26- O Alimento da Alma

26 – O Alimento da Alma

 

No final de janeiro fiz pela segunda vez um retiro de meditação Vipassana. A primeira vez foi em 2004, na Califórnia, experiência que já descrevi em crônica anterior. Durantes dez dias é pedido a todos os participantes deste retiro seguir certas regras básicas e manter o voto de total silêncio, ou seja, abdicar de todo tipo de comunicação verbal ou não-verbal. Segundo os facilitadores, esta disciplina monástica favorece a compreensão e aplicação desta específica técnica de meditação que ensina ao meditador gradualmente dirigir o foco total de sua atenção para as próprias sensações físicas. O objetivo primário da técnica é conhecer a si mesmo e mudar padrões de comportamento, não reagindo mais de forma inconsciente, isto é, com aversão em relação às sensações percebidas como negativas ou com apego em relação às positivas. O objetivo último é o estado búdico, sendo que Buddha em sânscrito significa “despertar”, abrir-se para a felicidade inerente à essência do ser e libertar-se do sofrimento e das causas do mesmo.

Desta vez meu retiro foi em Miguel Pereira , no Estado do Rio de Janeiro, uma bela região montanhosa. Novamente meditei todos os dias por dez horas diárias, com pausas apenas para comer e descansar brevemente entre as sessões.  Na primeira experiência, muito dura e ao mesmo tempo bastante positiva para mim, entrei em contato com dores que trazia comigo desde a infância. O segundo e mais recente retiro também foi dificílimo para mim, talvez até mais que o primeiro, sendo a única vantagem em relação ao outro o fato que eu já sabia da possível dificuldade que me esperava. As fortíssimas dores físicas que experimentei resultaram no aspecto mais árduo. Em caso de problemas físicos é possível sentar-se em uma cadeira ou apoiado contra uma parede. Em meu caso específico, talvez agravado por algumas lesões esportivas, das quais eu antes não tinha plena consciência, nenhuma postura ajudava a minimizar as dores, quando mantida em total imobilidade por uma hora. Acabei optando então por uma aproximação da postura clássica de meditação, com as pernas cruzadas em semi-lótus e a coluna ereta. E resolvi observar as dores, às vezes contundentes e beirando o insuportável. Tentei fazê-lo sem reagir a elas nem externa nem internamente.  

Não reagir externamente foi um pouco mais fácil para mim devido a treinamentos anteriores de meditação. Mas as reações internas ainda aconteciam e eram numerosas. Portanto, esta foi uma viagem de autoconhecimento rumo ao inferno dentro de mim. Conheci como a dor dói em meu corpo e em minha mente, como uma parte de mim reage com aversão imediata a estados dolorosos, como ela tenta sempre escapar a qualquer custo, como fica com tremenda raiva quando não consegue fugir, e como por detrás de tudo isso há um imenso medo da dor. E o medo, um medo profundo e muito antigo, gera uma tensão absurda que cria muitas dores sobressalentes, mentais e físicas, aumentando assim incrivelmente o estado doloroso, tornando-o muito pior do que ele talvez seja sem todas essas emoções negativas.

Quando saí do retiro parecia que estava voltando da guerra. Sentia-me muito fraca e vazia. Sabia que precisava de tempo para entender ou absorver o que tinha acontecido comigo. Descansei por poucos dias e tive que imediatamente partir para um trabalho interessantíssimo e extremamente intenso de intérprete em um congresso internacional de Programação Neurolingüística. Depois de uma vivência de silêncio profundo, tive que falar sem parar durante um mês inteiro. Na semana que vem, contarei mais sobre esta magnífica experiência.

No entanto, apenas agora, tendo retornado a casa, escrevendo para amigos e repousando junto à família, consegui sentir-me capaz de escrever uma crônica sobre aquilo que vivenciei no retiro. Sei que a idéia de incorrer em dor por escolha própria pode parecer grotesca e até masoquista. Para mim foi uma oportunidade única de conhecer ainda mais a mim mesma. Eu não sabia antes o que me esperava, mas logo compreendi que desta vez eu estava sendo convidada a estudar de novo e mais profundamente a reverberação de estados dolorosos em mim, sendo que estes fazem parte da vida e sempre voltam a se manifestar, quer queiramos ou não. Ao mesmo tempo em que a experiência da dor e do medo em mim me “derrubou”, despindo-me de quaisquer pretensões que eu talvez ainda tivesse, ela me presenteou com uma nova dimensão de doçura e humildade, uma espécie de compaixão empírica que apenas foi possível quando expandi a minha visão da humanidade, fazendo a experiência da total fragilidade inerente à condição humana dentro de mim.

E ainda que tenha sido uma verdadeira batalha, hoje posso confirmar que esta luta certamente me fez mais forte. Por pior que seja a situação, por maior que seja a turbulência e a dor, agora sei realmente que em mim há algo, ainda que eu não o veja sempre, uma “chave” que pode abrir muitas portas. E este fato foi confirmado em outras provações, que seguiram pouco tempo depois. Trata-se de um conhecimento muito simples, acessível a todos, mas que tem que ser vivenciado para tornar-se uma certeza: é sempre possível achar um recurso dentro de nós. Ainda que se trate de um problema aparentemente insolúvel, mesmo que seja uma tragédia irreparável, existe sempre a possibilidade muito delicada, o mecanismo profundamente sutil de poder ver as coisas de outra maneira. Ao mudar o foco e, assim, reinventar completamente a qualidade nutricional daquilo que vivenciamos, tornamo-nos capazes de transformar o pior dos acontecimentos, o mais temível dos venenos, em alimento vitalício para a alma.

 

                                          Antonella Zara

                                     www.antonellazara.com

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