29 – A Expansão da Consciência

29 – A Expansão da Consciência

 

_Imagine que está se banhando em um belíssimo lago em um dia de verão. Você enxerga as montanhas à sua volta, a floresta exuberante refletida na água. Imagine a sensação da água sobre a pele. A frescura cristalina, a gentileza dos movimentos ondulantes, a textura sedosa do universo líquido à sua volta.

Um silêncio se fez enquanto a paciente, cujos olhos estavam fechados desde o início da sessão, mergulhava ainda mais profundamente no transe hipnótico. Pela expressão de seu rosto, o hipnotizador sabia que ela estava ali onde tinha que estar, em um espaço mental seguro e relaxado, uma sensação de beleza que ela trazia de longe, da infância talvez, mas que a idade adulta e suas preocupações haviam afastado dela nos últimos anos. A voz dele se tornou mais grave e ele aproveitou para enfatizar bem as últimas palavras de cada frase, as sugestões ficando ainda mais vagas, dando à mente dela a oportunidade de conduzi-la à própria cura.

_Você está sentindo liberdade… A liberdade da água que flui além dos obstáculos… Você sente saciedade… Dentro de você está tudo de que precisa para ser feliz… Agora… Você saboreia cada momento

Pouco a pouco, um sorriso formou-se nos lábios dela e o tremor dos lábios foi o prenúncio das lágrimas que saltaram dos olhos cerrados, primeiro lentamente, logo em cascata livre. O terapeuta respirou fundo. A sua experiência lhe dizia que, como desde o início da terapia ela já começara a espontaneamente mudar os hábitos, depois de oito sessões ela estava finalmente curada de sua compulsão por comida.

Dois meses atrás ela viera procurá-lo e pedira ajuda. O clínico geral lhe dissera que ela estava muito acima do peso, que sua saúde estava em perigo, e receitara uma dieta e alguns remédios inibidores de apetite. Mas ao invés de melhorar, desde então ela piorara. Sua fome era um enorme bicho salivando e rugindo constantemente em seu ventre. Ela tinha que ter algo na boca a tempo integral, senão ela se sentia desnorteada. Ela viera vê-lo porque amigas suas haviam tido bons resultados com o tratamento de hipnose. Ela não fazia a mínima idéia do que se tratava, mas apenas queria sair deste ciclo infernal no qual entrara sem perceber.

Lentamente então ele começou a explicar o que era hipnoterapia, que durante a sessão o paciente fica em estado alterado de consciência, uma espécie de relaxamento, mais aberto às sugestões do terapeuta. No entanto, ao contrário do que diz a lenda, o paciente jamais perde a consciência durante a hipnose. Pouco a pouco, com muita conversa, ele consolidou a base de confiança entre eles. Depois, ele começou a falar com a mulher sobre seu problema, colocando as perguntas de forma a descortinar uma nova perspectiva da situação. Perguntou a ela, por exemplo, quais eram os benefícios de sua compulsão. Inicialmente a pergunta a surpreendeu, mas ela acabou confessando que um dia fora uma mulher extremamente atraente e popular junto ao sexo oposto, que sempre gostara muito de sexo. Quando conheceu seu atual marido, no entanto, se apaixonou de tal forma que não hesitou em aceitar a proposta de casamento. Somente depois de um tempo ela notou que o amor romântico não era necessariamente um antídoto contra seu voraz e poligâmico apetite sexual. Sem saber como manter-se fiel, resolveu entregar-se à gula. O aumento contínuo do peso, mensurável na balança no final de cada semana, logo repeliu os predadores do outro sexo. Em pouco tempo ninguém mais olhava para ela, nem mesmo seu marido, nem ela própria. Quanto mais o seu corpo pesava, mais triste ela se sentia. Mas pelo menos ela estava segura, protegida de si mesma. 

