32 – A Tenda de Suor

32 – A Tenda de Suor

 

 

A porta se fecha. Somos mais ou menos 25 pessoas dentro de uma tenda minúscula coberta com cobertores e plástico preto de forma que fique totalmente escura por dentro. Estamos sentados em dois círculos concêntricos, colados uns aos outros ao redor de um buraco que a mulher e xamã acabou de encher até o topo de pedras incandescentes tiradas da fogueira por seus companheiros de preparação de ritual e trazidas uma por uma para ela. Sem óculos nem lentes de contato, eu me sinto em um obscuro e nebuloso mundo, e não sei ainda se isto é um sonho ou um pesadelo. As pedras jogam um pouco de luz sobre os contornos do perfil de nossa guia e, mesmo sem vê-la direito, sinto sua beleza desconcertante e sua admirável força. Sua voz é límpida e profunda e creio que todos os marinheiros de primeira viagem aqui, como eu, se agarram à sólida suavidade dela como se ela fosse uma taboa flutuando inocente no meio de um oceano assassino. Ela alterna entre canções que remetem à terra e às florestas, aos rios e aos espíritos da natureza, e explicações sobre o ritual em si, uma prática purificadora muito antiga realizada em inúmeras tribos, que eu vou traduzindo para os alemães sentados ao meu lado enquanto sentimos um calor crescente. Por alguns segundos eu me pergunto como fui parar nesta situação, trabalhando como intérprete dentro de um recinto minúsculo prestes a se transformar em fornalha, e uma parte de mim ri de mim mesma, indagando se eu ainda não me acostumei à minha própria loucura. A resposta é não.

O xamã, sentado agora ao lado dela, toma a palavra e depois começa a cantar em línguas indígenas com uma voz gutural que pouco a pouco preenche todo o espaço, tal qual o vapor que vai subindo do buraco no qual a espécie de divindade está jogando água e ervas aromáticas cujas propriedades de cura e purificação eles invocam através da música e daquilo que parecem ser orações ancestrais. Estamos no útero da terra, dizem eles, estamos nos preparando para nascer e, por isso, precisamos morrer para o passado, purificar as mágoas, suar as emoções tóxicas. E o suor cai em bicas. O ar é maciço e fervilha nas narinas como lava vulcânica. Já não consigo mais traduzir nem respirar. Nem os xamãs falam. Alguns instantes de silêncio ardente me levam ao início, me lembram que eu quase morri aos dois meses de idade por dificuldades respiratórias. Um formigamento começa a subir pelas minhas mãos e braços. Estou morrendo queimada. Não há saída.

Mas, de repente, algo em mim reluta e meu corpo se debate. Quero me levantar. Quero viver! Eu grito e alguns jatos de água fria são jogados sobre meu rosto. Todos começam a gritar e gemer, jorros gelados atravessam o vapor mortífero e se abatem sobre as faces atormentados, é um crescendo de agonias moribundas que apenas cessa quando a porta é aberta. Os curandeiros nos relembram a importância de levarmos nossas cabeças ao solo quando o calor fica insuportável, pois a terra é fresca e ela nos acolhe.  Pois a terra é mãe. Eu havia me esquecido disso. Entretanto, sinto-me covarde por não resistir em silêncio, firme e inabalável como uma rocha, mas a deusa em mim me liberta de meu juiz interior ao sussurrar: “Por pior que seja a situação, sempre há um recurso.” Algo me diz que a verdadeira força é filha da doçura, que esta é a dádiva deste momento e que eu sempre levarei esta lição em meu coração. Logo, eu me abaixo com avidez, rasgo a folha de bananeira usada para revestir o chão, cheiro a grama, tomo a terra enlameada entre os dedos e lambuzo meu rosto, meus braços, meu ventre e minhas pernas com ela. Semi-refeita do choque, eu me lembro que estou trabalhando e recomeço a traduzir.

Depois da segunda rodada de calor efervescente, nós rastejamos para fora da tenda. Quando saímos, a xamã nos recebe com sorrisos e carinhos maternais, com água fresca e regeneradora sobre a fronte e o corpo, enquanto ela canta com sua voz de ninfa: “terra meu corpo, água meu sangue, ar minha mente, fogo meu espírito”. Leve e feliz, eu rolo lentamente na lama, o cheiro de vida me inebria, a luz do dia me abençoa, a fogueira crepita alegremente, a cachoeira retumbante me convida ao longe, e eu sinto gratidão pulsando em cada poro de meu ser. Estou mais viva que nunca. Viver não basta. É preciso viver de verdade.

