Dias de Chuva

21 – Dias de Chuva

 

 

Neste exato momento, a tarde caindo, tudo é verde e purpúreo. A vida está molhada, embebida de lágrimas, e não sei o que cantam os pássaros que se despedem do dia, se estão felizes ou tristes, ou se tudo é quase ausência como dentro de mim. Uma presença fluida. Quisera eu entender mais, mas o corpo se estica e encolhe, o corpo dói, um pouco mais, um pouco menos, ele late feroz, e agradeço que estou viva, pois viver dói sempre. Eu ando, para lá ou para cá, eu me arrisco, mudo de roupa, de  cidade, de casamento, de idéia e religião, ou simplesmente fico em casa e nada entendo. Apenas sinto. As cores corrediças se dissolvendo neste início de noite. O cheiro de mofo de um passado agonizante que transborda dos esgotos do mundo. A terra verminosa e obscura que eu às vezes desejo em volta de mim, como um caixão novinho em folha feito apenas para o enlace da escuridão.

Quisera eu me abrir, mas muitas vezes tudo são nuvens, e elas me carregam em torrentes sem fim. E por que não? Com elas eu vou, aos oceanos, penso eu, aos rios e riachos e cachoeiras, às águas que deságuam em mim. Quero ir, como agora, com esta imobilidade gotejante. Quero chegar, mas não como quem vai. Quero fluir como quem ama, se jogando, destroçando, caindo, pingando, molhando, empapando tudo, quero ser um mingau denso de sonhos crescentes, ser a inundação. A redenção da chuva que nos desabriga, o afogamento da segurança. Quanto tempo custará até eu me entregar, plena e completamente, ao abraço vertiginoso desta chuva que cai? Tudo é resistência quando o corpo não se rende, quando o peito não se expande no mistério e a cabeça dá nomes às ruas como se elas nunca fossem ficar alagadas. Tudo some, tudo se apaga, tudo desmancha como algodão doce na língua que se aventura naquele beijo pelo qual esperou a vida inteira.  O mundo nasce e desaparece quando eu faço chover na minha alma. Com a calma dos amantes que sabem que o êxtase é um destino contínuo, que ele mora em um livro, em uma frase, uma canção, um olhar, um sorriso, naquele amor predestinado há tantas vidas, e ele está aqui. Na forma e no vazio. Crer é o alimento. Pois a fé é como a nascente na rocha sólida. Inerte e vibrante.

Tenho inveja da chuva. E de todas as coisas e pessoas contundentes. Porque eu estou mais brisa, sem deixar marcas, e este peso todo de braços e pernas e emoções sem fim apenas serve à cadeira neste fim de tarde pueril. Eu sirvo a cadeira, eu sou propriedade dos meus gatos, na verdade eu nem sou, porque ser é o primeiro sintoma de que estamos morrendo, mas isso já é muito complicado para mim. Prefiro pensar que penso, que estou aqui e que este sonho inebria, como a união noturna com um dia de chuva, como o esperma viscoso dos momentos jorrando sobre os anseios. E de repente elas são geradas. As palavras. Elas brotam do assento como a nascente e as lágrimas e a água batendo nas telhas, elas me levam, as palavras, não porque eu acredito nelas, mas porque elas simplesmente me carregam. E assim eu vou, no veleiro impetuoso daquilo que em mim respira, nas velas içadas da vida chovendo em mim. Quisera eu amar, mas eu nem sei o que é isso, parece grande demais, do tamanho do céu que eu não alcanço e que apenas conheço quando ele me toca com seus dedos de água e de fogo. E talvez não saber esteja mais para amar do que saber, pois tudo aquilo que se sabe está morto. Por isso hoje, em minha infinita lentidão, no embaço desta miopia gritante, num pasodoble de mudez vespertina, sei apenas que chove.

 

 

                                           Antonella Sigaud

                                      www.antonellazara.com

 

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