Os sintomas eram clássicos: a insatisfação, o medo, o vazio, a incapacidade de adequação, a fome mental que leva ao desequilíbrio físico, à compulsão e ao desespero. Ao término da sessão, depois que a paciente foi embora, mais leve por dentro e por fora, o hipnotizador olhou para o relógio e descobriu que tinha um tempo livre antes de continuar a trabalhar. Serviu-se então de um chá, que sempre mantinha aquecido na garrafa térmica, e sentou-se diante da grande janela de seu confortável consultório. Lembrou-se de sua própria trajetória, de como entrou em contato com a hipnose quando ainda era um jovem e entusiasmado estudante e se descobriu totalmente fascinado pela trajetória de Milton Erickson, um famoso psicólogo e hipnotizador. Um grande mestre. Um homem que achou um caminho criativo para lidar com suas próprias terríveis dores físicas, decorrentes de uma poliomelite contraída aos 17 anos. Certa vez o terapeuta lera que Erickson referia-se à doença e à dor como seus melhores professores. Aquilo o marcara para sempre.

Mas o terapeuta envelhecera. Já não tinha as ilusões da juventude. Sabia que a raça humana estava doente, corroída pela dor e pelo medo, e que pouco havia a fazer em relação a isso. Entretanto, ainda que não pudesse mudar o mundo, evitar as guerras nem as tragédias, pelo menos as pessoas saíam da sua terapia pensando grande, enxergando a vida com outros olhos, mais despertos para a beleza. Uma beleza sutil, permeada de doçura, de uma inteligência vivaz, uma consciência onisciente, perceptível dentro e fora de nós. Algo que o ser humano insiste em querer aniquilar, mas que sempre existiu e sempre existirá. Uma luz real e uma cura possível, acessível por pontes para o inconsciente. E essas pontes têm vários diferentes nomes: espiritualidade, yoga, meditação, terapia, hipnose… Mas todas almejam a mesma coisa: a expansão da consciência. O vento balançou gentilmente as folhas da árvore à frente da janela enquanto o último gole do chá e as batidas na porta anunciaram o próximo paciente.

 

                                          Antonella Sigaud

                                    www.antonellazara.com

 

28 – O Ser Sistêmico

28 – O Ser Sistêmico

 

Separada há alguns anos, ela nunca solucionara o seu problema com o ex-marido. A separação fora dolorosa. Às vezes a dor ressurgia de forma fortuita, a perseguia e angustiava como uma assombração. Depois de várias terapias e buscas, ela decidiu participar daquele curso. Naquela tarde ela seria a cliente. A terapeuta pediu que ela escolhesse alguém do grupo para representar o ex-marido. Relutante, ela escolheu um rapaz que ela considerava simpático. Devidamente orientada, ela o guiou intuitivamente pelos ombros até que ele se posicionasse em um ponto específico da sala, parando ela mesma não muito longe nem muito perto dele.

A habilidosa terapeuta alemã, também chamada “consteladora” neste tipo de terapia, começou então a perguntar como o suposto marido se sentia, quais as sensações físicas que ele percebia ao estar naquela situação. Para a surpresa da cliente, ele começou a descrever estados sensoriais e emocionais semelhantes aos de seu ex-marido. Até a postura física adotada parecia com a dele. Depois disso, a terapeuta pediu que ela escolhesse duas pessoas para representar os pais dele e duas para representar os próprios pais. Feito isso, o “pai” do ex-cônjuge encaminhou-se então para perto do filho, e logo era possível ver uma expressão de sofrimento em seu rosto. Pouco depois o pai começou a chorar baixinho. A “mãe” ficou mais afastada, sem conseguir se aproximar. Os “pais” da cliente posicionaram-se então por detrás da filha, de forma protetora, tocando levemente os seus ombros. Quando questionados sobre o que sentiam naquele momento, todos os participantes da “constelação” falaram de sentimentos que se encaixavam perfeitamente naquilo que a cliente sabia sobre o histórico familiar de seu ex-marido e também sobre sua própria vida. No entanto, ao ver a situação daquela forma, ao presenciar o ex-casal inserido nos sistemas familiares dos quais ele provinha, também ela começou a chorar, compreendendo finalmente que as dificuldades de sua relação tinham raízes emocionais muito mais complexas, vinham de um contexto bem mais amplo que a relação homem-mulher, e podiam realmente ser vistas de outros ângulos. Depois da sessão, ela disse que se sentiu libertada de um peso que vinha carregando há muitos anos.

