O Caminho do Amor – Capítulo 48

 

Capítulo 48

Encantados pela magia do lugar, resolvemos apenas ir às cavernas a partir de amanhã. Após uma tarde de ioga e meditação, à noite comemos no tal bar que mais parece uma taberna bem antiga. Os donos e os habitantes do vilarejo em geral parecem sisudos e não são de muita conversa. Tudo aqui é silêncio. No entanto, ainda que bem cara, a comida regional que nos é servida é muito saborosa. Voltamos satisfeitos para a barraca e logo caímos em um sono profundo.

No meio da noite, acordo ao som de grandes cães uivando e latindo. A barraca é tão fina que é possível senti-los correndo e arfando pesadamente ao nosso redor. De repente, escuto Florencio soltando gritos abafados e chorando, mas percebo que ainda está dormindo. Uma onda de arrepios percorre a minha pele, os pêlos se eriçam nas minhas costas, como um gato quando sente algo nefasto. Agarro Florêncio e começo a sacudi-lo suavemente até que ele acorde.

_Você está bem? O que está acontecendo?

Coberto de suor, os olhos vermelhos de choro abrindo-se lentamente, ele geme:

 _Eu acho que eu tive um encontro com o diabo…

Quase sem fôlego e visivelmente assustado, ele começa a me contar em detalhes minuciosos o seu encontro com a escuridão enquanto os uivos dos cães ainda perfuram a noite:

_Eu acordei em uma espécie de vazio que cheirava a decadência. O odor nauseante e doce de carne podre… Um menino saiu da escuridão. Eu o reconheci. Éramos amigos na escola, mas às vezes nós não éramos amigos, sabe? Todos nós temos pessoas assim em nossas vidas. Às vezes nos dávamos bem, outras vezes éramos inimigos. Mesmo assim, quando seus olhos azuis mergulharam nos meus, senti as mesmas dores ulcerosas na barriga que eu tinha quando eu era criança. Um tipo de dor pungente, como uma apendicite comendo as entranhas… Meu Deus, a dor era terrível e eu comecei a chorar por causa das sensações dilacerantes. O que aconteceu em seguida foi tão horrível que eu não quero nem mesmo dizer… Eu comecei a sentir minúsculas garras me rasgando por dentro. Então, fui dominado por uma enorme onda de dor que tomou conta de todas as minhas veias. Comecei a excretar, a literalmente dar a luz pelo ânus, em lenta agonia, a diversas coisas mortas. Centenas, milhares delas. Tirei de mim inteiros ratos mortos, as suas garras desvastando as minhas cavidades internas, tirei aves mortas e outros cadáveres que nasciam da minha barriga inchada. À medida que eles saíam, eu vomitava sangue negro e bílis, uma gosma bem esverdeada, eu me engasgava e chorava de dor. A sensação afiada e cortante era absurdamente dolorosa, era um parto homorrágico, e de repente contorciam-se à minha volta inúmeros cadáveres de pequenos animais e pássaros. Quando olhei novamente para os olhos do menino, em meio às  lágrimas, ele sorriu gentilmente, e disse: “Você está vendo? Isto é o que eu posso fazer com a alma de um homem. Você não sabia? Eu fui feito para derrubar anjos.” Neste momento, eu engasguei com o sabor de ferro do sangue sobre meus lábios e acordei dentro do sonho. Subitamente, tudo se tornou lúcido, como se eu percebesse que estava dormindo. Eu olhei nos olhos da criança, agarrei uma grande espada que estava ao meu lado, e perguntei: “Espere aí, quem é você?” Rindo, ele começou a desaparecer na escuridão enquanto dizia:  “Ah, meu pobre e obscuro Serafim, você sabe muito bem quem eu sou.” E o eco começou a desaparecer. Acordei com você me sacudindo. Meu Deus, era tão vívido! Tão real! Meu Deus! Ele me disse que ele foi feito para derrubar anjos! Ele realmente me disse que ele foi freito para derrubar anjos!

Florêncio está delirante. Com os dedos, eu o impeço gentilmente de repetir a frase mais uma vez. Os latidos páram. Florêncio senta, sai da barraca e vomita. Depois disso, ele se deita novamente ao meu lado. Eu o abraço, coloco a mão sobre seu peito até que sua respiração se acalme. Pouco depois, voltamos a adormecer. Quando abrimos a barraca, de manhã, um imenso cão está deitado a poucos metros, olhando em nossa direção, como se estivesse tomando conta de nós. No momento em que saímos, ele levanta e vai embora. Mais tarde, no bar, apenas escutamos em silêncio enquanto dois aldeões falam entre si:

_Você escutou os cachorros ontem à noite? Eles estavam enlouquecidos! Nunca vi nada igual!

_É verdade! Eles não paravam de latir e correr por todas as partes. Quase não consegui dormir.

Intrigados, Florencio e eu nos olhamos. Acho que finalmente estamos preparados para ir para a caverna.  

 

Próximo capítulo na quarta-feira que vem.

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