 

                                          Antonella Sigaud

                                     www.antonellazara.com

                           http://antonellazara.wordpress.com/

 

31 – Somos Todos Estrangeiros

31 – Somos Todos Estrangeiros

 

 

 

As crônicas que tenho escrito ultimamente falam sobre minhas experiências durante um trabalho como intérprete em um congresso. Dediquei as mais recentes reflexões, publicadas em meu blog, a alguns dos diferentes temas que traduzi. Como foi um mês de trabalho muito intenso e interessante, obviamente não poderei relatar tudo aquilo que vivenciei. Mas tenho procurado escrever sobre os momentos ou ensinamentos que mais me marcaram neste período.

Durante a noite, participantes dos diferentes cursos ministrados no congresso, profissionais de diversas áreas, aproveitavam para apresentar seus trabalhos em palestras ou demonstrações para quem estivesse interessado. Eu mesma dei uma palestra sobre meus livros e minha experiência pessoal com meditação e também atendi a muita gente com meu trabalho com cartas de tarô. Como havia vários europeus, freqüentemente as pessoas também me pediam para fazer a tradução destas apresentações, geralmente do português para o alemão ou inglês ou vice-versa. Embora fosse muito cansativo continuar trabalhando após o expediente, os assuntos eram interessantes, e por isso sempre que eu me sentia bem disposta eu aceitava o desafio.

Um momento muito bonito aconteceu durante uma demonstração de terapia através da dança. Lá estava eu, aos pulos e rebolados, traduzindo para uma dançarina e terapeuta corporal. Eu não era obrigada a acompanhar os movimentos daqueles para quem eu traduzia, mas a experiência no trabalho de intérprete me demonstrou que “interpretar” é muito mais vasto que apenas traduzir palavras. Trata-se de tentar transmitir também a “energia” daquilo que está sendo ensinado. Por isso, naquela noite, pela primeira vez, eu traduzi dançando. Foi uma experiência interessante. A apresentação visava mostrar ao grupo de pessoas ali reunido como é possível achar equilíbrio mental através do corpo e dos movimentos. A dança como terapia desperta o cliente para o próprio corpo, o ajuda a entrar em contato com a sua força vital, muitas vezes debilitada por causa do estresse, de traumas ou até mesmo de padrões emocionais como vergonha ou orgulho.

Estávamos no final da demonstração. A apresentadora havia feito um trabalho fantástico guiando o grupo de forma que as pessoas se soltassem gradativamente. Com a sensibilidade de toda verdadeira terapeuta, ela conseguiu fazer com que todos sentissem a música e experimentassem a dança como meio de reverter o cansaço após um longo dia de trabalho e estudo, de se conectar com o corpo, confraternizar com as outras pessoas, celebrar a natureza, revitalizar a si mesmo, e por fim melhorar o humor e a saúde. 

Foi então que ela pediu para que dois círculos se formassem, de forma que um ficasse dentro do outro. O de dentro seria formado pelos estrangeiros e o de fora pelos brasileiros, mais numerosos ali. Assim, dançando, ela sugeriu que os estrangeiros virassem para fora, para ficar de frente para os brasileiros, e que ambos os círculos rodassem em sentido contrário um do outro. Embalados pela ciranda, à medida que giravam todos também se olhavam. Um grupo descobria o outro, dançava e sorria para o outro. Pouco depois ela pediu que o círculo de fora abraçasse o de dentro como sinal de hospitalidade, de acolhimento e boas-vindas aos estrangeiros. Um imenso e caloroso abraço em grupo despertou risadas e alegria até mesmo nos mais tímidos. Depois disso, todos continuaram a dançar juntos.

Naquele momento, tive que me lembrar de minhas inúmeras experiências como estrangeira. Não somente em outros países, mas também cada uma das muitas vezes que me mudei em minha vida, e tive que viver em outras cidades ou em novos bairros, estudar em novas escolas ou trabalhar em locais desconhecidos. Em alguns segundos revivi a imensa insegurança e o fortíssimo medo que senti a cada uma dessas vezes, a sensação de vazio e solidão mesclada ao sabor de aventura e desafio. E pensei que realmente deveríamos abrir mais nossos braços e nossas casas, dançar mais com desconhecidos, praticar a hospitalidade como filosofia de vida, acolher e ajudar sempre que possível. Afinal, dependendo do lugar e da situação, somos todos estrangeiros em algum momento de nossas vidas.

