25 – A Coragem de Mudar
Um belo dia, mais por diversão do que por crença, ele atendeu aos pedidos insistentes de uma amiga, que jurava pela competência de uma cartomante, e deixou que esta lesse as cartas para ele. Depois de espantar os espíritos maléficos e falar com os anjos, a mulher de olhar de raposa abriu o baralho solenemente. Logo, uma sobrancelha da bruxa ergueu-se e uma pontinha de lábio repuxou-se em um meio sorriso. Além das implícitas visões de riqueza e felicidade, com as quais ela sabiamente reconfortava seus clientes, ela previu:
_Você encontrará uma pessoa de cabelos escuros como o céu sem lua e de olhos abissais, nos quais você perderá tudo. Até a si mesmo. Mas curiosamente, você gostará de se perder, pois somente assim poderá se conhecer de outra forma.
Ele sorriu, condescendente, e saiu dali com a sensação de ter dado dinheiro para uma vigarista. O seu futuro sucesso era óbvio, pelo simples fato de já ser bem-sucedido. Qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento humano poderia deduzir aquilo pela observação das suas roupas e maneiras. Quanto ao misterioso encontro previsto por ela, aquilo caberia em qualquer novela, mas não na vida dele, que além de viver um casamento feliz há quinze anos, tinha duas filhas maravilhosas.
Qual não foi sua surpresa quando, meses depois, durante uma sessão de cinema, à qual ele foi com a esposa, ao sair da sala para ir ao banheiro, notou que fora seguido por um homem. Imediatamente ele soube que era ela. Uma pessoa de cabelos escuros como o céu sem lua e de olhos abissais. E embora nunca tivesse tido uma experiência homossexual nem desejado tê-la, quando o rapaz avançou em sua direção, o prensou contra a parede e enfiou a língua ardente em sua boca, ele sentiu um prazer indescritível e jamais imaginado. E então, assim como a gente sabe que tem fome, ele simplesmente soube que não poderia voltar a ser o mesmo. De fato, algum tempo após a avalanche inicial, ele era outro homem. Ou melhor, ele era um homem divorciado e um gay recém-casado.
A historinha acima é baseada em um relato verídico contado por um amigo meu durante uma agradável conversa em uma tarde ensolarada passada na beira da praia. A pessoa em questão era um grande amigo dele – ou seja, trata-se de uma fonte confiável. O que significa que, ainda que um pouco floreada por mim (perdoem as manias de escritora) esta história realmente aconteceu! Juntos, meu interlocutor e eu rimos bastante. Ele, porque nunca se recuperou totalmente do sobressalto, mas mesmo assim deu força ao amigo e desejou sinceramente que este fosse feliz, independentemente de sua escolha sexual. Eu, porque até mesmo em uma lânguida tarde de verão no sul da Bahia, na frente de uma inebriante maré baixa, de um mar morno e sedutor, que mais parecia uma imensa piscina natural, banhando-me em um lascivo momento de placidez e alegria de minha própria existência, a vida e o amor nunca deixam de me lembrar que viver é extremamente perigoso e absolutamente surpreendente. Pois, graças às implacáveis leis da natureza, tudo está sempre mudando e pode mudar ainda mais de um momento ao outro. Até nós mesmos. Confesso que depois disso curti ainda mais a suculenta transa crepuscular com o meu querido e saboroso marido. Afinal, nunca se sabe do dia de amanhã.
A todos nós desejo um feliz Ano Realmente Novo. Isto é, sem medo de mudar quando for necessário ou inevitável. E se houver medo, que este não nos paralise. Pelo contrário, que ele seja o grande desafio e nos sirva de tempero.
Antonella Sigaud