30 – A Metáfora como Caminho

30 – A Metáfora como Caminho

 

 

O xamã olhou pausada e severamente para cada uma das pessoas sentadas no círculo. Não era possível distinguir nem mais um único ruído no grupo que, minutos antes, mal conseguia se conter de animação e despejava cascatas de perguntas sobre o curandeiro. Mas aquele homem, antes tão rudimentar, quase indefeso, de repente estava transfigurado e parecia irreal naquela luz incerta que separa o dia da noite. Fixando todos de maneira estranha, com um graveto atravessado na boca, o corpo totalmente alerta, como se a ponto de saltar sobre eles, ele se assemelhava a um animal que eles ainda não saberiam definir. Aquilo finalmente fez com que seus alunos mergulhassem em um silêncio apreensivo.

Eram os anos 70 nos Estados Unidos. Naquele grupo estavam, entre outros, Richard Bandler, estudante de matemática e psicologia, e o Dr. John Grinder, professor adjunto de lingüística, também profundamente interessado em psicologia. Juntos os dois intelectuais haviam começado a desenvolver um método chamado de “Modelagem da Excelência Humana” que mais tarde faria parte de um conjunto de técnicas e formas de linguagem desenvolvidas para gerar mudanças, também chamado de Programação Neurolingüística. Neste método específico os jovens pesquisadores “modelavam” ou tentavam decifrar padrões de comportamento de certos terapeutas para depois repeti-los em sessões terapêuticas, alcançando muitas vezes resultados semelhantes aos obtidos por seus “modelos”.

Entusiasmado com os resultados adquiridos, um grupo seleto de buscadores resolveu então trazer um xamã do Peru para tentar aplicar o método a ele. Pagaram a passagem ao curandeiro, organizaram um acampamento, trouxeram mantimentos suficientes e tomaram todas as providências para permanecer ali com ele por duas semanas sem terem que sair nenhuma única vez. Naquela tarde haviam acendido cuidadosamente a fogueira e sentiram-se importantes ao sentar ao redor dela formando um círculo de aprendizado, apenas rodeados pela floresta, pelas montanhas e por um dos maiores lagos do país. Mas a tarefa resultou bem mais difícil do que pensavam, pois o xamã era diferente de qualquer pessoa que haviam estudado antes. Ele parecia estar além dos padrões de comportamento.

No início da conversa, todos começaram já a ficar intrigados quando o homem, sem nenhuma razão aparente, balançou a mão ao lado do próprio rosto, perguntando se o grupo estava sentindo o vento. Como não ventava, estranharam o fato que uma brisa sutil tornou-se de repente mais e mais forte, aparentemente acompanhando o peculiar movimento da mão do xamã. Quando esta parou de se mexer, em desfecho rápido, digno de um mestre de orquestra, a misteriosa corrente de ar cessou com ela.

Algum tempo depois, recobrados da surpresa e já envolvidos em mais uma série de infindas perguntas, o homem apontou com o dedo indicador em direção ao alto. Perdendo o fio da meada, todos os olhos acompanharam o gesto para ver que, junto com o dedo, que ele agora rodava no ar, no céu acima deles rodopiava também um falcão. Quando o xamã apontou então para uma árvore, a ave imediatamente lançou-se em um vôo certeiro e pousou num dos galhos desta. Um silêncio boquiaberto e um pouco desconcertado prevaleceu por alguns segundos até que uma tosse forçada de um dos estudantes fez com que todos respirassem aliviados, constatando que a normalidade, tal qual eles a conheciam, não tinha cessado de todo.

 As interrupções gestuais, simbólicas, e aparentemente despropositadas, que o xamã sabiamente “inseria” na conversação, acabaram por desarmar os jovens intelectuais, até então apenas interessados em suas próprias teorias e seus jogos mentais. Mas foi a partir da terceira e última esquisitice que o homem fez, imitando um bicho durante o crepúsculo, que iniciaram de fato as duas semanas de intenso aprendizado com o estranho e fascinante mestre vindo das montanhas andinas. Somente desta forma, conectando-se pouco a pouco aos seus ouvintes em um espaço além das palavras, ele conseguiu ensinar-lhes sobre um universo que eles desconheciam, mas ao qual aspiravam profundamente. Um universo no qual criar metáforas com palavras ou mímica e contar histórias tem um propósito mágico de cura e de transmissão de conhecimentos. Um mundo no qual é possível aprender não somente de seres humanos, mas também de acontecimentos e sinais, de plantas e pedras, de bichos e elementos naturais. Um mundo onde um pequeno sapo consegue se defender de seu maior inimigo, uma imensa serpente, e até mesmo fazê-la recuar apenas colocando um simples graveto na boca e tornando-se, assim, deliciosamente ameaçador.

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