No congresso no qual trabalhei, fui intérprete, entre outros, deste curioso curso chamado de “Constelações Sistêmicas”. Trata-se de um trabalho filosófico e terapêutico que foi desenvolvido pelo pedagogo, psicoterapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger. A noção sistêmica parte do princípio que todos os membros de uma família têm uma conexão inquebrantável, independente de separações físicas, como se eles fizessem parte de um mesmo “corpo” familiar. Como com o corpo, que se sente doente mesmo se apenas um de seus órgãos não estiver saudável, o mesmo acontece no organismo familiar, que “sente” e reflete os erros e acertos, os prazeres e dores de todos os seus membros. Não se sabe ainda a explicação para esta espécie de fenômenos que ocorrem invariavelmente nessas sessões de terapia, mas existem hipóteses. Um biólogo chamado Ruppert Sheldrake, por exemplo, elaborou a teoria dos Campos Morfogenéticos, que aborda a possibilidade da existência de um inconsciente coletivo. Isso poderia eventualmente explicar a situação descrita acima, o fato dos participantes da sessão sentirem e manifestarem, sem nenhum conhecimento prévio da situação, a informação emocional armazenada no inconsciente da cliente em tratamento.

Para mim, independente da explicação, aquilo apenas confirmou a conexão que existe entre os seres humanos, sendo que os familiares, ou “ancestrais”, são indissolúveis de nós, simplesmente pelo fato de serem geradores tanto de nossas informações genéticas quanto dos primeiros impulsos emocionais e mentais de nossa existência humana. Na era da Internet, estar “conectado” passou a ser um lugar-comum, mas na verdade trata-se de um conhecimento antigo, esquecido pela sociedade moderna, que está ressurgindo, mas ainda não foi totalmente compreendido nem absorvido na prática. Este esquecimento custou caro e ainda não é certo se conseguiremos pagar a conta ambiental de todos os danos que ele provocou e ainda provoca. Fato é que não somos apenas indivíduos, como o individualismo capitalista insiste em pregar, somos muito mais do que isso. Somos seres inseridos em um vasto sistema que repercute em nós tanto quanto nós repercutimos nele. Abrir-se a essa visão “sistêmica” é entender que somos únicos e extraordinários e, ao mesmo tempo, pequenos e insignificantes. Somos partes de um todo, constantemente sujeitos à ação de forças maiores e, concomitantemente, temos co-responsabilidade em relação ao que acontece conosco e com o todo do qual fazemos parte.

Perceber que vivemos em um organismo vibrante, que ele opera dentro e fora de nós, nos abre à necessidade constante de atenção, flexibilidade e mudança, aspectos indispensáveis à experiência humana. Mudar nos dá acesso ao inusitado ao qual, consciente ou inconscientemente, tanto aspiramos. O passo para o desconhecido cria a existência do desconhecido dentro e em volta de nós. E assim o nosso mundo vai se tornando mais amplo e, com certeza, bem mais interessante.

 

 

      Antonella Zara

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Tarô

Tarô,

“O Espelho da Alma”

 

Existem várias diferentes abordagens no trabalho com cartas de tarô. Embora as origens do mesmo ainda sejam envoltas em mistério, as formas de jogar são tão variadas quanto são diferentes os intérpretes. Recebi meu primeiro baralho de tarô há mais de quinze anos atrás e nos anos seguintes outros baralhos me foram presenteados por pessoas especiais em minha vida. Desde então comecei a viajar neste fascinante universo. Inicialmente a simbologia parecia-me hermética e indecifrável. Embora eu estudasse livros que explicavam o significado de cada carta, ainda assim a relação delas com a vida real permanecia um enigma para mim. Durante minhas inúmeras viagens, houve épocas que o meu primeiro baralho ficava apenas encostado na parede dos quartos de hotéis ou pensões, olhando para mim. Ainda assim, eu sempre o levava comigo. De vez em quando então eu arriscava um jogo, com um misto de curiosidade, apreensão e frustração, pois muitas vezes após jogar eu observava que estava ainda mais confusa do que antes. Com o tempo percebi finalmente como e porque a relação com as cartas ultrapassa a compreensão racional. Hoje penso que se trata acima de tudo de um contato orgânico, uma dança dinâmica, na qual as cartas são acordes de música buscando comunicar-se conosco a um nível muito sutil, apenas totalmente perceptível para dançarinos de longa data. O tarô é de fato uma arte fascinante na qual há sempre muito mais a aprender. Meu conselho para os iniciantes é cultivar, para além do entusiasmo inicial, a paciência e a perseverança necessárias para empreender esta belíssima aventura de autoconhecimento.

