22 – A Via Sacra
Ela tinha 31 anos de idade e estava casada há oito anos. Eles se amavam, tinham uma vida bem-sucedida, uma linda casa em Manhattan, oito linhas telefônicas, amigos com os quais compartilhavam piqueniques e festas. O próximo óbvio passo era ter um filho. Mas havia algo “errado” com ela. Algo dentro dela dizendo-lhe constantemente: “Eu não quero mais estar casada.” Durante as tarefas do cotidiano, ela se esquecia disso, mas quando chegava a noite, nos poucos momentos de silêncio que, por milagre ou acaso, ainda acontecem a um habitante de Nova Iorque, ela ouvia este pensamento repetindo-se incessantemente. Até que um dia, fechada no banheiro enquanto seu marido esperava por ela na cama, não conseguindo mais negar a realidade a si mesma, ela caiu aos prantos. Foi naquele momento, depois de muito tempo sem pensar em Deus, que ela rezou: “Por favor, diga-me o que tenho que fazer.” A voz que ressonou então em sua cabeça era a sua própria voz, mas ao mesmo tempo uma voz que ela nunca escutara antes. Uma voz sábia, calma e compassiva. Uma parte dela que ela ainda não conhecia. A resposta que esta voz lhe deu a espantou justamente por sua extrema simplicidade: “Vá dormir”. Pois naquele momento não havia realmente nada de melhor a fazer. Seguiu o conselho. Mas sete meses depois ela se divorciou. Depois de ver a sua vida desmoronar e de um divórcio extremamente difícil, vendeu tudo o que tinha e foi viajar por um ano. Ela viajou “à procura de tudo”, ou mais especificamente, de prazer, devoção e equilíbrio. Uma busca que a fez passar 4 meses na Itália, quatro na Índia e quatro na Indonésia. Quem se interessar pelo que aconteceu nesta viagem, leia o livro “Reze, Coma e Ame”, um relato maravilhoso da escritora americana chamada “Elisabeth Gilbert”.
O verbo viajar vem da palavra latina “via” que significa caminho, tanto o caminho percorrido quanto o caminho a seguir. Não precisamos nos deslocar fisicamente para viajar. Ler um livro ou um poema, escutar uma canção, conversar com uma pessoa interessante ou olhar nos olhos de alguém já pode ser uma grande aventura. Mas fato é que viajar é essencial, tanto quanto comer, beber e respirar. Viajar é viver. Viajar é sair da rotina. Ou olhar para ela de outra maneira. Arriscar-se no desconhecido. Aqui e agora. Pular no abismo chamado “eu”. Já.
Os neurocientistas comprovaram que o cérebro ativo não envelhece. A isso eles chamam de neuroplasticidade. Com atividade não se referem a apenas aquilo que sempre fazemos, porque sabemos e precisamos, e talvez até gostemos de fazer. Eles dizem que é necessário continuar mudando e aprendendo. No entanto, até há poucas gerações e ainda hoje em dia muita gente não acredita nisso. Quando a pessoa envelhece, se aposenta ou adoece gravemente, tanto a sociedade quanto ela pensa que este é o momento de enfim parar. Muitos idosos vivem atualmente no abandono, na paralisia emocional e mental, porque para eles e todos que os conhecem a vida deles parou. Desmaiou a curiosidade. Cessou o aprendizado. Terminou a vertigem. Acabou a viagem. Bem-vindos ao fim. E ele tem milhões de nomes, desde Alzheimer até depressão.
Mas o que esqueceram é que o fim não passa de uma idéia. Uma palavra simpática, um enfeite bonitinho para a última página de um livro. Entretanto, a viagem maior, aquela da página eternamente em branco, a página-mãe de todas as palavras e coisas e seres, aquela puta fabulosa e sempre fértil, sempre dando para todos e sempre parindo, esta com certeza não acaba. Aprender é estar aberto a Ela, pulsando e atento, permitindo-se tanto o desejo quanto o descanso, fazendo acrobacias com a nossa surpreendente sabedoria, que cresce incansavelmente, e com a nossa inegável ignorância, que sempre está presente.
Viver. Soltar as amarras antes que a morte venha soltá-las. Pois ela vem. Mais cedo ou mais tarde. Ela vem. Quando acaba este parágrafo. Entre um momento e o outro. Ela vem. Por que lutar contra o inevitável? Por que não doer e morrer conscientemente agora mesmo e renascer ali, no próximo instante? A mudança é a única característica imutável da vida. É tanto o fardo quanto o trunfo da existência. Uma oportunidade invencível. Tudo está sempre mudando e sempre podemos mudar tudo. Se não pudermos mudar o que está fora, há mundos inimagináveis a descobrir lá dentro, no fundo mais profundo de nosso ser. Via-jar. Via mar. Via mor. Via amor. Via sacra. Eis a chave para todas as portas. Eis a passagem para todos os destinos.
O resto é oceano.
Antonella Sigaud