O Caminho do Amor – Capítulo 42

Capítulo 42

Chegam três hippies alemães em dois trailers, a caminho do festival Rainbow, o maior festival hippie do mundo. Eles estão viajando por Portugal e Espanha com seus três cachorros há mais de dois anos. Sentamos todos para conversar e acabo espontaneamente oferecendo a eles a leitura da Carta do Destino. Um deles recusa imediatamente. Talvez por medo ou não gostar deste tipo de coisa. Os outros dois, uma moça e um rapaz, aceitam.

Uma brisa anuncia o final da tarde. Minha voz parece vir das montanhas, não de mim mesma. Geralmente não me lembro das cartas ou daquilo que digo durante uma sessão de tarô. Como na música e na arte, os símbolos contidos nas cartas tocam a alma ali onde a razão não alcança, abrindo a mente para suas infinitas possibilidades. Termino de falar e todos estão escutando em silêncio. Os alemães agradecem e vão embora. A noite cai, menos fria do que ontem. Logo, Florencio sugere que eu faça uma leitura completa de tarô para Darvi, em troca de sua hospitalidade e de seus generosos presentes. Darvi diz que gostaria muito desta oferenda. Pelo visto, hoje é um dia de trabalho.

Darvi e eu nos recolhemos no quarto dele. A leitura dura aproximadamente duas horas. Ao final, passamos alguns minutos conversando.  Pergunto para ele:

_Você sempre teve e continua tendo uma prática intensa de meditação. Você saberia explicar qual o seu objetivo ao fazer isso?

Darvi pensa um pouco e responde:

_ No início eu falava que queria alcançar “atonement”, uma espécie de reconciliação com Deus, um tipo de espanto, ao invés daquilo que costumam chamar de iluminação. Isto me parecia mais compreensível. Mais ao meu alcance. Depois de muito tempo meditando, uma mulher me disse certa vez que eu me surpreendia com tudo, como uma criança. Cheguei à conclusão que eu havia alcançado meu objetivo. Mesmo assim, continuei meditando. Hoje penso em alcançar aquele espaço mais além das nuvens. Eu o chamaria de clareza.

Fico um momento em silêncio. Sei que Darvi está bem mais avançado no caminho da meditação que eu, mas sinto-me impelida a dizer algo a ele:

_Permita que eu lhe dê uma sugestão?

_Claro.

_Tente meditar no amor. Enquanto você almeja um espaço além das nuvens, ainda existe a separação entre o espaço e as nuvens, a clareza e a escuridão. No entanto, o amor abraça tudo, o espaço e as nuvens, a luz e a escuridão.

Novamente, essas palavras não parecem vir de mim. Elas não me pertencem. Nós nos olhamos e é como se algo tivesse se transformado. Entramos em um momento sagrado, uma dimenção de enlevo. Alguns o chamam da consciência crística. É quando escutamos a música que move o universo. Quando percebemos uma harmonia subjacente, uma perfeição inconcebível. Os olhos de Darvi se enchem de lágrimas e elas rolam livremente por seu rosto. Eu me sinto emocionada.

_Obrigado.

_Obrigada a você.

Levanto, faço uma reverência ao sábio homem diante de mim, saio do quarto, atravesso a noite e chego ao romântico quartinho onde o meu amor já me espera deitado na cama. O cheiro da madeira das finas paredes, as cobertas de lã, as sombras dançantes projetadas pela vela acesa, o corpo ardente de Florencio, o mergulho em seu infinito abraço, as montanhas submersas no negrume, o céu e seus incontáveis olhos estrelados, piscando e olhando para nós através do vidro das enormes janelas, as lágrimas de Darvi, tudo vem da mesma fonte, tudo fala a mesma linguagem.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

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