O Caminho do Amor – Capítulo 43

Capítulo 43

 

            Foi difícil deixar Darvi. No entanto, o genuíno amor peregrino com o qual ele nos recebeu nos acompanhará por muito tempo. Assim é o Caminho, sempre deixando algum lugar, alguma situação ou alguém para trás. Sempre aberto ao que há de novo. A Cruz de Ferro, um monumento fixado sobre inúmeras pedras, onde paramos um pouco depois, fala exatamente disso.  Como muitos outros peregrinos, também Florencio e eu trouxemos duas pedrinhas cada um, uma como símbolo do peso que não queremos mais carregar, outra representando os sonhos que queremos alcançar.

            Parece simples, mas não é isso o movimento mais difícil da vida? Entender que nada nos pertence de fato, ter consciência constante que apenas estamos de passagem por aqui? Estar preparados e pouco a pouco abrir mão, soltar, libertar-nos de objetos, idéias, pessoas, lugares, tudo aquilo que já não podemos levar conosco em nossa trajetória? Até mesmo nos relacionamentos é essencial praticar isso. Para amar, é necessário abdicar de opiniões e conceitos, perdoar erros e falhas, aprender com eles, ultrapassar obstáculos, nos desapegar de dores e prazeres passados, nos abrir ao desconhecido em nós mesmos e no outro, fazer o melhor possível no momento presente. Caso contrário, a convivência é impossível. O relacionamento de amor é como a própria vida. Ele segue um constante ciclo de nascimento, amadurecimento, morte e renascimento. É como um jardim no qual as plantas precisam de diferentes cuidados de acordo com as estações do ano. Às vezes é preciso prestar muita atenção e cuidar com esmero. Outras vezes é necessário confiar na natureza da planta, deixá-la se desenvolver sozinha. Trata-se de uma dança entre cuidado e confiança, responsabilidade e liberdade. O amor nos ensina a ser plenos. De um lado, plenamente centrados e responsáveis por nós mesmos, de outro lado conectados e co-responsáveis pelas pessoas e pelo mundo à nossa volta.

Fazemos uma oração e jogamos as nossas pedras, unindo-as à montanha de sonhos de todos aqueles que passaram antes de nós. O sol da tarde brilha violentamente, desnudando as montanhas, os picos e vales que ainda esperam por nós. A magnitude do amor se reflete em cada pedra, em cada passo, em cada instante.

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

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