29 – A Expansão da Consciência
_Imagine que está se banhando em um belíssimo lago em um dia de verão. Você enxerga as montanhas à sua volta, a floresta exuberante refletida na água. Imagine a sensação da água sobre a pele. A frescura cristalina, a gentileza dos movimentos ondulantes, a textura sedosa do universo líquido à sua volta.
Um silêncio se fez enquanto a paciente, cujos olhos estavam fechados desde o início da sessão, mergulhava ainda mais profundamente no transe hipnótico. Pela expressão de seu rosto, o hipnotizador sabia que ela estava ali onde tinha que estar, em um espaço mental seguro e relaxado, uma sensação de beleza que ela trazia de longe, da infância talvez, mas que a idade adulta e suas preocupações haviam afastado dela nos últimos anos. A voz dele se tornou mais grave e ele aproveitou para enfatizar bem as últimas palavras de cada frase, as sugestões ficando ainda mais vagas, dando à mente dela a oportunidade de conduzi-la à própria cura.
_Você está sentindo liberdade… A liberdade da água que flui além dos obstáculos… Você sente saciedade… Dentro de você está tudo de que precisa para ser feliz… Agora… Você saboreia cada momento…
Pouco a pouco, um sorriso formou-se nos lábios dela e o tremor dos lábios foi o prenúncio das lágrimas que saltaram dos olhos cerrados, primeiro lentamente, logo em cascata livre. O terapeuta respirou fundo. A sua experiência lhe dizia que, como desde o início da terapia ela já começara a espontaneamente mudar os hábitos, depois de oito sessões ela estava finalmente curada de sua compulsão por comida.
Dois meses atrás ela viera procurá-lo e pedira ajuda. O clínico geral lhe dissera que ela estava muito acima do peso, que sua saúde estava em perigo, e receitara uma dieta e alguns remédios inibidores de apetite. Mas ao invés de melhorar, desde então ela piorara. Sua fome era um enorme bicho salivando e rugindo constantemente em seu ventre. Ela tinha que ter algo na boca a tempo integral, senão ela se sentia desnorteada. Ela viera vê-lo porque amigas suas haviam tido bons resultados com o tratamento de hipnose. Ela não fazia a mínima idéia do que se tratava, mas apenas queria sair deste ciclo infernal no qual entrara sem perceber.
Lentamente então ele começou a explicar o que era hipnoterapia, que durante a sessão o paciente fica em estado alterado de consciência, uma espécie de relaxamento, mais aberto às sugestões do terapeuta. No entanto, ao contrário do que diz a lenda, o paciente jamais perde a consciência durante a hipnose. Pouco a pouco, com muita conversa, ele consolidou a base de confiança entre eles. Depois, ele começou a falar com a mulher sobre seu problema, colocando as perguntas de forma a descortinar uma nova perspectiva da situação. Perguntou a ela, por exemplo, quais eram os benefícios de sua compulsão. Inicialmente a pergunta a surpreendeu, mas ela acabou confessando que um dia fora uma mulher extremamente atraente e popular junto ao sexo oposto, que sempre gostara muito de sexo. Quando conheceu seu atual marido, no entanto, se apaixonou de tal forma que não hesitou em aceitar a proposta de casamento. Somente depois de um tempo ela notou que o amor romântico não era necessariamente um antídoto contra seu voraz e poligâmico apetite sexual. Sem saber como manter-se fiel, resolveu entregar-se à gula. O aumento contínuo do peso, mensurável na balança no final de cada semana, logo repeliu os predadores do outro sexo. Em pouco tempo ninguém mais olhava para ela, nem mesmo seu marido, nem ela própria. Quanto mais o seu corpo pesava, mais triste ela se sentia. Mas pelo menos ela estava segura, protegida de si mesma.
Os sintomas eram clássicos: a insatisfação, o medo, o vazio, a incapacidade de adequação, a fome mental que leva ao desequilíbrio físico, à compulsão e ao desespero. Ao término da sessão, depois que a paciente foi embora, mais leve por dentro e por fora, o hipnotizador olhou para o relógio e descobriu que tinha um tempo livre antes de continuar a trabalhar. Serviu-se então de um chá, que sempre mantinha aquecido na garrafa térmica, e sentou-se diante da grande janela de seu confortável consultório. Lembrou-se de sua própria trajetória, de como entrou em contato com a hipnose quando ainda era um jovem e entusiasmado estudante e se descobriu totalmente fascinado pela trajetória de Milton Erickson, um famoso psicólogo e hipnotizador. Um grande mestre. Um homem que achou um caminho criativo para lidar com suas próprias terríveis dores físicas, decorrentes de uma poliomelite contraída aos 17 anos. Certa vez o terapeuta lera que Erickson referia-se à doença e à dor como seus melhores professores. Aquilo o marcara para sempre.
Mas o terapeuta envelhecera. Já não tinha as ilusões da juventude. Sabia que a raça humana estava doente, corroída pela dor e pelo medo, e que pouco havia a fazer em relação a isso. Entretanto, ainda que não pudesse mudar o mundo, evitar as guerras nem as tragédias, pelo menos as pessoas saíam da sua terapia pensando grande, enxergando a vida com outros olhos, mais despertos para a beleza. Uma beleza sutil, permeada de doçura, de uma inteligência vivaz, uma consciência onisciente, perceptível dentro e fora de nós. Algo que o ser humano insiste em querer aniquilar, mas que sempre existiu e sempre existirá. Uma luz real e uma cura possível, acessível por pontes para o inconsciente. E essas pontes têm vários diferentes nomes: espiritualidade, yoga, meditação, terapia, hipnose… Mas todas almejam a mesma coisa: a expansão da consciência. O vento balançou gentilmente as folhas da árvore à frente da janela enquanto o último gole do chá e as batidas na porta anunciaram o próximo paciente.
Antonella Sigaud
bailux said,
April 1, 2009 at 1:14 am
Lindo Muni_nuvens.
abs,
muni muni
Kingmob said,
May 8, 2009 at 5:33 pm
A saciedade está dentro, não fora…
Mob.