28 – O Ser Sistêmico

28 – O Ser Sistêmico

 

Separada há alguns anos, ela nunca solucionara o seu problema com o ex-marido. A separação fora dolorosa. Às vezes a dor ressurgia de forma fortuita, a perseguia e angustiava como uma assombração. Depois de várias terapias e buscas, ela decidiu participar daquele curso. Naquela tarde ela seria a cliente. A terapeuta pediu que ela escolhesse alguém do grupo para representar o ex-marido. Relutante, ela escolheu um rapaz que ela considerava simpático. Devidamente orientada, ela o guiou intuitivamente pelos ombros até que ele se posicionasse em um ponto específico da sala, parando ela mesma não muito longe nem muito perto dele.

A habilidosa terapeuta alemã, também chamada “consteladora” neste tipo de terapia, começou então a perguntar como o suposto marido se sentia, quais as sensações físicas que ele percebia ao estar naquela situação. Para a surpresa da cliente, ele começou a descrever estados sensoriais e emocionais semelhantes aos de seu ex-marido. Até a postura física adotada parecia com a dele. Depois disso, a terapeuta pediu que ela escolhesse duas pessoas para representar os pais dele e duas para representar os próprios pais. Feito isso, o “pai” do ex-cônjuge encaminhou-se então para perto do filho, e logo era possível ver uma expressão de sofrimento em seu rosto. Pouco depois o pai começou a chorar baixinho. A “mãe” ficou mais afastada, sem conseguir se aproximar. Os “pais” da cliente posicionaram-se então por detrás da filha, de forma protetora, tocando levemente os seus ombros. Quando questionados sobre o que sentiam naquele momento, todos os participantes da “constelação” falaram de sentimentos que se encaixavam perfeitamente naquilo que a cliente sabia sobre o histórico familiar de seu ex-marido e também sobre sua própria vida. No entanto, ao ver a situação daquela forma, ao presenciar o ex-casal inserido nos sistemas familiares dos quais ele provinha, também ela começou a chorar, compreendendo finalmente que as dificuldades de sua relação tinham raízes emocionais muito mais complexas, vinham de um contexto bem mais amplo que a relação homem-mulher, e podiam realmente ser vistas de outros ângulos. Depois da sessão, ela disse que se sentiu libertada de um peso que vinha carregando há muitos anos.

No congresso no qual trabalhei, fui intérprete, entre outros, deste curioso curso chamado de “Constelações Sistêmicas”. Trata-se de um trabalho filosófico e terapêutico que foi desenvolvido pelo pedagogo, psicoterapeuta e filósofo alemão Bert Hellinger. A noção sistêmica parte do princípio que todos os membros de uma família têm uma conexão inquebrantável, independente de separações físicas, como se eles fizessem parte de um mesmo “corpo” familiar. Como com o corpo, que se sente doente mesmo se apenas um de seus órgãos não estiver saudável, o mesmo acontece no organismo familiar, que “sente” e reflete os erros e acertos, os prazeres e dores de todos os seus membros. Não se sabe ainda a explicação para esta espécie de fenômenos que ocorrem invariavelmente nessas sessões de terapia, mas existem hipóteses. Um biólogo chamado Ruppert Sheldrake, por exemplo, elaborou a teoria dos Campos Morfogenéticos, que aborda a possibilidade da existência de um inconsciente coletivo. Isso poderia eventualmente explicar a situação descrita acima, o fato dos participantes da sessão sentirem e manifestarem, sem nenhum conhecimento prévio da situação, a informação emocional armazenada no inconsciente da cliente em tratamento.

Para mim, independente da explicação, aquilo apenas confirmou a conexão que existe entre os seres humanos, sendo que os familiares, ou “ancestrais”, são indissolúveis de nós, simplesmente pelo fato de serem geradores tanto de nossas informações genéticas quanto dos primeiros impulsos emocionais e mentais de nossa existência humana. Na era da Internet, estar “conectado” passou a ser um lugar-comum, mas na verdade trata-se de um conhecimento antigo, esquecido pela sociedade moderna, que está ressurgindo, mas ainda não foi totalmente compreendido nem absorvido na prática. Este esquecimento custou caro e ainda não é certo se conseguiremos pagar a conta ambiental de todos os danos que ele provocou e ainda provoca. Fato é que não somos apenas indivíduos, como o individualismo capitalista insiste em pregar, somos muito mais do que isso. Somos seres inseridos em um vasto sistema que repercute em nós tanto quanto nós repercutimos nele. Abrir-se a essa visão “sistêmica” é entender que somos únicos e extraordinários e, ao mesmo tempo, pequenos e insignificantes. Somos partes de um todo, constantemente sujeitos à ação de forças maiores e, concomitantemente, temos co-responsabilidade em relação ao que acontece conosco e com o todo do qual fazemos parte.

Perceber que vivemos em um organismo vibrante, que ele opera dentro e fora de nós, nos abre à necessidade constante de atenção, flexibilidade e mudança, aspectos indispensáveis à experiência humana. Mudar nos dá acesso ao inusitado ao qual, consciente ou inconscientemente, tanto aspiramos. O passo para o desconhecido cria a existência do desconhecido dentro e em volta de nós. E assim o nosso mundo vai se tornando mais amplo e, com certeza, bem mais interessante.

 

 

      Antonella Zara

www.antonellazara.com

 

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