversamos sobre meditação e espiritualidade. Acabo lendo uma “Carta do Destino” para cada um deles. Novamente, as palavras fluem, independentes de mim, com suavidade e força. Todos sentimos e respeitamos a magia grandiosa do lugar onde estamos. As montanhas olham para nós, silenciosas e onipresentes na escuridão. Somos um círculo de peregrinos com almas de aventureiros e corações de crianças, em um lugar mágico e fora do tempo, em busca de nós mesmos, dispostos a realizar nossos sonhos e ir além daquilo que conhecemos.
Próximo capítulo na quarta-feira que vem.
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