Capítulo 44
Hoje caminhamos apenas quatro quilômetros, preparando-nos para os quarenta por vir, que nos levarão ao Vale do Silêncio. Chegar ao refúgio de Manjarin é uma boa surpresa. Dez anos depois, reencontro Tomás, o hospitalero mais emblemático e o último templário do Caminho, como ele gosta de se denominar. Ele diz que me reconhece, mas duvido um pouco. Logo, eu o parabenizo pela construção de um banheiro seco do qual a pessoa tem toda a vista das montanhas e das ruínas medievais ao fazer as necessidades. Ele sorri, orgulhoso de sua obra, após anos defecando no mato.
Começamos a conversar sobre o momento que a humanidade está atravessando. Como antigamente, Tomás é bem pessimista e compartilha a opinião de muita gente, que os próximos anos trarão catástrofes a calamidades ainda mais graves do que as que já estão ocorrendo. Ele fala das profecias apocalípticas relacionadas a 2012 e de portais dimensionais abrindo-se em diferentes lugares do planeta. De repente, um enxame de peregrinos franceses e idosos chega, com mochilinhas minúsculas, tirando uma batelada de fotos e querendo comprar suvenires. Tomás ri da minha expressão de espanto:
_Não dá para acreditar, não é? O Caminho mudou muito. Hoje em dia quase não há mais verdadeiros peregrinos. É tudo comércio.
_O que é isso, Tomás?
_Você ainda não viu? São os “turigrinos”. Turistas peregrinos. Eles compram pacotes completos nas agências de viagens, viajam em grupo e de ônibus. Todos os dias, andam alguns metros, tiram fotos, e voltam a pegar o ônibus mais à frente. Depois dizem que fizeram uma peregrinação. Bem, pelo menos eles compram lembranças do Caminho, o que nos ajuda a manter o refúgio.
Percebo um pouco de amargura na voz de Tomás. Olho para os turigrinos. Realmente, este tipo de mentalidade é um fenômeno da modernidade. O turista viaja com um grupo de pessoas conhecidas, paga para que tudo esteja organizado e assegurado, as passagens, a hospedagem, a alimentação, o seguro de saúde, as datas e os horários de chegada e partida dos lugares. A idéia é não deixar nenhum espaço para perigos nem para o inusitado. As férias são uma continuação do cotidiano no qual a maior preocupação dessas pessoas é a segurança. O medo do desconhecido e da morte é uma assombração constante. Toda a vida delas é uma construção para não entrar em contato com este medo ancestral. Sei que isto entristece Tomás, pois sem se abrir ao desconhecido é muito difícil despertar aquela espiritualidade mais profunda, a sensação de estar conectado com algo maior. Para quem já vivenciou este tipo de conexão, é muito claro que os maiores problemas de nosso mundo derivam da falta deste tipo de consciência mais vasta.
Por outro lado, sei que esta gente nunca faria o Caminho se não fosse dessa maneira. Sinto que a energia do Caminho é tão forte e antiga, que talvez seja capaz de tocar qualquer um que passar por aqui. Quem sabe? Talvez uma simples imagem ou situação vivenciada aqui possa mudar a maneira de pensar ou sentir de algumas dessas pessoas. No final das contas, somos todos peregrinos no caminho da vida.
Às seis horas da tarde, Tomás faz a oração templária, um engraçado e comovente ritual no qual ele se veste como um cavaleiro da Ordem, segura uma espada, invoca anjos aos gritos e se curva diante da Virgem Maria. Sinto-me emocionada ao participar novamente da oração após tantos anos. Logo depois, o jantar é servido, uma generosa e simples refeição oferecida pelo refúgio. Florencio não consegue se conter e fica de olho nos diferentes presuntos crus e chorizos pendurados no teto. A criança interior de meu marido reaparece:
_Eu quero presunto! Eu quero chorizo!
Tomás sorri gentilmente:
_Sinto muito, mas eles são a nossa reserva para o rigoroso inverno, quando não ganhamos muitas doações.
_Ora, todo mundo sabe que o presunto vale ouro! Os templários não gostam de dividir as suas riquezas! – frustrado em seu desejo, Florencio brinca e todos dão risada. Por minha vez, sinto-me grata pela refeição e feliz por estar em uma daquelas situações típicas do Caminho, na qual estou comendo bem e trocando idéias com italianos, alemães, franceses, espanhóis e até mesmo uma japonesa.
Ao fim do jantar, Tomás desenha um mapa do caminho que nos levará ao Vale do Silêncio no dia seguinte. É um monte de rabiscos super confusos, que supostamente nos guiarão nas florestas e montanhas não sinalizadas. Igualzinho ao mapa que ele desenhou para mim dez anos atrás. Até as suas palavras são as mesmas do passado, quando ele chama a nossa atenção para uma espécie de clareira que haverá no caminho:
_Cuidado para não se perderem aqui!
Antes de nos retirarmos para nossa barraca, armada atrás do refúgio, acompanhamos um ajudante de Tomás até uma pedra. Ele sugere que nos deitemos ali para apreciar o céu noturno. Logo, ele conta como foi curado por um câncer graças à ajuda de Tomás, depois que todos os médicos lhe negaram a possibilidade de cura. Depois disso, veio viver aqui. Ele inspira profundamente:
_Aproveitem. Este lugar tem uma energia muito especial.
Começamos então, espontaneamente, a uivar para a imensidão estrelada. Florencio e ele até competem para ver quem consegue uivar mais alto. O resto do mundo já não existe. As estrelas respondem. As feras estão soltas. Os corações alados. Sinto um friozinho na barriga. Sei que a maior aventura do Caminho começa amanhã.
Próximo capítulo na quarta-feira que vem.
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