24 – A Era da Ansiedade

24 –A Era da Ansiedade

 

 

Está na hora de levantar. Puxa, com o que é que eu estava sonhando mesmo? Ah! Era isso. Meu marido estava tendo um caso. Melhor começar logo o dia e não pensar nisso. Tenho que escovar os dentes, tomar banho rápido. Senão não vou ter tempo de fazer tudo o que eu tenho para fazer… E o que é que eu queria fazer mesmo? Tenho que acordar e vestir as crianças, dar comida para os animais, levar os filhos para a casa do amiguinho, acabar de preparar a ceia de Natal, comprar os últimos presentes, terminar aquele trabalho no computador. Eu sei, eu sei, estou de férias, mas a gente só vai passar alguns dias na praia na semana que vem, e o dinheiro não está sobrando. Arrrrrrrgghhhh! Minha cara no espelho! Quando é que fiquei velha? Não, na verdade, não estou velha ainda, tecnicamente falando até sou jovem, mas estou muito mais velha do que eu me lembrava. Eu não tinha essas rugas, esses cabelos brancos. É. Pode ser que ele esteja me traindo. É claro que está. Olha só para a cidade lá fora, olha a quantidade de bundas e peitos jovens e durinhos transitando livremente pelas ruas! Será que está na hora de fazer plástica? Putz, e essa dor no peito… Será que estou doente? Gente, estou atrasada. Nem sei como já fiz tanta coisa e já estou no supermercado. Quase me esquecia do champanhe. E dos cigarros! Nossa, mas esses preços estão impossíveis. Onde vamos parar? O dinheiro não dá para mais nada. Assim vou ter que esperar mais um ano para mudar de emprego e fazer aquilo que realmente quero. E aquela viagem que eu queria tanto fazer sozinha?  Deixa pra lá. Melhor não pensar nisso. Puxa vida, estou arrasada. O Zé está com câncer. Que loucura. Ele é tão jovem. Ele tem a minha idade! De repente, quando a gente menos espera, a vida acaba. Eu não quero morrer. Eu não quero morrer. Não importa que todo mundo morra. Eu não, eu não quero. Tenho que parar de pensar nisso. Mas estou pensando! E a Sílvia, hem, ela foi assaltada! Não agüento mais esta cidade. Que horas são? Meu Deus, eu me esqueci das crianças! Puxa, o trânsito está um inferno. Estou morta de cansaço. Ainda bem que o Natal já passou. E agora estamos na cama. Meu marido e eu. Será que ele está vendo as minhas rugas? Eu tenho quase certeza que ele está tendo um caso. Quando é que ele ficou chato? Ou sou eu que fiquei? Estou tão cansada… O tempo está voando mesmo. Acho melhor dormir. Amanhã tenho muita coisa para fazer.

A fulaninha acima se chama “Ansiedade”. E ela tem muitos primos e primas. Entre eles: síndrome do pânico, estresse pós-traumático, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo e transtorno de ansiedade generalizada. “No Brasil, estima-se que 23% da população tenha algum tipo de distúrbio ansioso” Nos EUA são 28 %. Lá eles até instituíram o Dia do Pânico. Isso mesmo: O DIA DO PÂNICO! Bem-vindos à era da ansiedade. Mas a ansiedade já era. Os ansiosos, aqueles que têm a sorte de perceber que estão doentes, correm para as terapias, se entopem de remédios, colapsam nas ruas e nos hospitais. Os outros, ou seja, a grande maioria de nós, meros mortais, afoga diariamente um pouco mais na areia movediça de suas neuras. E geralmente os amigos ou parentes apenas percebem isso quando vêem as últimas pequenas bolhas criadas pelos silenciosos e angustiados pedidos de socorro. Quando a pessoa já está totalmente enterrada na lama e é praticamente impossível sair. A lama da aflição. A lama da falta de tesão de estar vivo. A lama profunda de precisar sempre mais, de correr sempre mais contra as horas e os anos, e não acreditar em nada. A lama fétida de uma vida vivida no piloto automático. A grande merda humana da perda do tempo.

