31 – Somos Todos Estrangeiros
As crônicas que tenho escrito ultimamente falam sobre minhas experiências durante um trabalho como intérprete em um congresso. Dediquei as mais recentes reflexões, publicadas em meu blog, a alguns dos diferentes temas que traduzi. Como foi um mês de trabalho muito intenso e interessante, obviamente não poderei relatar tudo aquilo que vivenciei. Mas tenho procurado escrever sobre os momentos ou ensinamentos que mais me marcaram neste período.
Durante a noite, participantes dos diferentes cursos ministrados no congresso, profissionais de diversas áreas, aproveitavam para apresentar seus trabalhos em palestras ou demonstrações para quem estivesse interessado. Eu mesma dei uma palestra sobre meus livros e minha experiência pessoal com meditação e também atendi a muita gente com meu trabalho com cartas de tarô. Como havia vários europeus, freqüentemente as pessoas também me pediam para fazer a tradução destas apresentações, geralmente do português para o alemão ou inglês ou vice-versa. Embora fosse muito cansativo continuar trabalhando após o expediente, os assuntos eram interessantes, e por isso sempre que eu me sentia bem disposta eu aceitava o desafio.
Um momento muito bonito aconteceu durante uma demonstração de terapia através da dança. Lá estava eu, aos pulos e rebolados, traduzindo para uma dançarina e terapeuta corporal. Eu não era obrigada a acompanhar os movimentos daqueles para quem eu traduzia, mas a experiência no trabalho de intérprete me demonstrou que “interpretar” é muito mais vasto que apenas traduzir palavras. Trata-se de tentar transmitir também a “energia” daquilo que está sendo ensinado. Por isso, naquela noite, pela primeira vez, eu traduzi dançando. Foi uma experiência interessante. A apresentação visava mostrar ao grupo de pessoas ali reunido como é possível achar equilíbrio mental através do corpo e dos movimentos. A dança como terapia desperta o cliente para o próprio corpo, o ajuda a entrar em contato com a sua força vital, muitas vezes debilitada por causa do estresse, de traumas ou até mesmo de padrões emocionais como vergonha ou orgulho.
Estávamos no final da demonstração. A apresentadora havia feito um trabalho fantástico guiando o grupo de forma que as pessoas se soltassem gradativamente. Com a sensibilidade de toda verdadeira terapeuta, ela conseguiu fazer com que todos sentissem a música e experimentassem a dança como meio de reverter o cansaço após um longo dia de trabalho e estudo, de se conectar com o corpo, confraternizar com as outras pessoas, celebrar a natureza, revitalizar a si mesmo, e por fim melhorar o humor e a saúde.
Foi então que ela pediu para que dois círculos se formassem, de forma que um ficasse dentro do outro. O de dentro seria formado pelos estrangeiros e o de fora pelos brasileiros, mais numerosos ali. Assim, dançando, ela sugeriu que os estrangeiros virassem para fora, para ficar de frente para os brasileiros, e que ambos os círculos rodassem em sentido contrário um do outro. Embalados pela ciranda, à medida que giravam todos também se olhavam. Um grupo descobria o outro, dançava e sorria para o outro. Pouco depois ela pediu que o círculo de fora abraçasse o de dentro como sinal de hospitalidade, de acolhimento e boas-vindas aos estrangeiros. Um imenso e caloroso abraço em grupo despertou risadas e alegria até mesmo nos mais tímidos. Depois disso, todos continuaram a dançar juntos.
Naquele momento, tive que me lembrar de minhas inúmeras experiências como estrangeira. Não somente em outros países, mas também cada uma das muitas vezes que me mudei em minha vida, e tive que viver em outras cidades ou em novos bairros, estudar em novas escolas ou trabalhar em locais desconhecidos. Em alguns segundos revivi a imensa insegurança e o fortíssimo medo que senti a cada uma dessas vezes, a sensação de vazio e solidão mesclada ao sabor de aventura e desafio. E pensei que realmente deveríamos abrir mais nossos braços e nossas casas, dançar mais com desconhecidos, praticar a hospitalidade como filosofia de vida, acolher e ajudar sempre que possível. Afinal, dependendo do lugar e da situação, somos todos estrangeiros em algum momento de nossas vidas.
Antonella Sigaud
http://antonellazara.wordpress.com/