 

O Espelho da Alma

 

O meu trabalho com as cartas chama-se “O Espelho da Alma”, nome inspirado nas primeiras cartas com as quais joguei e ainda jogo, que indica também minha linha de interpretação, especialmente voltada para as emoções. Baseando-me na teoria de C.J.Jung, na qual sincronicidade seria “a coincidência de um estado psíquico com um acontecimento exterior correspondente que ocorre fora do campo de percepção do observador”, incorro em uma espécie de brainstorm (pessoal ou virtual), muitas vezes guiada por meus clientes, relacionando a simbologia das cartas, as idéias espontâneas referentes às mesmas, com as específicas áreas correspondentes (como por ex.: consciente, inconsciente, passado, futuro, identidade, etc.). Parto da premissa, inerente ao budismo e outras filosofias orientais e ocidentais, que enfatiza o foco no momento presente. Neste está contido o passado como “semente” energética, podendo ser reconhecido no “florescimento” ou desenrolar dos acontecimentos, e o futuro, que pode ser igualmente “lido” como potencial de energia a ser ou não alimentado, dependendo da escolha da pessoa. As cartas servem então como um espelho das emoções, um mapa emocional, no qual a pessoa se descobre trilhando uma viagem de autoconhecimento e aprendendo, no curso da mesma, a fazer futuras escolhas cada vez mais conscientes e responsáveis. Como em qualquer trabalho sério que envolve o despertar da consciência, também aqui o objetivo é o pleno desabrochar do próprio potencial, condição prévia indispensável para aqueles que desejam melhor servir a humanidade e o planeta vivendo uma vida mais harmoniosa e feliz.

 

         *Para sessões via e-mail ou tele-conferência, ou palestras e workshops com atendimento em sua cidade, por favor, envie uma solicitação para um dos seguintes e-mails: contato@antonellazara.com, antonella_zara@yahoo.com.br

 

 

 

 

27 – A Tradução de Si Mesmo

27 – A Tradução de Si Mesmo

 

 

Nos meses de janeiro e fevereiro deste ano trabalhei como intérprete em um Congresso Internacional de Programação Neurolingüística (PNL). Ao contrário do que acontece com intérpretes especializados em certas áreas, que conhecem profundamente os temas que traduzirão ou interpretarão, ao ser contratada eu não fazia a mínima idéia do que me esperava.  Mas foi um mês surpreendente. No congresso havia grandes mestres que usavam a PNL como ferramenta em suas diversas áreas de trabalho, que iam de marketing a diferentes tipos de terapia. Entre eles estavam médicos, neurocientistas, homeopatas, engenheiros, publicitários, psicólogos, hipnotizadores, artistas, xamãs e terapeutas.

         Em minha opinião, a flexibilidade mental, a capacidade de abrir-se, aprender, adaptar o desconhecido a nós e adaptar-nos a ele, este potencial de mudar é a maior qualidade dos verdadeiros cientistas, dos grandes homens e mulheres de nossa história. E é exatamente com isto que a PNL trabalha. Com a faculdade de mudar do ser humano a partir do autoconhecimento e da transformação da própria percepção da realidade. A intenção é que o seu potencial seja plenamente aproveitado e redirecionado ao serviço de seu entorno, independente de seu background ou da situação na qual ele se encontra.

Fritjof Capra, um escritor austríaco, doutor em física, escreveu em um de seus livros chamado “O Tao da Física” uma frase que me intrigou e tem me acompanhado durante anos: “O mapa não é o território”. Para mim isto significa que, embora os mapas, ou as definições da realidade, que nos são ensinadas por família e cultura, nos sirvam como referência em várias ocasiões, eles não constituem valores absolutos. Pelo contrário, eles podem e devem ser revistos e até mesmo recriados periodicamente, dependendo da situação e do momento pelo qual passamos.

Em minhas diversas experiências como intérprete, seja com lamas budistas ou neste trabalho no congresso, tive a oportunidade de fazer a plena experiência desta necessidade de ir além daquilo que é dito. Um crítico francês do século VXVII escreveu que, na tradução, fidelidade e transparência são duas qualidades belas e infiéis, como as mulheres que, segundo ele, são ou fiéis ou bonitas, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Não penso necessariamente como ele no que diz respeito às mulheres, mas em relação à tradução tenho que concordar plenamente.