Por isso, neste Natal, desejo a todos nós mais tempo. Não depois, mas agora. Tempo de parar. Tempo de silêncio. Tempo de qualidade. Tempo de mandar se foder tudo aquilo que não importa de verdade, tudo que não é essencial. Porque se nós não pararmos o tempo, ele com certeza nos parará. E muitas vezes ele o faz com a elegância de um brutamontes. Ele nos joga ao chão. Ele nos pisa. Pode parecer rude, é verdade, mas é que ele nunca perde a esperança. De sermos mais interessantes. De percebermos que estamos vivos. De darmos valor ao tempo, porque não há tempo a perder. E com certeza não é correndo atrás dele que conseguiremos agarrá-lo. Nem é fugindo dele que conseguiremos nos salvar.

Parar. Sentar. Olhar o pôr-do-sol. Pegar na mão de um amigo. Fazer cafuné em outro. Desligar o celular. Não responder aos e-mails. Ou responder direito. Com ousadia. Com inspiração. Uma carta apimentada, uma confissão delirante, uma declaração de amor. Olhar dentro, lá no fundo dos olhos do amado, ou, se nem ele nem outro não quiser, olhar os próprios olhos no espelho, pelo menos meia hora por dia. Almoçar com nossos pais. Fazer as pazes com nossos irmãos. Dar longos abraços em nossos inimigos. Jogar conversa fora. Exercer a liberdade de mudar tudo de vez em quando. Sorrir bastante. Sorrir com os outros, sorrir sozinhos. Ficar roxo de raiva. Gritar. Berrar bem alto. E depois rir. Rir para as próprias rugas. Acariciar as celulites. Isso mesmo. Dizer a alguém interessante “lamba a minha celulite” e se ele não fizer, e não souber que é um privilégio, ele não vale a pena. Passar cremes na pele. Depilar o nariz. Fazer as unhas. Fazer as necessidades com gosto. Lentamente. Curtindo as coceguinhas e o cheirinho daquilo que está saindo de nós. Daquilo que não faz mais parte de nós. O cheiro do passado. Puxar a descarga com mais gosto ainda. Fazer o que ninguém faz. Strip-tease. Sexo tântrico. Amor. Mais amor. Eu já falei amor? Dançar de cuecas e meias. Se for mulher, com o fiozinho do OB pendurado e balançando. Ou deixar o sangue correr solto. Tomar banho dançando com a água. Dando graças à água. Graças ao chão que estamos pisando. Graças ao ar que estamos respirando. Graças ao tempo que ainda temos. Bebendo o tempo. Devagar. Como um vinho. Devagarinho. Até sermos vinho. Até nos sentirmos tão grandes, mas tão grandes, o mundo cabendo no coração. Até ficarmos imensos, muito maiores do que nós. Até entendermos que somos infinitos. Como o tempo. E o silêncio. Feliz Natal.

                                         

                                             Antonella Sigaud

                                      www.antonellazara.com

 

 

 

A Via Sacra

 

22 – A Via Sacra

 

