Capítulo 40
Depois de montar a barraca diante de uma vista privilegiada, de tomar um banho quente e compartilhar um agradável jantar com outros peregrinos, aqui estamos, rodeados de cabras e galos, gatos e cachorros, sentados ao redor de uma fogueira com um americano que trabalha no albergue, um ex-peregrino chamado Darvi. A noite cai trazendo um frio penetrante. O céu é uma manta de veludo negro bordada de incontáveis estrelas. Nosso interlocutor é extremamente gentil, nos oferece bebidas, chocolate e diversos cobertores de lã. O frio e o fogo aumentam e a conversa vai ficando cada vez mais intensa.
Descobrimos que, como nós, Darvi também pratica meditações do budismo tibetano, que viajou muito pela Índia e pelo Tibete, que é instrutor de Yoga e trabalha com massagens terapêuticas. Na Bahia, onde moramos, Florencio também compartilha e ensina alguns movimentos de Yoga para um grupo de pessoas do qual faço parte. O hábito da prática de Yoga na frente do mar tem sido uma grande ajuda e um privilégio em nossas vidas. O fogo crepita, o cheiro é de madeira queimada e vastidão. O meu corpo está cansado e treme de frio, mas a mente está desperta e atenta. Florencio e Darvi parecem ter muitos pontos em comum.
A conversa continua, solta e profunda, vai de espiritualidade à música e poesia. Florencio conta como faz parte do movimento de poesia cantada chamada slam poetry, nos EUA, e canta um de seus longos e belíssimos poemas. Cada um deles é uma viagem e uma oração. Em nosso primeiro encontro, em Paris, quando escutei um poema dele pela primeira vez, caí no chão de admiração, as pernas para o ar. Florencio costuma dizer que naquele exato momento começou a ficar intrigado em relação a mim, pois ninguém nunca reagira assim antes. Bem, é verdade que eu tinha bebido bastante vinho naquela noite, mas ainda assim estava sinceramente encantada, como estou agora. Nunca me canso de ouvi-lo. Darvi também escuta emocionado.
Logo, Darvi se abre mais e conta que já trabalhou com jovens delinquentes e drogadictos nos EUA, que os levava para viajar na natureza, onde estes aprendiam a sobreviver em condições precárias. Florencio também cresceu neste universo. Um mundo feito de dor e violência, da fuga através das drogas, muito comuns na vida de vários jovens norte-americanos. Uma luta constante contra uma força destrutiva, externa e interna, um potente vírus criado por uma sociedade profundamente hostil e consumista, capaz de isolar e matar os seres mais sensíveis, mas também de levar ao questionamento, ao autoconhecimento e à busca espiritual, como aconteceu com eles. Os olhos de Darvi se perdem tristemente no fogo por alguns momentos:
_Eu tinha um amigo. Certa vez viajamos juntos. Ele me disse que já que não podia usar heroína, ele preferia morrer. Nunca pensei que fosse capaz de… Enfim, um dia, procurei por ele. Chamei várias vezes e ele não respondeu. Quando cheguei até ele já era tarde demais. Ele tinha se enforcado em uma árvore. Nunca vou esquecer daquela imagem e da dor indescritível que ela provocou em mim.
_Eu também tive um grande amigo que se matou de overdose. Eu o encontrei com a agulha enfiada no braço. Foi terrível.
Florencio comenta, a dor cortando as palavras, a dor do mundo, ardendo nos olhares, a madeira estalando no fogo. De repente, um vento estranho e gélido levanta, uivando ao nosso redor.
_Acho que os mortos sentiram que falamos deles.
Eu sugiro, colocando mais um cobertor em volta dos ombros, e Darvi sorri:
_Puxa, me lembrei agora do que me aconteceu certa vez quando estava acampando no sudeste dos EUA. Eu estava sentado na frente de uma fogueira, quando um vento súbito começou a soprar, como agora. Senti uma coisa atrás de mim, uma presença, sabe? Mas não era algo agradável. Comecei a ficar louco de medo, mas não me mexia. O negócio rugia, ou sussurrava, palavras ininteligíveis ao meu ouvido, me empurrava pelas costas. Quando eu olhava para trás não havia nada. Aquilo durou horas. Foi uma loucura. Nunca tive tanto medo em toda a minha vida.
Florencio arregala os olhos:
_Uau, que incrível! Você encontrou o Wendigo!
_Quem é Wendigo?
_É um espírito muito conhecido pelos índios norte-americanos. De acordo com a mitologia, o Wendigo foi uma pessoa comum, que passou muita fome durante um inverno rigoroso. Para se alimentar, acabou comendo seus próprios companheiros. Assim tornou-se um monstro poderoso e inteligente, capaz de imitar a voz humana, subir em árvores, carregar muito peso, fazer de tudo para caçar e conseguir se alimentar. Quando tem fome, ataca e carrega as suas vítimas em uma velocidade alucinante e as estoca em cavernas onde as devora lentamente.
_Nossa, eu sobrevivi a isso? _Darvi começa a rir nervosamente.
_Pois é, o cara deve ter gostado de você.
Agora estamos todos rindo. Há uma alegria sublime neste momento, uma sensação de família, uma magia peregrina que mais cedo ou mais tarde se manifesta para todos aqueles que já foram tocados pelo Caminho de Santiago. Diante de tanta sincronicidade, eu pergunto:
_Qual é o seu signo, Darvi?
_Sou taurino.
Florencio brinca:
_Agora só falta você dizer que faz aniversário no mesmo dia que eu, no dia 28 de abril!
Darvi olha para ele, atônito, e responde seriamente:
_Eu faço.
_É claro que faz! O Caminho falou novamente!!!
Florencio celebra, gritando e jogando os braços para o alto, tipo o homem das cavernas. As gargalhadas, as nossas e as das estrelas, ecoam na escuridão. Esta é a noite mais fria até agora, mas estamos felizes e bêbados de espanto. Mais uma vez, o Caminho nos transporta com seus mistérios e belezas insondáveis.
Próximo capítulo na quarta-feira que vem.
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