27 – A Tradução de Si Mesmo
Nos meses de janeiro e fevereiro deste ano trabalhei como intérprete em um Congresso Internacional de Programação Neurolingüística (PNL). Ao contrário do que acontece com intérpretes especializados em certas áreas, que conhecem profundamente os temas que traduzirão ou interpretarão, ao ser contratada eu não fazia a mínima idéia do que me esperava. Mas foi um mês surpreendente. No congresso havia grandes mestres que usavam a PNL como ferramenta em suas diversas áreas de trabalho, que iam de marketing a diferentes tipos de terapia. Entre eles estavam médicos, neurocientistas, homeopatas, engenheiros, publicitários, psicólogos, hipnotizadores, artistas, xamãs e terapeutas.
Em minha opinião, a flexibilidade mental, a capacidade de abrir-se, aprender, adaptar o desconhecido a nós e adaptar-nos a ele, este potencial de mudar é a maior qualidade dos verdadeiros cientistas, dos grandes homens e mulheres de nossa história. E é exatamente com isto que a PNL trabalha. Com a faculdade de mudar do ser humano a partir do autoconhecimento e da transformação da própria percepção da realidade. A intenção é que o seu potencial seja plenamente aproveitado e redirecionado ao serviço de seu entorno, independente de seu background ou da situação na qual ele se encontra.
Fritjof Capra, um escritor austríaco, doutor em física, escreveu em um de seus livros chamado “O Tao da Física” uma frase que me intrigou e tem me acompanhado durante anos: “O mapa não é o território”. Para mim isto significa que, embora os mapas, ou as definições da realidade, que nos são ensinadas por família e cultura, nos sirvam como referência em várias ocasiões, eles não constituem valores absolutos. Pelo contrário, eles podem e devem ser revistos e até mesmo recriados periodicamente, dependendo da situação e do momento pelo qual passamos.
Em minhas diversas experiências como intérprete, seja com lamas budistas ou neste trabalho no congresso, tive a oportunidade de fazer a plena experiência desta necessidade de ir além daquilo que é dito. Um crítico francês do século VXVII escreveu que, na tradução, fidelidade e transparência são duas qualidades belas e infiéis, como as mulheres que, segundo ele, são ou fiéis ou bonitas, mas não as duas coisas ao mesmo tempo. Não penso necessariamente como ele no que diz respeito às mulheres, mas em relação à tradução tenho que concordar plenamente.
No âmbito da tradução fidelidade significa traduzir de forma acurada e literal, sem nada modificar em relação ao texto original ou àquilo que foi dito. A transparência significa reproduzir o sentido de forma que o conteúdo se torne compreensível, o que vai geralmente além da linguagem e envolve aspectos emocionais e culturais de quem está recebendo a transmissão. A tradução feita de acordo com o primeiro critério chama-se “fiel”, aquela feita com o segundo chama-se “idiomática”. Apesar do que dizia o francês, ambos os critérios podem ser respeitados simultaneamente, mas isto realmente é raro.
Dito de forma mais simples, tanto na vida quanto na tradução, muitas vezes temos que “reformular” aquilo que nos foi dito e ensinado para que a essência do ensinamento não fique aprisionada em uma inútil postura de rigidez. É preciso reinventar a vida e os conceitos a cada instante para estar à altura desta magnífica e avassaladora experiência que é estar vivo.
O poema “Perdido na Tradução”, escrito pelo poeta James Merril, fala da fabulosa imaginação transformadora do ser humano, que consegue sempre descobrir um significado em tudo aquilo que vê no universo ao seu redor. Quando eu era pequena, eu sonhava em ser escritora e, como muitas crianças, em mudar o mundo. Ao crescer, muitos adultos tentaram me convencer que era impossível fazer isso, que eu tinha que aceitar o mundo como ele é. Inicialmente, como a maioria dos adolescentes, eu me senti castrada por essa visão e me rebelei contra ela. Depois, eu me senti impotente e deprimida.
Com o tempo, no entanto, descobri que aceitar o mundo como ele é não exclui a possibilidade de mudá-lo. Aliás, entendi que apenas aceitando e reconhecendo o estado atual das coisas é que podemos, de fato, mudar o mundo. Percebi que o mais importante é que esta mudança comece por nós mesmos. Ela inicia quando nos abrimos e mudamos (ou expandimos) a cada novo dia a nossa própria visão do mundo. Ao compreender isso, eu fiz uma nova “tradução” do conhecimento dos mentores da minha infância de forma que este não limitasse, mas multiplicasse as possibilidades de eu realizar meus sonhos.
Ao trabalhar como intérprete e começar a aprender PNL, tive a oportunidade de conhecer várias pessoas talentosas que acreditam que é possível mudar o mundo. Pessoas que trabalham para isso e até desenvolveram metodologias com este intento. Isto foi profundamente satisfatório para mim. E também me mostrou que a vida realmente depende da forma como decidimos “interpretá-la”. Esta decisão definirá se ficaremos perdidos ou não ao “traduzir” para o cotidiano, em pensamentos e ações, o significado e o sentido de nossas existências, isto é, aquilo que realmente importa para nós como seres humanos em nossa breve e surpreendente passagem por este planeta.
Antonella Zara