 

 

                                                   Antonella Sigaud

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30 – A Metáfora como Caminho

30 – A Metáfora como Caminho

 

 

O xamã olhou pausada e severamente para cada uma das pessoas sentadas no círculo. Não era possível distinguir nem mais um único ruído no grupo que, minutos antes, mal conseguia se conter de animação e despejava cascatas de perguntas sobre o curandeiro. Mas aquele homem, antes tão rudimentar, quase indefeso, de repente estava transfigurado e parecia irreal naquela luz incerta que separa o dia da noite. Fixando todos de maneira estranha, com um graveto atravessado na boca, o corpo totalmente alerta, como se a ponto de saltar sobre eles, ele se assemelhava a um animal que eles ainda não saberiam definir. Aquilo finalmente fez com que seus alunos mergulhassem em um silêncio apreensivo.

Eram os anos 70 nos Estados Unidos. Naquele grupo estavam, entre outros, Richard Bandler, estudante de matemática e psicologia, e o Dr. John Grinder, professor adjunto de lingüística, também profundamente interessado em psicologia. Juntos os dois intelectuais haviam começado a desenvolver um método chamado de “Modelagem da Excelência Humana” que mais tarde faria parte de um conjunto de técnicas e formas de linguagem desenvolvidas para gerar mudanças, também chamado de Programação Neurolingüística. Neste método específico os jovens pesquisadores “modelavam” ou tentavam decifrar padrões de comportamento de certos terapeutas para depois repeti-los em sessões terapêuticas, alcançando muitas vezes resultados semelhantes aos obtidos por seus “modelos”.

Entusiasmado com os resultados adquiridos, um grupo seleto de buscadores resolveu então trazer um xamã do Peru para tentar aplicar o método a ele. Pagaram a passagem ao curandeiro, organizaram um acampamento, trouxeram mantimentos suficientes e tomaram todas as providências para permanecer ali com ele por duas semanas sem terem que sair nenhuma única vez. Naquela tarde haviam acendido cuidadosamente a fogueira e sentiram-se importantes ao sentar ao redor dela formando um círculo de aprendizado, apenas rodeados pela floresta, pelas montanhas e por um dos maiores lagos do país. Mas a tarefa resultou bem mais difícil do que pensavam, pois o xamã era diferente de qualquer pessoa que haviam estudado antes. Ele parecia estar além dos padrões de comportamento.

No início da conversa, todos começaram já a ficar intrigados quando o homem, sem nenhuma razão aparente, balançou a mão ao lado do próprio rosto, perguntando se o grupo estava sentindo o vento. Como não ventava, estranharam o fato que uma brisa sutil tornou-se de repente mais e mais forte, aparentemente acompanhando o peculiar movimento da mão do xamã. Quando esta parou de se mexer, em desfecho rápido, digno de um mestre de orquestra, a misteriosa corrente de ar cessou com ela.

Algum tempo depois, recobrados da surpresa e já envolvidos em mais uma série de infindas perguntas, o homem apontou com o dedo indicador em direção ao alto. Perdendo o fio da meada, todos os olhos acompanharam o gesto para ver que, junto com o dedo, que ele agora rodava no ar, no céu acima deles rodopiava também um falcão. Quando o xamã apontou então para uma árvore, a ave imediatamente lançou-se em um vôo certeiro e pousou num dos galhos desta. Um silêncio boquiaberto e um pouco desconcertado prevaleceu por alguns segundos até que uma tosse forçada de um dos estudantes fez com que todos respirassem aliviados, constatando que a normalidade, tal qual eles a conheciam, não tinha cessado de todo.

 As interrupções gestuais, simbólicas, e aparentemente despropositadas, que o xamã sabiamente “inseria” na conversação, acabaram por desarmar os jovens intelectuais, até então apenas interessados em suas próprias teorias e seus jogos mentais. Mas foi a partir da terceira e última esquisitice que o homem fez, imitando um bicho durante o crepúsculo, que iniciaram de fato as duas semanas de intenso aprendizado com o estranho e fascinante mestre vindo das montanhas andinas. Somente desta forma, conectando-se pouco a pouco aos seus ouvintes em um espaço além das palavras, ele conseguiu ensinar-lhes sobre um universo que eles desconheciam, mas ao qual aspiravam profundamente. Um universo no qual criar metáforas com palavras ou mímica e contar histórias tem um propósito mágico de cura e de transmissão de conhecimentos. Um mundo no qual é possível aprender não somente de seres humanos, mas também de acontecimentos e sinais, de plantas e pedras, de bichos e elementos naturais. Um mundo onde um pequeno sapo consegue se defender de seu maior inimigo, uma imensa serpente, e até mesmo fazê-la recuar apenas colocando um simples graveto na boca e tornando-se, assim, deliciosamente ameaçador.