No âmbito da tradução fidelidade significa traduzir de forma acurada e literal, sem nada modificar em relação ao texto original ou àquilo que foi dito. A transparência significa reproduzir o sentido de forma que o conteúdo se torne compreensível, o que vai geralmente além da linguagem e envolve aspectos emocionais e culturais de quem está recebendo a transmissão. A tradução feita de acordo com o primeiro critério chama-se “fiel”, aquela feita com o segundo chama-se “idiomática”. Apesar do que dizia o francês, ambos os critérios podem ser respeitados simultaneamente, mas isto realmente é raro.

Dito de forma mais simples, tanto na vida quanto na tradução, muitas vezes temos que “reformular” aquilo que nos foi dito e ensinado para que a essência do ensinamento não fique aprisionada em uma inútil postura de rigidez. É preciso reinventar a vida e os conceitos a cada instante para estar à altura desta magnífica e avassaladora experiência que é estar vivo.

O poema “Perdido na Tradução”, escrito pelo poeta James Merril, fala da fabulosa imaginação transformadora do ser humano, que consegue sempre descobrir um significado em tudo aquilo que vê no universo ao seu redor. Quando eu era pequena, eu sonhava em ser escritora e, como muitas crianças, em mudar o mundo. Ao crescer, muitos adultos tentaram me convencer que era impossível fazer isso, que eu tinha que aceitar o mundo como ele é. Inicialmente, como a maioria dos adolescentes, eu me senti castrada por essa visão e me rebelei contra ela. Depois, eu me senti impotente e deprimida.

Com o tempo, no entanto, descobri que aceitar o mundo como ele é não exclui a possibilidade de mudá-lo. Aliás, entendi que apenas aceitando e reconhecendo o estado atual das coisas é que podemos, de fato, mudar o mundo. Percebi que o mais importante é que esta mudança comece por nós mesmos. Ela inicia quando nos abrimos e mudamos (ou expandimos) a cada novo dia a nossa própria visão do mundo.  Ao compreender isso, eu fiz uma nova “tradução” do conhecimento dos mentores da minha infância de forma que este não limitasse, mas multiplicasse as possibilidades de eu realizar meus sonhos.

Ao trabalhar como intérprete e começar a aprender PNL, tive a oportunidade de conhecer várias pessoas talentosas que acreditam que é possível mudar o mundo. Pessoas que trabalham para isso e até desenvolveram metodologias com este intento. Isto foi profundamente satisfatório para mim. E também me mostrou que a vida realmente depende da forma como decidimos “interpretá-la”. Esta decisão definirá se ficaremos perdidos ou não ao “traduzir” para o cotidiano, em pensamentos e ações, o significado e o sentido de nossas existências, isto é, aquilo que realmente importa para nós como seres humanos em nossa breve e surpreendente passagem por este planeta.

 

 

      Antonella Zara

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26- O Alimento da Alma

26 – O Alimento da Alma

 

No final de janeiro fiz pela segunda vez um retiro de meditação Vipassana. A primeira vez foi em 2004, na Califórnia, experiência que já descrevi em crônica anterior. Durantes dez dias é pedido a todos os participantes deste retiro seguir certas regras básicas e manter o voto de total silêncio, ou seja, abdicar de todo tipo de comunicação verbal ou não-verbal. Segundo os facilitadores, esta disciplina monástica favorece a compreensão e aplicação desta específica técnica de meditação que ensina ao meditador gradualmente dirigir o foco total de sua atenção para as próprias sensações físicas. O objetivo primário da técnica é conhecer a si mesmo e mudar padrões de comportamento, não reagindo mais de forma inconsciente, isto é, com aversão em relação às sensações percebidas como negativas ou com apego em relação às positivas. O objetivo último é o estado búdico, sendo que Buddha em sânscrito significa “despertar”, abrir-se para a felicidade inerente à essência do ser e libertar-se do sofrimento e das causas do mesmo.

