O Caminho do Amor – Capítulo 47

Capítulo 47

Como previsto, o mau humor, as dores e as dificuldades de Florencio crescem vertiginosamente ao longo do caminho. O transe intenso da caminhada hoje é doloroso e profundo para nós dois. No entanto, as cadeias de montanhas à nossa volta são de uma beleza estonteante. A noite começa a cair e faz surgir um vento desconfortável. Os ventos e as alturas sempre me deixam inquieta. Começo a me sentir massacrada pela magnitude da natureza, pelas queixas de meu marido, por minha apreensão em voltar a este lugar depois de tanto tempo e também por minha vertigem. Estou caminhando mais à frente de Florencio. De repente, após algumas reclamações, trocamos gritos e desaforos à distância. Exausta, desabo no chão e tenho uma furiosa crise de choro. Está anoitecendo e ainda não chegamos nem mesmo a Peñalba de Santiago, o lindo vilarejo medieval que fica a dois quilômetros da caverna onde queremos dormir. Florencio se aproxima e eu aviso:

_Olha, eu achei que estava compartilhando um lugar especial com você. Não tenho culpa que você está sofrendo. Também não está sendo fácil para mim. Se você não cooperar, não vou mais a lugar nenhum!

Subitamente calmo, Florencio resolve:

_Tudo bem, não vou dizer mais nada.

Respiro fundo, levanto e sigo caminhando. A noite cai. Chegamos à Peñalba na escuridão. O vilarejo é belíssimo, iluminado por postes que emitem uma luz amarelada. Estamos em algum lugar do passado. Alguns espíritos certamente ainda andam pelas ruas de pedra achando que não morreram, pois muito pouco deve ter mudado desde a Idade Média. Perambulamos pelas ruelas desertas até encontrarmos uma pensão. Pilar, a dona, nos recebe na porta e explica:

_ Desculpem, mas a pensão está lotada e não há outra aberta por aqui nesta época do ano. Porém, se quiserem, podem acampar em meu terreno, logo na entrada do vilarejo.

Aceitamos de bom grado. Após fazer umas compras no único bar, armamos a barraca no escuro, no terreno oferecido por Pilar. Bebemos uma garrafa de vinho oferecida por Darvi, comemos sanduíche de jamón curado e chocolate de sobremesa. Caímos em um sono pesado e sem sonhos. Ao acordarmos e abrirmos a barraca, as montanhas à nossa frente são inacreditáveis. A paisagem é épica e vasta. Mais abaixo, além do charmoso vilarejo, é possível ver o Vale do Silêncio, coberto misteriosamente pelo bosque espesso e cheio de vida, como a vulva de uma deusa. Estamos pasmos por tamanha magnificência. O coração se dilata. A magia transpira da paisagem. Sem dúvidas, este é um dos lugares mais bonitos do mundo.

De repente, estremeço de susto, pois uma música alta quebra violentamente o encanto silencioso da paisagem. Olho para o lado e vejo que Florencio ligou o som portátil na altura máxima. Ele sai da barraca feliz da vida. Uma irritação poderosa toma novamente conta de mim.

_Dá para desligar a música? – eu grito.

_O que?

A música está tão alta que ele não me escuta!

_Dá para desligar esta merda?

_Não acredito que você está me pedindo isso agora! Este lugar é maravilhoso e fica perfeito com esta trilha sonora! Você é uma pesada! É uma bruxa controladora!

_E você é um folgado que não pensa nos outros!

As sombras. Ele começa a gritar. Por um rápido momento, vejo meu padrasto na minha frente, quando ele perdia o controle, berrava e xingava incontrolavelmente. Um arrepio de aversão percorre todo o meu corpo. Logo, penso que durante as brigas Florencio provavelmente também  enxerga experiências dolorosas do seu passado em mim. Afinal, não é por acaso que as pessoas se apaixonam…

O amor é a dança da luz com sombras. Mais além, o amor é a música que faz a dança acontecer. Quando nos abrimos a esta música, a luz dos dançarinos se funde, as sombras se dissolvem, e o milagre acontece. No momento que isso ocorre, a força da vida nos invade e nos transforma. Um relacionamento torna-se espiritual quando os parceiros entendem que têm que trabalhar em si mesmos e com o outro para conquistar estes momentos sagrados.

Mas às vezes nos esquecemos disso. Como agora. Sinto-me exausta. Assim não vou agüentar mais muito tempo. Estou prestes a ir embora de vez. Não sei se vamos conseguir curar essas feridas. Resolvo rezar em voz alta.

_ Deus, por favor, me ajude a dizer as coisas que me atrapalham para este homem de uma forma que ele compreenda que não o estou ofendendo.  Ajude-o a aprender a se comunicar comigo de outra forma, mais gentil, a me dizer o que pensa e explicar aquilo que acha errado sem ter que gritar nem ofender. Amém.

Florencio apaga a música. Ficamos em silêncio. Estamos no Vale do Silêncio. O encontro com os demônios já começou.

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

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