Ela tinha 31 anos de idade e estava casada há oito anos. Eles se amavam, tinham uma vida bem-sucedida, uma linda casa em Manhattan, oito linhas telefônicas, amigos com os quais compartilhavam piqueniques e festas. O próximo óbvio passo era ter um filho. Mas havia algo “errado” com ela. Algo dentro dela dizendo-lhe constantemente: “Eu não quero mais estar casada.” Durante as tarefas do cotidiano, ela se esquecia disso, mas quando chegava a noite, nos poucos momentos de silêncio que, por milagre ou acaso, ainda acontecem a um habitante de Nova Iorque, ela ouvia este pensamento repetindo-se incessantemente. Até que um dia, fechada no banheiro enquanto seu marido esperava por ela na cama, não conseguindo mais negar a realidade a si mesma, ela caiu aos prantos. Foi naquele momento, depois de muito tempo sem pensar em Deus, que ela rezou: “Por favor, diga-me o que tenho que fazer.” A voz que ressonou então em sua cabeça era a sua própria voz, mas ao mesmo tempo uma voz que ela nunca escutara antes. Uma voz sábia, calma e compassiva. Uma parte dela que ela ainda não conhecia. A resposta que esta voz lhe deu a espantou justamente por sua extrema simplicidade: “Vá dormir”. Pois naquele momento não havia realmente nada de melhor a fazer. Seguiu o conselho. Mas sete meses depois ela se divorciou. Depois de ver a sua vida desmoronar e de um divórcio extremamente difícil, vendeu tudo o que tinha e foi viajar por um ano. Ela viajou “à procura de tudo”, ou mais especificamente, de prazer, devoção e equilíbrio. Uma busca que a fez passar 4 meses na Itália, quatro na Índia e quatro na Indonésia. Quem se interessar pelo que aconteceu nesta viagem, leia o livro “Reze, Coma e Ame”, um relato maravilhoso da escritora americana chamada “Elisabeth Gilbert”.

O verbo viajar vem da palavra latina “via” que significa caminho, tanto o caminho percorrido quanto o caminho a seguir. Não precisamos nos deslocar fisicamente para viajar. Ler um livro ou um poema, escutar uma canção, conversar com uma pessoa interessante ou olhar nos olhos de alguém já pode ser uma grande aventura. Mas fato é que viajar é essencial, tanto quanto comer, beber e respirar. Viajar é viver. Viajar é sair da rotina. Ou olhar para ela de outra maneira. Arriscar-se no desconhecido. Aqui e agora. Pular no abismo chamado “eu”. Já.

Os neurocientistas comprovaram que o cérebro ativo não envelhece. A isso eles chamam de neuroplasticidade. Com atividade não se referem a apenas aquilo que sempre fazemos, porque sabemos e precisamos, e talvez até gostemos de fazer. Eles dizem que é necessário continuar mudando e aprendendo. No entanto, até há poucas gerações e ainda hoje em dia muita gente não acredita nisso. Quando a pessoa envelhece, se aposenta ou adoece gravemente, tanto a sociedade quanto ela pensa que este é o momento de enfim parar. Muitos idosos vivem atualmente no abandono, na paralisia emocional e mental, porque para eles e todos que os conhecem a vida deles parou. Desmaiou a curiosidade. Cessou o aprendizado. Terminou a vertigem. Acabou a viagem. Bem-vindos ao fim. E ele tem milhões de nomes, desde Alzheimer até depressão.

Mas o que esqueceram é que o fim não passa de uma idéia. Uma palavra simpática, um enfeite bonitinho para a última página de um livro. Entretanto, a viagem maior, aquela da página eternamente em branco, a página-mãe de todas as palavras e coisas e seres, aquela puta fabulosa e sempre fértil, sempre dando para todos e sempre parindo, esta com certeza não acaba. Aprender é estar aberto a Ela, pulsando e atento, permitindo-se tanto o desejo quanto o descanso, fazendo acrobacias com a nossa surpreendente sabedoria, que cresce incansavelmente, e com a nossa inegável ignorância, que sempre está presente.

Viver. Soltar as amarras antes que a morte venha soltá-las. Pois ela vem. Mais cedo ou mais tarde. Ela vem. Quando acaba este parágrafo. Entre um momento e o outro. Ela vem. Por que lutar contra o inevitável? Por que não doer e morrer conscientemente agora mesmo e renascer ali, no próximo instante? A mudança é a única característica imutável da vida. É tanto o fardo quanto o trunfo da existência. Uma oportunidade invencível. Tudo está sempre mudando e sempre podemos mudar tudo. Se não pudermos mudar o que está fora, há mundos inimagináveis a descobrir lá dentro, no fundo mais profundo de nosso ser. Via-jar. Via mar. Via mor. Via amor. Via sacra. Eis a chave para todas as portas. Eis a passagem para todos os destinos.