Desta vez meu retiro foi em Miguel Pereira , no Estado do Rio de Janeiro, uma bela região montanhosa. Novamente meditei todos os dias por dez horas diárias, com pausas apenas para comer e descansar brevemente entre as sessões.  Na primeira experiência, muito dura e ao mesmo tempo bastante positiva para mim, entrei em contato com dores que trazia comigo desde a infância. O segundo e mais recente retiro também foi dificílimo para mim, talvez até mais que o primeiro, sendo a única vantagem em relação ao outro o fato que eu já sabia da possível dificuldade que me esperava. As fortíssimas dores físicas que experimentei resultaram no aspecto mais árduo. Em caso de problemas físicos é possível sentar-se em uma cadeira ou apoiado contra uma parede. Em meu caso específico, talvez agravado por algumas lesões esportivas, das quais eu antes não tinha plena consciência, nenhuma postura ajudava a minimizar as dores, quando mantida em total imobilidade por uma hora. Acabei optando então por uma aproximação da postura clássica de meditação, com as pernas cruzadas em semi-lótus e a coluna ereta. E resolvi observar as dores, às vezes contundentes e beirando o insuportável. Tentei fazê-lo sem reagir a elas nem externa nem internamente.  

Não reagir externamente foi um pouco mais fácil para mim devido a treinamentos anteriores de meditação. Mas as reações internas ainda aconteciam e eram numerosas. Portanto, esta foi uma viagem de autoconhecimento rumo ao inferno dentro de mim. Conheci como a dor dói em meu corpo e em minha mente, como uma parte de mim reage com aversão imediata a estados dolorosos, como ela tenta sempre escapar a qualquer custo, como fica com tremenda raiva quando não consegue fugir, e como por detrás de tudo isso há um imenso medo da dor. E o medo, um medo profundo e muito antigo, gera uma tensão absurda que cria muitas dores sobressalentes, mentais e físicas, aumentando assim incrivelmente o estado doloroso, tornando-o muito pior do que ele talvez seja sem todas essas emoções negativas.

Quando saí do retiro parecia que estava voltando da guerra. Sentia-me muito fraca e vazia. Sabia que precisava de tempo para entender ou absorver o que tinha acontecido comigo. Descansei por poucos dias e tive que imediatamente partir para um trabalho interessantíssimo e extremamente intenso de intérprete em um congresso internacional de Programação Neurolingüística. Depois de uma vivência de silêncio profundo, tive que falar sem parar durante um mês inteiro. Na semana que vem, contarei mais sobre esta magnífica experiência.

No entanto, apenas agora, tendo retornado a casa, escrevendo para amigos e repousando junto à família, consegui sentir-me capaz de escrever uma crônica sobre aquilo que vivenciei no retiro. Sei que a idéia de incorrer em dor por escolha própria pode parecer grotesca e até masoquista. Para mim foi uma oportunidade única de conhecer ainda mais a mim mesma. Eu não sabia antes o que me esperava, mas logo compreendi que desta vez eu estava sendo convidada a estudar de novo e mais profundamente a reverberação de estados dolorosos em mim, sendo que estes fazem parte da vida e sempre voltam a se manifestar, quer queiramos ou não. Ao mesmo tempo em que a experiência da dor e do medo em mim me “derrubou”, despindo-me de quaisquer pretensões que eu talvez ainda tivesse, ela me presenteou com uma nova dimensão de doçura e humildade, uma espécie de compaixão empírica que apenas foi possível quando expandi a minha visão da humanidade, fazendo a experiência da total fragilidade inerente à condição humana dentro de mim.

E ainda que tenha sido uma verdadeira batalha, hoje posso confirmar que esta luta certamente me fez mais forte. Por pior que seja a situação, por maior que seja a turbulência e a dor, agora sei realmente que em mim há algo, ainda que eu não o veja sempre, uma “chave” que pode abrir muitas portas. E este fato foi confirmado em outras provações, que seguiram pouco tempo depois. Trata-se de um conhecimento muito simples, acessível a todos, mas que tem que ser vivenciado para tornar-se uma certeza: é sempre possível achar um recurso dentro de nós. Ainda que se trate de um problema aparentemente insolúvel, mesmo que seja uma tragédia irreparável, existe sempre a possibilidade muito delicada, o mecanismo profundamente sutil de poder ver as coisas de outra maneira. Ao mudar o foco e, assim, reinventar completamente a qualidade nutricional daquilo que vivenciamos, tornamo-nos capazes de transformar o pior dos acontecimentos, o mais temível dos venenos, em alimento vitalício para a alma.

 

                                          Antonella Zara

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