Capítulo 45
Dez anos atrás eu dormi sozinha na caverna de San Genadio, um escritor e asceta que viveu ali no século IX. Nela enfrentei meus piores demônios. Meus medos, minhas tristezas, minha falta de fé. Ali começou um profundo processo de cura em minha vida. Por isso resolvi voltar a este lugar com Florencio.
No caminho vemos novamente uma linda planta que parece com asas de anjo. Com ela, enfeitamos nossas mochilas. Estamos caminhando nas montanhas há muitas horas. Não temos certeza se estamos na trilha certa. Temos apenas o mapa desenhado a mão por Tomás. À nossa esquerda algumas ovelhas pastam docilmente entre as árvores. A luz do entardecer penetra por entre as folhagens e dá a tudo um aspecto de sonho. Tomás disse que há apenas um trecho no qual é perigoso se perder. Talvez seja este. Decidimos tentar passar para o outro lado da clareira que está à nossa direita e seguir por outra trilha. Quando começamos a atravessá-la, três imensos cachorros que deviam estar cuidando das ovelhas, começam a latir freneticamente e correr em nossa direção. Parecem três monstros pré-históricos voando com as garras arreganhadas, dispostos a nos engolir a qualquer custo. Florencio e eu nos olhamos preocupados:
_Ops… E agora? – pergunto eu.
Sem saber a resposta, decidimos apertar um pouco o passo. Talvez isso seja um sinal de que devemos ir mesmo nesta direção. Seria bom fazermos isso o mais rápido possível. No entanto, ao chegar à outra trilha, vemos que ela está bloqueada por árvores caídas e uma cerca elétrica.
_Por aqui não dá. _Florencio conclui.
Novamente nossos olhares se encontram. Sem nada falar, entendemos o que tem que ser feito. Viramos para os nosso algozes e começamos lentamente a voltar para trás. Agora os cachorros já estão muito perto. São realmente enormes e seus latidos babados parecem rugidos de leões famintos. Caminhamos passo a passo na direção deles. Não há mais nada a fazer, o negócio é enfrentar o medo. Estamos em um transe silencioso, Florencio e eu. Os passos são firmes, entregues ao momento presente. Andamos com calma e sem olhar diretamente para os cães. Começamos a chamar baixinho, fazendo sons amigáveis:
_E aí, cachorrinhos?
_Olá, amigos…
Curiosamente, assim que começamos a nos dirigir para o local de onde saímos, os bichos páram de latir e começam a nos acompanhar abanando o rabo. Quando finalmente chegamos à trilha, eles nos deixam e voltam para as ovelhas. Nós dois percebemos imediatamente o que acaba de acontecer. Os cachorros nos ajudaram a não nos perder e, além disso, nos guiaram para o caminho certo. Emocionada, penso imediatamente na passagem bíblica que diz: “O senhor é meu Pastor e nada me faltará”. Antes de recomeçar a caminhar, olhamos para trás com espanto e reverência e gritamos:
_Muito obrigado!
Próximo capítulo na quarta-feira que vem.
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