 O resto é oceano.

 

 

                                 Antonella Sigaud

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Dias de Chuva

21 – Dias de Chuva

 

 

Neste exato momento, a tarde caindo, tudo é verde e purpúreo. A vida está molhada, embebida de lágrimas, e não sei o que cantam os pássaros que se despedem do dia, se estão felizes ou tristes, ou se tudo é quase ausência como dentro de mim. Uma presença fluida. Quisera eu entender mais, mas o corpo se estica e encolhe, o corpo dói, um pouco mais, um pouco menos, ele late feroz, e agradeço que estou viva, pois viver dói sempre. Eu ando, para lá ou para cá, eu me arrisco, mudo de roupa, de  cidade, de casamento, de idéia e religião, ou simplesmente fico em casa e nada entendo. Apenas sinto. As cores corrediças se dissolvendo neste início de noite. O cheiro de mofo de um passado agonizante que transborda dos esgotos do mundo. A terra verminosa e obscura que eu às vezes desejo em volta de mim, como um caixão novinho em folha feito apenas para o enlace da escuridão.

Quisera eu me abrir, mas muitas vezes tudo são nuvens, e elas me carregam em torrentes sem fim. E por que não? Com elas eu vou, aos oceanos, penso eu, aos rios e riachos e cachoeiras, às águas que deságuam em mim. Quero ir, como agora, com esta imobilidade gotejante. Quero chegar, mas não como quem vai. Quero fluir como quem ama, se jogando, destroçando, caindo, pingando, molhando, empapando tudo, quero ser um mingau denso de sonhos crescentes, ser a inundação. A redenção da chuva que nos desabriga, o afogamento da segurança. Quanto tempo custará até eu me entregar, plena e completamente, ao abraço vertiginoso desta chuva que cai? Tudo é resistência quando o corpo não se rende, quando o peito não se expande no mistério e a cabeça dá nomes às ruas como se elas nunca fossem ficar alagadas. Tudo some, tudo se apaga, tudo desmancha como algodão doce na língua que se aventura naquele beijo pelo qual esperou a vida inteira.  O mundo nasce e desaparece quando eu faço chover na minha alma. Com a calma dos amantes que sabem que o êxtase é um destino contínuo, que ele mora em um livro, em uma frase, uma canção, um olhar, um sorriso, naquele amor predestinado há tantas vidas, e ele está aqui. Na forma e no vazio. Crer é o alimento. Pois a fé é como a nascente na rocha sólida. Inerte e vibrante.

Tenho inveja da chuva. E de todas as coisas e pessoas contundentes. Porque eu estou mais brisa, sem deixar marcas, e este peso todo de braços e pernas e emoções sem fim apenas serve à cadeira neste fim de tarde pueril. Eu sirvo a cadeira, eu sou propriedade dos meus gatos, na verdade eu nem sou, porque ser é o primeiro sintoma de que estamos morrendo, mas isso já é muito complicado para mim. Prefiro pensar que penso, que estou aqui e que este sonho inebria, como a união noturna com um dia de chuva, como o esperma viscoso dos momentos jorrando sobre os anseios. E de repente elas são geradas. As palavras. Elas brotam do assento como a nascente e as lágrimas e a água batendo nas telhas, elas me levam, as palavras, não porque eu acredito nelas, mas porque elas simplesmente me carregam. E assim eu vou, no veleiro impetuoso daquilo que em mim respira, nas velas içadas da vida chovendo em mim. Quisera eu amar, mas eu nem sei o que é isso, parece grande demais, do tamanho do céu que eu não alcanço e que apenas conheço quando ele me toca com seus dedos de água e de fogo. E talvez não saber esteja mais para amar do que saber, pois tudo aquilo que se sabe está morto. Por isso hoje, em minha infinita lentidão, no embaço desta miopia gritante, num pasodoble de mudez vespertina, sei apenas que chove.

 

 

                                           Antonella Sigaud

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